sexta-feira, 27 de março de 2026

A arte do silêncio

 



Gradualmente as respirações abrandaram

Os corpos ainda luziam da transpiração

Ela enconchou-se nele e, por cima do ombro, lançou-lhe um sorriso comprometido

Ele retribuiu com o olhar brilhante de cansaço

Afagou-lhe os cabelos

Beijou-lhe a nuca

E enlaçou-a

Num sono tranquilo


sábado, 28 de fevereiro de 2026

Por vezes

 

Por vezes, ao fim da tarde, naqueles momentos em que o sol já baixo no horizonte, nos presenteia com uma luz difusa e mágica, eu acredito ouvir os seus passos breves e ligeiros no corredor. E uma fragância fresca frutada, como a que usava, aflora-me as narinas. São breves instantes de breve loucura, momentos de ilusão que me permitem manter um certo equilíbrio emocional, em particular quando a bendita solidão me ataca de mansinho e me embala no seu canto irresistível.

É terrivelmente cativante a solidão, apenas suplantada pela tristeza.

Esta última seduz-nos, envolve-nos, apodera-se da nossa vontade e alimenta-se das nossas fraquezas.

Por isso essa breve ilusão de a sentir, tanto tempo depois, sempre que a luz obliquamente breve do sol brinca no meu soalho, é um escudo que me protege da solidão e da tristeza por instantes, embora eu, infalivelmente me volte a render a ambas e a adormecer nos seus braços a cada noite.



domingo, 22 de fevereiro de 2026

DOS GANHOS E DAS PERDAS

 

Sentiu aquela dor de perda

Como se a perda fosse sua

Sabe que sem ter querido

Quis que assim acontecesse

Ao pôr um fim à loucura

Afinal a dor que sentia

Era dela que não sua

E com esta doce ilusão

Sentiu não ser seu o vazio

E ignorou a sensação de frio

Dessa dor que era a sua



sábado, 14 de fevereiro de 2026

Momentos

 

Coloquei o velho piano de cauda sob o beiral do telhado; apenas as teclas ficaram alinhadas com o mesmo.

Nestas tardes inconstantes, ou nas noites de verão, gosto de me sentar cá fora, por baixo do telhado avançado, pertinho do piano.

Sentado sozinho na poltrona de verga, forrada a suavidade, escuto as gotas que se desprendem do beiral, batem nas teclas do piano e produzem sinfonias naturais de sons caóticos.

Sentado sozinho na minha poltrona, rodeado de silêncios quentes ou de húmidos sons caóticos, sinto-me solitariamente acompanhado com os meus pensamentos. São os meus fiéis amigos, por vezes inoportunos, muitas vezes mal vindos, sempre presentes.

Sozinho não estou tão só.

Tenho o velho piano de cauda, a minha poltrona de verga forrada a suavidade e pensamentos que inventei para consumo próprio.

E tenho os sons do clima, os ritmos do tempo e a liberdade de olhar em volta sem limitações.

Sentado, sozinho, tenho um mundo... onde até tu és presença.



sábado, 31 de janeiro de 2026

Inesquecível


Inesquecível é o tempo que decorre num beijo; uma carícia de lábios, unidos pelas bocas do desejo.
O beijo, expressão mímica do gosto-te, dura o tempo da textura da carne rosada; dois corpos contra o muro sem cor da paisagem desfocada.
Inesquecível é aquele beijo que o tempo não apaga; carícia que perdura no verbo gostar, que os olhos não desfocam e o corpo não desmente.
O beijo, essa inesquecível expressão de querer, na textura dos lábios; mímica de prazer perfeitamente enraizada na carne.
O beijo, inequívoca expressão húmida do prazer…

sábado, 24 de janeiro de 2026

"You are so beautiful"

 

Abro mão, largo as cinzas sobre as pálidas águas de Novembro que o frio vento empurra contra as rochas do pontão.

Há sempre algo contra, mesmo que seja apenas um vento desavindo, vindo de qualquer parte. Os ventos nunca se anunciam, apenas aparecem num repente.

Através da porta aberta do carro, uma musica chorona acompanha a cerimónia: “..you are so beautiful to me…”

Não há prece, não há despedida; não se chora o que nunca existiu, nem se recorda uma mera intenção.

Esfrego as mãos, liberto-me dos últimos fragmentos, baixo-me e lavo as poeiras que teimam em se agarrar à pele; vão com a corrente. Há pensamentos que nem na ponta do cigarro se consomem.

Não há direito a despedida, apenas um sorriso irónico, dissimulado entre dois travos de fumo negro, porque a voz rouca que apregoa - “...you are so beautiful to me…”- me recorda a ironia da situação que me trouxe a este pontão, ainda antes da data prevista.

Está um frio cortante! Aperto o casaco, levanto-lhe a gola e entro no carro trauteando uma música que ouvi num qualquer sótão da memória:

“Can’t you see?”

