segunda-feira, 19 de janeiro de 2026

Sensações

 

Rios colidem no vidro da janela

Bem juntinho a meus olhos

É uma da manhã,

D’uma outra noite

O frio, tenso, vem de dentro

É intenso, é doentio

A chuva, lá fora, brinca comigo

Uma luz ténue ilumina o quarto

Em mim há escuridão

Tremem sombras na parede

Treme o fumo do borrão

Treme o fio que me prende ao chão

Uma porta bateu de dentro

Será silêncio ou solidão?




sábado, 17 de janeiro de 2026

Da doce gravidade das quedas

 

Chegou atrasado e desusado

Mas foi tão inevitável como cair

Cruzados olhares, trocadas palavras desastradas

Bateu um ardor nas faces e um brilho baço nos olhos

O pensamento perdeu-se num mar de imagem parada

E descambou em suspiros de olhares trémulos no relógio

Não percebeu que deu o primeiro passo de um caminho sinuoso

Para um destino incerto, doloroso, doce, amargo mas sempre cativante

O desejo trai-lhe a vontade, angustia pela ausência, entorpece pela presença

Desatinado reincidente que te deixaste, de repente, arrastar para um mar revolto

Irás morrer mil vezes e renascer, irás ser de novo criança e crescer na dor da esperança

De um querer sem razão de ser, de um possuir múltiplo de prazer, de uma fome que não sacia

De uma dor que é incerteza, de um afago repetido e nunca revivido, porque isso é amor

E o amor é sempre parido em dor e em dor arrependido






sexta-feira, 16 de janeiro de 2026

A minha cidade

 

A rua era estreita e íngreme. As casas, estreitas e altas, escorriam humidade pelas cicatrizes centenárias.

O chão, de calhau rolado, era um ringue de patinagem no inverno. O sol dificilmente descia às pedras e o cheiro a mofo era como um perfume de marca.

A minha cidade tinha uma parte muito antiga, corroidamente velha, deliciosamente genuína, onde as casas eram testemunhas das estórias vividas naquelas ruas estreitas e essas mesmas testemunhavam muitas cenas caseiras. Eram como as velhas intriguistas, as casas e as ruas empedradas.

No verão, no quente verão da minha cidade, era um descanso passar por essas ruas frescas, amenas, calmantes.

A minha cidade, a minha velha cidade é um misto de encanto e sedução. E é só minha.

Há muito que deixei de a habitar; visito-a, de fugida porque me dói a transformação que se tem operado. Não porque esteja pior, mas porque as minhas imagens dela são outras, são mais bonitas, são vistas pelos olhos de uma criança e pelos de um adolescente e, finalmente de um jovem adulto.

E essas sim, são as imagens da minha verdadeira cidade, aquelas que preservo e amo.

Por isso as suas ruas continuam ingremes e estreitas e as casas suam a sua velha podridão, libertando um perfume bafiento único. E assim igualei a minha cidade, envelhecendo cada um ao ritmo do seu tempo.

É bela a minha cidade, conquistando a serra, afagando o rio que a banha.

E é só minha porque é nos meus olhos que ela vive e sempre lá estará.



quarta-feira, 14 de janeiro de 2026

Até quando

 

Tardia se faz a hora do desespero

Quando em teu regaço repouso

Nele o tempo para e eu descanso

Sabendo que quando minha cabeça erguer

Será mais um adeus até quando

E um mar de saudade soluçada

E um não saber em que horizonte

Voltarei a sentir, em mim, o teu regaço

O afago suave dessa mão nos meus cabelos,

O doce embalo da voz

Que me trava o desassossego

e me congela o tempo

No vidro riscado do relógio.




 

sexta-feira, 9 de janeiro de 2026

Os caminhos da lua

Parti sentindo a perda

Quebrei o contacto

Desfiz a ligação

Senti a falta

 

Plenamente vazio

Perfeitamente desfeito

Parti. Quebrado, vazio

 

O tempo passou

O Inverno suavizou

A lua encheu de novo

E hoje olho as cicatrizes

 

Sem dor

 

Sei que pode repetir-se

Embora não queira

Mas sei que não domino

Os caminhos da lua

 

Que seja cheia

Se assim tiver de acontecer


sábado, 3 de janeiro de 2026

Desejo

 Fosse o teu corpo uma praia

E o meu desejo uma fracção do mar

Anos haveria de marés vivas

Entre nós

 

Entre nós há algo mais

Que um simples gostar

Um desafio de palavras,

Um certo olhar desconcertante

Um provocar, um hesitar

Um tudo e um nada

Uma corrida parada

E um louco e inesperado gargalhar

Entre nós há um jogo

Uma linha ténue afiada

Um saltitar por entre o vazio

Um silencio ruidoso

E um quero-te soletrado

Não assumido, velado

Envergonhado, como se temesse

Tropeçar no próprio desejo

Entre nós não passa o ar

E somos só nós

Com um desejo receoso de ficar