sexta-feira, 6 de março de 2020

São apenas pedaços de mim





Cala-se a voz no silêncio, do sonho 
desperto de ti. Ensandecido
te procuro e não alcanço. Esquecido
torno a dormir. Medonho
é o desejo de te sentir
Tremenda a vontade de fugir
E nesta contradição pendular
balanço entre não querer e alcançar
Maldigo a hora em que senti
Quão gostoso é gostar de ti



terça-feira, 3 de março de 2020

Fragmentos de jardim


Suspirou profundamente, sentado naquele banco de jardim, banco de momentos silenciosos.
Abriu os olhos, olhos espelhados de noites mal dormidas, noites pressentidas.
Os cães passeiam no relvado, chorando em troncos de árvore, num ritual ancestral. Acredito que procurem a árvore original, aquela onde o Adão dos cães se aliviou pela primeira vez. Legados caninos que escapam à sensibilidade distraída dos donos.
Os melros banqueteiam-se por entre saltos acrobáticos; a chuva da véspera animou os vermes da terra e estes animaram a passarada.
Mesmo em frente, um jovem casal vive o momento calmo da tarde; certamente ainda não tiveram a primeira prova de dor. As dores atacam quando menos se espera, de forma cruel, intempestiva. E tudo depende da resistência, da indolência, da sensibilidade para ultrapassar, mascarar, ignorar ou conviver com elas.
Já não se recorda da sua primeira dor; as primeiras dores não são como os primeiros beijos; por serem tão fortes, tão intensas, o consciente ordena ao inconsciente que se livre dessas memórias em DHL.
O primeiro beijo…ah, o primeiro beijo é outra coisa; é sabor a morango, em travo de cetim; é ardor na face e olhares por cima do ombro da companheira, com receio de que alguém esteja a olhar. É intenso, é inocente, flui da boca como azeite. O primeiro beijo é imediatamente emoldurado na memória, em tons de vermelho vivo.
Sorriu perante a recordação e imediatamente fechou a expressão em memória da última dor.

Os cães passeiam, os melros comem em saltos de ballet, os namorados excitam-se e sangram carícias e o homem puxa o chapéu para os olhos, desce o queixo para o peito e suspira a emoção. 

Serão as memórias fragmentos de sentimentos? Dores e sorrisos em latas mentais de conserva



Chuva em pétalas doridas



Chuva. 
Som cadenciado, compassado, como militares desfilando muito ao longe.
E de longe se aproxima, vindo de cima e de lado, ser alado.
Chuva, chuva fina, peregrina, cadente, por vezes urgente, outras, persistente.
Fria cai em fiadas, dias de noites amargas, ideias peregrinas, pouco sadias, enlutadas por dores veladas, dores de falta, mascaradas por sorrisos de nada.
Chuva, doida chuva que não poisa, não tem assento, tal como o vento.
Chuva que por vezes acalma, em melodia recortada, filigrana, ouro sacana que não me sacia a alma, essa esponja que retém o que não deve e me não salva, das noites perdidas de chuva, dessa chuva que cheira a malva, memórias de infância e de novo a calma.
Húmida névoa que chora e sobre mim se demora, presença constante, pranto delirante que pede às mãos que me rasguem deste céu ou no ar as erga, olhos no chão, consciência plena da pequenez que me fez.
Chuva, densa chuva, nevoeiro, mau-olhado, formigueiro, que me ecoa aos ouvidos, vindo de dentro, tolhe os sentidos.
Chuva plena que não termina. Não reajo, não resisto, deixo-me ir pelos riachos, já sem tino, desatino, e desaguo na loucura deste som de violino.
Já não sinto, não me consinto, sinto a chuva, não me sinto. 

sábado, 11 de janeiro de 2020

Da pálida dança do desejo



Pensei-te

Como se tivesse inventado o verbo querer,

Ali mesmo na esquina do desejo.

