À tua volta uma azáfama de balanços do ano moribundo, agradecimentos e mensagens esperançosas de Ano Novo. O passado que ainda não se consumou e a esperança do que há-de vir.
À tua volta as compras de
última hora para colocar na mesa, os convites, as combinações de encontro logo
à noite, o olhar para o relógio como se este avançasse sob pressão.
Estás sentado, ouvindo um
piano que debita acordes melancólicos na companhia de uma voz estranha,
envolvente, cativante. E pensas no que foi, no que gostarias que tivesse sido,
no que perdeste ou não aproveitaste. Despedes-te, silenciosamente dos que deixaram
de te bater à porta e dos que viram a tua porta ser-lhes fechada
irremediavelmente. Questionas-te pela última vez (será?) se terás agido bem com
estes últimos, como se isso pesasse na tua decisão.
O piano acompanha-te nas
divagações, em jeito de balanço anual. Passou mais um ano, numa fase em que os
anos têm o peso de décadas e lá estás tu a pensar no tempo. Há algum tempo que
notas essa fixação pelo tempo, como se ele te pesasse cada vez mais, como se
medisses os teus passos pelo ponteiro do relógio.
Tu, que ao longo dos anos
coleccionaste coisas, mas mais diversas coisas, desde objectos a amigos,
tornando-te escravo de tudo quanto foste guardando e que tanto te pesa,
tornaste-te também escravo dos minutos que originam horas e das horas que
traduzem dias e dos dias que dobram anos.
À tua volta todos andam
presos pela ilusão cativante de mais uma festa pendurada na contagem regressiva
dos ponteiros do relógio, de um copo de espumante, de champanhe ou de cava, a
ilusão cativante dos ponteiros que avançam contando regressivamente.
Regressivo é o tempo que
te resta, o tempo que te angustia e te faz perder no limbo das memórias, dos
balanços tardios, do tique-taque mecânico de coisas que contam sem parar.
E o piano, também sem
parar, faz as teclas dedilharem sons, numa imagem regressiva, num som
melancólico, hipnótico, alheio à azáfama das pessoas embriagadas pelo espírito
de fim de ano. E tudo acontece numa contagem decrescente, numa paisagem cada
vez mais agreste, progressivamente mais vazia.
É tempo de balanço. Sempre a palavra tempo…