Abro mão, largo as cinzas
sobre as pálidas águas de Novembro que o frio vento empurra contra as rochas do
pontão.
Há sempre algo contra,
mesmo que seja apenas um vento desavindo, vindo de qualquer parte. Os ventos
nunca se anunciam, apenas aparecem num repente.
Através da porta aberta
do carro, uma musica chorona acompanha a cerimónia: “..you are so beautiful to
me…”
Não há prece, não há
despedida; não se chora o que nunca existiu, nem se recorda uma mera intenção.
Esfrego as mãos,
liberto-me dos últimos fragmentos, baixo-me e lavo as poeiras que teimam em se
agarrar à pele; vão com a corrente. Há pensamentos que nem na ponta do cigarro
se consomem.
Não há direito a
despedida, apenas um sorriso irónico, dissimulado entre dois travos de fumo
negro, porque a voz rouca que apregoa - “...you are so beautiful to me…”- me
recorda a ironia da situação que me trouxe a este pontão, ainda antes da data
prevista.
Está um frio cortante!
Aperto o casaco, levanto-lhe a gola e entro no carro trauteando uma música que
ouvi num qualquer sótão da memória:
“Can’t you see?”
Detesto tangos
disfarçados de valsa lenta…
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