Por vezes, ao fim da
tarde, naqueles momentos em que o sol já baixo no horizonte, nos presenteia com
uma luz difusa e mágica, eu acredito ouvir os seus passos breves e ligeiros no
corredor. E uma fragância fresca frutada, como a que usava, aflora-me as narinas.
São breves instantes de breve loucura, momentos de ilusão que me permitem
manter um certo equilíbrio emocional, em particular quando a bendita solidão me
ataca de mansinho e me embala no seu canto irresistível.
É terrivelmente cativante
a solidão, apenas suplantada pela tristeza.
Esta última seduz-nos,
envolve-nos, apodera-se da nossa vontade e alimenta-se das nossas fraquezas.
Por isso essa breve
ilusão de a sentir, tanto tempo depois, sempre que a luz obliquamente breve do
sol brinca no meu soalho, é um escudo que me protege da solidão e da tristeza
por instantes, embora eu, infalivelmente me volte a render a ambas e a adormecer
nos seus braços a cada noite.
Coloquei o velho piano de
cauda sob o beiral do telhado; apenas as teclas ficaram alinhadas com o mesmo.
Nestas tardes
inconstantes, ou nas noites de verão, gosto de me sentar cá fora, por baixo do
telhado avançado, pertinho do piano.
Sentado sozinho na
poltrona de verga, forrada a suavidade, escuto as gotas que se desprendem do
beiral, batem nas teclas do piano e produzem sinfonias naturais de sons
caóticos.
Sentado sozinho na minha
poltrona, rodeado de silêncios quentes ou de húmidos sons caóticos, sinto-me
solitariamente acompanhado com os meus pensamentos. São os meus fiéis amigos,
por vezes inoportunos, muitas vezes mal vindos, sempre presentes.
Sozinho não estou tão só.
Tenho o velho piano de
cauda, a minha poltrona de verga forrada a suavidade e pensamentos que inventei
para consumo próprio.
E tenho os sons do clima,
os ritmos do tempo e a liberdade de olhar em volta sem limitações.
Sentado, sozinho, tenho
um mundo... onde até tu és presença.
Abro mão, largo as cinzas
sobre as pálidas águas de Novembro que o frio vento empurra contra as rochas do
pontão.
Há sempre algo contra,
mesmo que seja apenas um vento desavindo, vindo de qualquer parte. Os ventos
nunca se anunciam, apenas aparecem num repente.
Através da porta aberta
do carro, uma musica chorona acompanha a cerimónia: “..you are so beautiful to
me…”
Não há prece, não há
despedida; não se chora o que nunca existiu, nem se recorda uma mera intenção.
Esfrego as mãos,
liberto-me dos últimos fragmentos, baixo-me e lavo as poeiras que teimam em se
agarrar à pele; vão com a corrente. Há pensamentos que nem na ponta do cigarro
se consomem.
Não há direito a
despedida, apenas um sorriso irónico, dissimulado entre dois travos de fumo
negro, porque a voz rouca que apregoa - “...you are so beautiful to me…”- me
recorda a ironia da situação que me trouxe a este pontão, ainda antes da data
prevista.
Está um frio cortante!
Aperto o casaco, levanto-lhe a gola e entro no carro trauteando uma música que
ouvi num qualquer sótão da memória:
A rua era estreita e
íngreme. As casas, estreitas e altas, escorriam humidade pelas cicatrizes
centenárias.
O chão, de calhau rolado,
era um ringue de patinagem no inverno. O sol dificilmente descia às pedras e o
cheiro a mofo era como um perfume de marca.
A minha cidade tinha uma
parte muito antiga, corroidamente velha, deliciosamente genuína, onde as casas
eram testemunhas das estórias vividas naquelas ruas estreitas e essas mesmas
testemunhavam muitas cenas caseiras. Eram como as velhas intriguistas, as casas
e as ruas empedradas.
No verão, no quente verão
da minha cidade, era um descanso passar por essas ruas frescas, amenas,
calmantes.
A minha cidade, a minha
velha cidade é um misto de encanto e sedução. E é só minha.
Há muito que deixei de a
habitar; visito-a, de fugida porque me dói a transformação que se tem operado.
Não porque esteja pior, mas porque as minhas imagens dela são outras, são mais
bonitas, são vistas pelos olhos de uma criança e pelos de um adolescente e,
finalmente de um jovem adulto.
E essas sim, são as
imagens da minha verdadeira cidade, aquelas que preservo e amo.
Por isso as suas ruas
continuam ingremes e estreitas e as casas suam a sua velha podridão, libertando
um perfume bafiento único. E assim igualei a minha cidade, envelhecendo cada um
ao ritmo do seu tempo.
É bela a minha cidade,
conquistando a serra, afagando o rio que a banha.
E é só minha porque é nos
meus olhos que ela vive e sempre lá estará.