quarta-feira, 31 de dezembro de 2025

Dos votos de Ano Novo ou da sofreguidão do tempo

 À tua volta uma azáfama de balanços do ano moribundo, agradecimentos e mensagens esperançosas de Ano Novo. O passado que ainda não se consumou e a esperança do que há-de vir.

À tua volta as compras de última hora para colocar na mesa, os convites, as combinações de encontro logo à noite, o olhar para o relógio como se este avançasse sob pressão.

Estás sentado, ouvindo um piano que debita acordes melancólicos na companhia de uma voz estranha, envolvente, cativante. E pensas no que foi, no que gostarias que tivesse sido, no que perdeste ou não aproveitaste. Despedes-te, silenciosamente dos que deixaram de te bater à porta e dos que viram a tua porta ser-lhes fechada irremediavelmente. Questionas-te pela última vez (será?) se terás agido bem com estes últimos, como se isso pesasse na tua decisão.

O piano acompanha-te nas divagações, em jeito de balanço anual. Passou mais um ano, numa fase em que os anos têm o peso de décadas e lá estás tu a pensar no tempo. Há algum tempo que notas essa fixação pelo tempo, como se ele te pesasse cada vez mais, como se medisses os teus passos pelo ponteiro do relógio.

Tu, que ao longo dos anos coleccionaste coisas, mas mais diversas coisas, desde objectos a amigos, tornando-te escravo de tudo quanto foste guardando e que tanto te pesa, tornaste-te também escravo dos minutos que originam horas e das horas que traduzem dias e dos dias que dobram anos.

À tua volta todos andam presos pela ilusão cativante de mais uma festa pendurada na contagem regressiva dos ponteiros do relógio, de um copo de espumante, de champanhe ou de cava, a ilusão cativante dos ponteiros que avançam contando regressivamente.

Regressivo é o tempo que te resta, o tempo que te angustia e te faz perder no limbo das memórias, dos balanços tardios, do tique-taque mecânico de coisas que contam sem parar.

E o piano, também sem parar, faz as teclas dedilharem sons, numa imagem regressiva, num som melancólico, hipnótico, alheio à azáfama das pessoas embriagadas pelo espírito de fim de ano. E tudo acontece numa contagem decrescente, numa paisagem cada vez mais agreste, progressivamente mais vazia.

É tempo de balanço. Sempre a palavra tempo…





quinta-feira, 18 de dezembro de 2025

Como uma brisa fria na pele

 

Da suavidade melancólica de um adeus sentido, do delicado sorriso que traduz um até breve ou da ingrata sensação de quebra permanente de uma ligação outrora inquebrável.

De muitas maneiras se define a ausência, mas cada ausência tem uma forma própria, um sentimento singular, uma dor única e inconfundível, uma cor.

Ausência é sinónimo de saudade, embora nalguns casos traga apenas uma esbatida recordação.

Saudade é dor, pesado fardo que a memória agudiza. Saudade é vazio, nomadismo forçado, prisão. Saudade é o tempo contado pelos dedos de muitas mãos, um rosário desfiado no desespero do tempo passado.

Se eu tivesse de expressar a saudade, escolheria uma tela sobre a qual, a pastel, traçaria em tons de preto e cinza, carregando bem nos traços, um abstracto. Forçaria os pincéis, numa angústia revoltada, a dançarem um tango maldito, num rodopio infinito, até que a alma esvaziasse ou os dedos me traíssem.

E em abstracto traduziria a imagem que me ocorre do sorriso que me lançaste quando nessa noite tardia, me disseste: “Até qualquer dia”.




quarta-feira, 10 de dezembro de 2025

Dezembro recomeça

 

Dezembro instalou-se.

Chegou suavemente, como só o mês de dezembro o sabe fazer. Só os calendários o traem, só as folhas das árvores o sentem e caem como partículas de chuva, submissas à inevitabilidade do tempo final.

As aves migratórias já partiram; eu e as aves migratórias, companheiros de destino, velhos amigos de viagem, comprometidos pelo silêncio, como só os velhos amigos o sabem fazer.

Os velhos amigos, tal como os amantes, não precisam falar para se expressar. Conversam em longos silêncios, com entoações vivas de surdez e afecto. Escutam na ausência e nunca se despedem. Os velhos amigos, tal como os verdadeiros amantes, nunca se despedem, dizem até breve no seu código de olhares. E o compromisso é tal, o entendimento é tanto e o gosto de se sentirem é tamanho, que nem na morte se despedem.

Os velhos, tal como os amantes, são aves migratórias que desistiram do seu destino, mas não dos seus silêncios comunicativos.

Dezembro instalou-se em mim e é terrível na dualidade que me inspira; lindo e triste, o princípio do fim, o prenúncio de algo a renascer. Os velhos querem acreditar que há sempre algo por renascer. Os amantes estão em constante renascimento e a mim, ave migratória que renegou, restam-me as memórias de viagem, os sons dos outros e o silêncio frio das folhas mortas nas calçadas.