Pensei-te

Como se fosses onda em maré cheia

E eu rochedo na beira da praia

 

Hoje apenas te penso

Como quem rega recordações

Em dia de vento

Sob nuvens escuras que ameaçam chuva

Chuva essa que nunca vem

Outrora pensava-te por entre tragos de fumo

De um cigarro infindável

E nesse fumo via o teu corpo cheio,

Depois esguio

Depois nada

E mais um trago de fumo

E de novo tu

E de novo nada

Hoje já não sei

Se te penso ou se te esfumas

Por isso rego-te em memórias

Até que a memória da chuva se esvaia

Por entre dois tragos de fumo
 
 

quarta-feira, 27 de novembro de 2019

Breve nota sobre as esquinas da vida



Desde que viraste a esquina da minha vida, não mais cheirei o teu cheiro, não mais ouvi a tua voz, não mais olhei directo nos teus olhos.
Desde esse dia recorro à memória de imagens, sons e cheiros para te recordar; é a única forma de saciar este vício que adquiri de ti.
Um dia essas memórias passam do prazo, a minha mente não irá conseguir mais retê-las e tu deixarás de existir na minha vida, tal como não existias antes de te teres cruzado comigo da primeira vez em que senti o teu cheiro, ouvi a tua voz, apreciei os teus olhos.
Como acontece na ressaca de um vício, sentirei a falta de algo, uma necessidade de qualquer coisa que não conseguirei identificar, até que essa falta deixe de faltar.
As esquinas da vida são sorvedouros de pessoas, de sentidos e de memórias; elas levam-me os olhos que conseguem marejar os meus.


 

Here, there and everywhere


Eram arco-iris fazendo pontes entre os telhados das casas em forma de girassois. Eram duas mãos entrelaçadas voando em céus de um azul celestial, saltando em saltos de rã por entre as estrelas,roubando-lhes dentinhos de diamante sempre que se sorriam para nós.
E, de repente, a face oculta da lua ficou bem de frente para o futuro.
E este chegou mais cedo e com ele ficámos sentadinhos, bem abraçados, a ver as estrelas desdentadas, muitos anos depois, cabelos bem prateados e os mesmos olhares de crianças traquinas que iriam dominar o mundo.
As asas, recolhidas, mantêm-se no seu lugar e tudo foi bonito, por todo o lado.
E foi assim que aconteceu, sem tirar nem pôr.
 
 

quarta-feira, 20 de novembro de 2019

Sentires


Era certamente a hora ideal para um desentendimento, mas não aconteceu. Não ocorreu nenhum eclipse, nem um furacão; na verdade nenhuma catástrofe natural aconteceu.
Eles cruzaram-se, olharam-se, decerto que se cheiraram porque, independentemente de tudo, o instinto primitivo ainda prevalece sobre a razão e o cheiro é um dos maiores estímulos da atracção, mas não se falaram.
Os olhares, magoados de ambos, acertaram no outro como se fossem punhos cerrados viajando pelo ar em fúria, mas nada disseram.
E passaram um pelo outro, como se nada existisse, como se nada fosse, como se agora tivesse sido antes.
E assim também se descreve o desejo!
 
 

Eternamente grato



Consideremos o perdão por algo que não fizémos, não quisémos fazer, nem tão pouco pensámos alguma vez vir a fazer.
Pensemos no benefício da dúvida, na piedade alheia, ou mesmo na compreensão, independentemente de delas precisarmos.
Consideremos tudo o que pensámos e, eternamene agradecidos, adoremos os seres humanos por serem tão misericordiosos.
 
____
 
Voltei a este espaço, a este canto, a esta folha de papel imaginária/binária, porque ma recordaram, assim, simplesmente, porque ma recordaram, ma fizeram trazer à tona neste pântano lodoso que é a minha memória.
E assim regressei, como regressam as aves de outono embora não saiba ficarei até à primavera.
Nada foi premeditado nada está previsto, é apenas um movimento morno, tal com o siroco...

quarta-feira, 31 de outubro de 2018

Danças de luz taxadas por palavra ou Como ser alegremente fútil


Os fios de Sol do outono penetram através da vidraça. Esta é uma dessas tardes tranquilamente obtusas em que, comodamente sentado, pensas ideias e pensamentos avulso apenas por exercício e como forma de esfaqueares lentamente o ritmo ao tempo.

