quinta-feira, 18 de dezembro de 2025

Como uma brisa fria na pele

 

Da suavidade melancólica de um adeus sentido, do delicado sorriso que traduz um até breve ou da ingrata sensação de quebra permanente de uma ligação outrora inquebrável.

De muitas maneiras se define a ausência, mas cada ausência tem uma forma própria, um sentimento singular, uma dor única e inconfundível, uma cor.

Ausência é sinónimo de saudade, embora nalguns casos traga apenas uma esbatida recordação.

Saudade é dor, pesado fardo que a memória agudiza. Saudade é vazio, nomadismo forçado, prisão. Saudade é o tempo contado pelos dedos de muitas mãos, um rosário desfiado no desespero do tempo passado.

Se eu tivesse de expressar a saudade, escolheria uma tela sobre a qual, a pastel, traçaria em tons de preto e cinza, carregando bem nos traços, um abstracto. Forçaria os pincéis, numa angústia revoltada, a dançarem um tango maldito, num rodopio infinito, até que a alma esvaziasse ou os dedos me traíssem.

E em abstracto traduziria a imagem que me ocorre do sorriso que me lançaste quando nessa noite tardia, me disseste: “Até qualquer dia”.




2 comentários:

  1. Qualquer dia, é dia! Para recomeçar...o que quer que seja!
    A saudade é um sentimento maior! Qual responsabilidade residente entre o comum dos mortais.
    Continuo a fazer-me de morta. Quem me sabe e me sente, sabe onde me encontrar!
    Ainda assim, prefiro um prosa poética. O desafio permanece vazio.

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  2. Meu caro H,
    venho, desta forma, contrapor a minha querida supra - homónima — a jovem madura que acima verteu 'caladura' sem permissão ou aviso prévio. Essa jovem senhora, ou talvez apenas pessoa, a face séria da minha outra metade poética, ousou pronunciar-se sobre temáticas que, paradoxalmente, se recusa a acolher. Debitou, com amargura contida, matérias que conhece melhor do que ninguém. Recusa aninhar, negando-se ao luxo raro de escutar a melodia do tempo, que lhe sussurra ao ouvido, com voz mansa e insistente: “Pára”.

    A leitura faz-se sem compromisso e sem tropeço, nem de gramática, ou de semântica. O que ali se encontra escrito oferece-se à compreensão imediata, sem margem para equívocos ou desvios interpretativos, para quem conhece e reconhece o bom português de raiz Camoniana.

    Ainda assim, a leitura da narrativa, pela minha metade autista, não acompanhou a melodia que embalou, de forma tão plena, a tua Saudade.

    Hoje, porém, a parte mais leve e brincalhona de mim viu-se diante de um dueto de impacto raro: um afecto profundo e uma comunhão (sem comunhão) singular. Ouvi, ouvi e tornei a ouvir… A composição musical insinuou-se num arrepio de pele, tomou-me as entranhas e fez crescer a emoção nos olhos do coração, que, sem pedir licença, marejaram de saudade.

    E marejaram, marejaram, marejaram saudade até…

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