sábado, 28 de fevereiro de 2026

Por vezes

 

Por vezes, ao fim da tarde, naqueles momentos em que o sol já baixo no horizonte, nos presenteia com uma luz difusa e mágica, eu acredito ouvir os seus passos breves e ligeiros no corredor. E uma fragância fresca frutada, como a que usava, aflora-me as narinas. São breves instantes de breve loucura, momentos de ilusão que me permitem manter um certo equilíbrio emocional, em particular quando a bendita solidão me ataca de mansinho e me embala no seu canto irresistível.

É terrivelmente cativante a solidão, apenas suplantada pela tristeza.

Esta última seduz-nos, envolve-nos, apodera-se da nossa vontade e alimenta-se das nossas fraquezas.

Por isso essa breve ilusão de a sentir, tanto tempo depois, sempre que a luz obliquamente breve do sol brinca no meu soalho, é um escudo que me protege da solidão e da tristeza por instantes, embora eu, infalivelmente me volte a render a ambas e a adormecer nos seus braços a cada noite.



domingo, 22 de fevereiro de 2026

DOS GANHOS E DAS PERDAS

 

Sentiu aquela dor de perda

Como se a perda fosse sua

Sabe que sem ter querido

Quis que assim acontecesse

Ao pôr um fim à loucura

Afinal a dor que sentia

Era dela que não sua

E com esta doce ilusão

Sentiu não ser seu o vazio

E ignorou a sensação de frio

Dessa dor que era a sua



sábado, 14 de fevereiro de 2026

Momentos

 

Coloquei o velho piano de cauda sob o beiral do telhado; apenas as teclas ficaram alinhadas com o mesmo.

Nestas tardes inconstantes, ou nas noites de verão, gosto de me sentar cá fora, por baixo do telhado avançado, pertinho do piano.

Sentado sozinho na poltrona de verga, forrada a suavidade, escuto as gotas que se desprendem do beiral, batem nas teclas do piano e produzem sinfonias naturais de sons caóticos.

Sentado sozinho na minha poltrona, rodeado de silêncios quentes ou de húmidos sons caóticos, sinto-me solitariamente acompanhado com os meus pensamentos. São os meus fiéis amigos, por vezes inoportunos, muitas vezes mal vindos, sempre presentes.

Sozinho não estou tão só.

Tenho o velho piano de cauda, a minha poltrona de verga forrada a suavidade e pensamentos que inventei para consumo próprio.

E tenho os sons do clima, os ritmos do tempo e a liberdade de olhar em volta sem limitações.

Sentado, sozinho, tenho um mundo... onde até tu és presença.