Coloquei o velho piano de
cauda sob o beiral do telhado; apenas as teclas ficaram alinhadas com o mesmo.
Nestas tardes
inconstantes, ou nas noites de verão, gosto de me sentar cá fora, por baixo do
telhado avançado, pertinho do piano.
Sentado sozinho na
poltrona de verga, forrada a suavidade, escuto as gotas que se desprendem do
beiral, batem nas teclas do piano e produzem sinfonias naturais de sons
caóticos.
Sentado sozinho na minha
poltrona, rodeado de silêncios quentes ou de húmidos sons caóticos, sinto-me
solitariamente acompanhado com os meus pensamentos. São os meus fiéis amigos,
por vezes inoportunos, muitas vezes mal vindos, sempre presentes.
Sozinho não estou tão só.
Tenho o velho piano de
cauda, a minha poltrona de verga forrada a suavidade e pensamentos que inventei
para consumo próprio.
E tenho os sons do clima,
os ritmos do tempo e a liberdade de olhar em volta sem limitações.
Sentado, sozinho, tenho
um mundo... onde até tu és presença.