sábado, 24 de janeiro de 2026

"You are so beautiful"

 

Abro mão, largo as cinzas sobre as pálidas águas de Novembro que o frio vento empurra contra as rochas do pontão.

Há sempre algo contra, mesmo que seja apenas um vento desavindo, vindo de qualquer parte. Os ventos nunca se anunciam, apenas aparecem num repente.

Através da porta aberta do carro, uma musica chorona acompanha a cerimónia: “..you are so beautiful to me…”

Não há prece, não há despedida; não se chora o que nunca existiu, nem se recorda uma mera intenção.

Esfrego as mãos, liberto-me dos últimos fragmentos, baixo-me e lavo as poeiras que teimam em se agarrar à pele; vão com a corrente. Há pensamentos que nem na ponta do cigarro se consomem.

Não há direito a despedida, apenas um sorriso irónico, dissimulado entre dois travos de fumo negro, porque a voz rouca que apregoa - “...you are so beautiful to me…”- me recorda a ironia da situação que me trouxe a este pontão, ainda antes da data prevista.

Está um frio cortante! Aperto o casaco, levanto-lhe a gola e entro no carro trauteando uma música que ouvi num qualquer sótão da memória:

“Can’t you see?”

Detesto tangos disfarçados de valsa lenta…