Detesto tangos disfarçados de valsa lenta…



segunda-feira, 19 de janeiro de 2026

Sensações

 

Rios colidem no vidro da janela

Bem juntinho a meus olhos

É uma da manhã,

D’uma outra noite

O frio, tenso, vem de dentro

É intenso, é doentio

A chuva, lá fora, brinca comigo

Uma luz ténue ilumina o quarto

Em mim há escuridão

Tremem sombras na parede

Treme o fumo do borrão

Treme o fio que me prende ao chão

Uma porta bateu de dentro

Será silêncio ou solidão?




sábado, 17 de janeiro de 2026

Da doce gravidade das quedas

 

Chegou atrasado e desusado

Mas foi tão inevitável como cair

Cruzados olhares, trocadas palavras desastradas

Bateu um ardor nas faces e um brilho baço nos olhos

O pensamento perdeu-se num mar de imagem parada

E descambou em suspiros de olhares trémulos no relógio

Não percebeu que deu o primeiro passo de um caminho sinuoso

Para um destino incerto, doloroso, doce, amargo mas sempre cativante

O desejo trai-lhe a vontade, angustia pela ausência, entorpece pela presença

Desatinado reincidente que te deixaste, de repente, arrastar para um mar revolto

Irás morrer mil vezes e renascer, irás ser de novo criança e crescer na dor da esperança

De um querer sem razão de ser, de um possuir múltiplo de prazer, de uma fome que não sacia

De uma dor que é incerteza, de um afago repetido e nunca revivido, porque isso é amor

E o amor é sempre parido em dor e em dor arrependido






sexta-feira, 16 de janeiro de 2026

A minha cidade

 

A rua era estreita e íngreme. As casas, estreitas e altas, escorriam humidade pelas cicatrizes centenárias.

O chão, de calhau rolado, era um ringue de patinagem no inverno. O sol dificilmente descia às pedras e o cheiro a mofo era como um perfume de marca.

A minha cidade tinha uma parte muito antiga, corroidamente velha, deliciosamente genuína, onde as casas eram testemunhas das estórias vividas naquelas ruas estreitas e essas mesmas testemunhavam muitas cenas caseiras. Eram como as velhas intriguistas, as casas e as ruas empedradas.

No verão, no quente verão da minha cidade, era um descanso passar por essas ruas frescas, amenas, calmantes.

A minha cidade, a minha velha cidade é um misto de encanto e sedução. E é só minha.

Há muito que deixei de a habitar; visito-a, de fugida porque me dói a transformação que se tem operado. Não porque esteja pior, mas porque as minhas imagens dela são outras, são mais bonitas, são vistas pelos olhos de uma criança e pelos de um adolescente e, finalmente de um jovem adulto.

E essas sim, são as imagens da minha verdadeira cidade, aquelas que preservo e amo.

Por isso as suas ruas continuam ingremes e estreitas e as casas suam a sua velha podridão, libertando um perfume bafiento único. E assim igualei a minha cidade, envelhecendo cada um ao ritmo do seu tempo.

É bela a minha cidade, conquistando a serra, afagando o rio que a banha.

E é só minha porque é nos meus olhos que ela vive e sempre lá estará.



quarta-feira, 14 de janeiro de 2026

Até quando

 

Tardia se faz a hora do desespero

Quando em teu regaço repouso

Nele o tempo para e eu descanso

Sabendo que quando minha cabeça erguer

Será mais um adeus até quando

E um mar de saudade soluçada

E um não saber em que horizonte

Voltarei a sentir, em mim, o teu regaço

O afago suave dessa mão nos meus cabelos,

O doce embalo da voz

Que me trava o desassossego

e me congela o tempo

No vidro riscado do relógio.




 

sexta-feira, 9 de janeiro de 2026

Os caminhos da lua

Parti sentindo a perda

Quebrei o contacto

Desfiz a ligação

Senti a falta

 

Plenamente vazio

Perfeitamente desfeito

Parti. Quebrado, vazio

 

O tempo passou

O Inverno suavizou

A lua encheu de novo

E hoje olho as cicatrizes

 

Sem dor

 

Sei que pode repetir-se

Embora não queira

Mas sei que não domino

Os caminhos da lua

 

Que seja cheia

Se assim tiver de acontecer


sábado, 3 de janeiro de 2026

Desejo

 Fosse o teu corpo uma praia

E o meu desejo uma fracção do mar

Anos haveria de marés vivas

Entre nós

 

Entre nós há algo mais

Que um simples gostar

Um desafio de palavras,

Um certo olhar desconcertante

Um provocar, um hesitar

Um tudo e um nada

Uma corrida parada

E um louco e inesperado gargalhar

Entre nós há um jogo

Uma linha ténue afiada

Um saltitar por entre o vazio

Um silencio ruidoso

E um quero-te soletrado

Não assumido, velado

Envergonhado, como se temesse

Tropeçar no próprio desejo

Entre nós não passa o ar

E somos só nós

Com um desejo receoso de ficar