sábado, 31 de janeiro de 2026
Inesquecível
sábado, 24 de janeiro de 2026
"You are so beautiful"
Abro mão, largo as cinzas
sobre as pálidas águas de Novembro que o frio vento empurra contra as rochas do
pontão.
Há sempre algo contra,
mesmo que seja apenas um vento desavindo, vindo de qualquer parte. Os ventos
nunca se anunciam, apenas aparecem num repente.
Através da porta aberta
do carro, uma musica chorona acompanha a cerimónia: “..you are so beautiful to
me…”
Não há prece, não há
despedida; não se chora o que nunca existiu, nem se recorda uma mera intenção.
Esfrego as mãos,
liberto-me dos últimos fragmentos, baixo-me e lavo as poeiras que teimam em se
agarrar à pele; vão com a corrente. Há pensamentos que nem na ponta do cigarro
se consomem.
Não há direito a
despedida, apenas um sorriso irónico, dissimulado entre dois travos de fumo
negro, porque a voz rouca que apregoa - “...you are so beautiful to me…”- me
recorda a ironia da situação que me trouxe a este pontão, ainda antes da data
prevista.
Está um frio cortante!
Aperto o casaco, levanto-lhe a gola e entro no carro trauteando uma música que
ouvi num qualquer sótão da memória:
“Can’t you see?”
Detesto tangos
disfarçados de valsa lenta…
segunda-feira, 19 de janeiro de 2026
Sensações
Rios colidem no vidro da
janela
Bem juntinho a meus olhos
É uma da manhã,
D’uma outra noite
O frio, tenso, vem de
dentro
É intenso, é doentio
A chuva, lá fora, brinca
comigo
Uma luz ténue ilumina o
quarto
Em mim há escuridão
Tremem sombras na parede
Treme o fumo do borrão
Treme o fio que me prende
ao chão
Uma porta bateu de dentro
Será silêncio ou solidão?
sábado, 17 de janeiro de 2026
Da doce gravidade das quedas
Chegou atrasado e
desusado
Mas foi tão inevitável
como cair
Cruzados olhares,
trocadas palavras desastradas
Bateu um ardor nas faces
e um brilho baço nos olhos
O pensamento perdeu-se
num mar de imagem parada
E descambou em suspiros
de olhares trémulos no relógio
Não percebeu que deu o
primeiro passo de um caminho sinuoso
Para um destino incerto,
doloroso, doce, amargo mas sempre cativante
O desejo trai-lhe a
vontade, angustia pela ausência, entorpece pela presença
Desatinado reincidente
que te deixaste, de repente, arrastar para um mar revolto
Irás morrer mil vezes e
renascer, irás ser de novo criança e crescer na dor da esperança
De um querer sem razão de
ser, de um possuir múltiplo de prazer, de uma fome que não sacia
De uma dor que é
incerteza, de um afago repetido e nunca revivido, porque isso é amor
E o amor é sempre parido
em dor e em dor arrependido
sexta-feira, 16 de janeiro de 2026
A minha cidade
A rua era estreita e
íngreme. As casas, estreitas e altas, escorriam humidade pelas cicatrizes
centenárias.
O chão, de calhau rolado,
era um ringue de patinagem no inverno. O sol dificilmente descia às pedras e o
cheiro a mofo era como um perfume de marca.
A minha cidade tinha uma
parte muito antiga, corroidamente velha, deliciosamente genuína, onde as casas
eram testemunhas das estórias vividas naquelas ruas estreitas e essas mesmas
testemunhavam muitas cenas caseiras. Eram como as velhas intriguistas, as casas
e as ruas empedradas.
No verão, no quente verão
da minha cidade, era um descanso passar por essas ruas frescas, amenas,
calmantes.
A minha cidade, a minha
velha cidade é um misto de encanto e sedução. E é só minha.
Há muito que deixei de a
habitar; visito-a, de fugida porque me dói a transformação que se tem operado.
Não porque esteja pior, mas porque as minhas imagens dela são outras, são mais
bonitas, são vistas pelos olhos de uma criança e pelos de um adolescente e,
finalmente de um jovem adulto.
E essas sim, são as
imagens da minha verdadeira cidade, aquelas que preservo e amo.
Por isso as suas ruas
continuam ingremes e estreitas e as casas suam a sua velha podridão, libertando
um perfume bafiento único. E assim igualei a minha cidade, envelhecendo cada um
ao ritmo do seu tempo.
É bela a minha cidade,
conquistando a serra, afagando o rio que a banha.
E é só minha porque é nos
meus olhos que ela vive e sempre lá estará.
quarta-feira, 14 de janeiro de 2026
Até quando
Tardia se faz a hora do
desespero
Quando em teu regaço
repouso
Nele o tempo para e eu
descanso
Sabendo que quando minha
cabeça erguer
Será mais um adeus até
quando
E um mar de saudade
soluçada
E um não saber em que
horizonte
Voltarei a sentir, em mim,
o teu regaço
O afago suave dessa mão
nos meus cabelos,
O doce embalo da voz
Que me trava o
desassossego
e me congela o tempo
No vidro riscado do relógio.
sexta-feira, 9 de janeiro de 2026
Os caminhos da lua
Parti sentindo a perda
Quebrei o contacto
Desfiz a ligação
Senti a falta
Plenamente vazio
Perfeitamente desfeito
Parti. Quebrado, vazio
O tempo passou
O Inverno suavizou
A lua encheu de novo
E hoje olho as cicatrizes
Sem dor
Sei que pode repetir-se
Embora não queira
Mas sei que não domino
Os caminhos da lua
Que seja cheia
Se assim tiver de acontecer
sábado, 3 de janeiro de 2026
Entre nós
Entre nós há algo mais
Que um simples gostar
Um desafio de palavras,
Um certo olhar
desconcertante
Um provocar, um hesitar
Um tudo e um nada
Uma corrida parada
E um louco e inesperado
gargalhar
Entre nós há um jogo
Uma linha ténue afiada
Um saltitar por entre o
vazio
Um silencio ruidoso
E um quero-te soletrado
Não assumido, velado
Envergonhado, como se
temesse
Tropeçar no próprio
desejo
Entre nós não passa o ar
E somos só nós
Com um desejo receoso de
ficar