Fútil pensamento da tarde:

- Se as palavras utilizadas fossem taxadas individualmente, que consequências teria nos diálogos e nas relações interpessoais?

Enquanto divagas sobre o impacto financeiro na comunicação e começas a construir a tabela dos prós e contras, o teu olhar é desviado para o soalho onde os fios de sol, refractados pela vidraça, executam uma lenta, caótica e, no entanto, hipnótica dança nas travessas de madeira.

Quantas palavras não seriam poupadas, quantos silêncios ganhos tal como a atenção às expressões faciais tão expressivas?

A luz rodopiou de novo, desta vez ligeiramente para a esquerda e a sombra de um pequeno pássaro atalhou o seu voo ao longo da parede.

Se as palavras fossem taxadas, os olhares seriam bem atentos, as palavras seriam criteriosamente escolhidas e os charlatões, os “comunicadores” e os fãs confessos e viciados na sua voz, cuja intenção é apenas terem atenção a todo o custo ao imenso nada que transmitem ou leram e ouviram nos média, ficariam deprimidos.

Os pequenos raios de luz executam agora verdadeiros passos de tango argentino, e eu sinto-me transportado para uma das muitas salas de tango das ruas e ruelas de Buenos Aires.

Ah! Buenos Aires e os restaurantes em Puerto Madero, onde a luz é mais brilhante, a dança mais fluida e os silêncios mais tranquilos.

Definitivamente os latinos não iriam gostar de ver as suas longas conversas taxadas, mas sei que adoram a luz do Sol.

Os pequenos e frágeis raios de luz outonais transmitiram-me a beleza da dança das partículas luminosas e ensaiam a ultima dança do dia, aquela que acontece sempre que este lado da Terra vira as costas ao Sol. E nesta dança de morte lenta neste fim de tarde tranquilamente obtusa e fútil, declaro que o mundo seria muito melhor se as palavras fossem taxadas e a grande maioria das pessoas se dedicasse, de boca bem fechada, a observar a dança das partículas de luz, no soalho de um lugar qualquer.

 

 

terça-feira, 30 de outubro de 2018

Eternamente Novembro



E eis que novembro bate à porta e diz a outubro para fazer o balanço do seu ano porque tem apenas um dia para deixar o espaço livre. Amanhã outubro morre por um ano e novembro – há sempre um novembro e é sempre estranho – chega, choroso, mas apenas por 30 dias.
O frio veio primeiro; o frio acha-se o porteiro.
Novembro é triste, é escuro e frio, é húmido e melancólico. É o mês viela do purgatório.
É quando apetece ouvir músicas suaves da juventude com a companhia desejada, enrolados num cobertor bem quentinho.
E por falar na companhia desejada, não sei de ti, por onde caminham teus passos, quem te leva agora a passear, pendurada nos seus ombros e sem deixar que as mãos descolem uma da outra, olhando para cima com esses olhos arqueados, essa boca fantástica, rasgada num imenso sorriso de felicidade.
Quem te bebe o sorriso por estes dias? Quem te leva a passear à chuva nestes dias cinzentos, para os outros, mas solarengos para ti?
Eis que novembro bate à porta e eu fico do lado de dentro da vidraça, olhando ao longe duas silhuetas familiares, unidas por um laço de paixão, encaixadas entre duas linhas de água que escorrem pelo vidro.
Novembro desorganiza-me as memórias, desequilibra-me os sentidos, traz-me esperanças vãs e rouba-me o calor do talvez: talvez, quem sabe, talvez ainda seja possível passear-te à chuva, numa tarde de novembro, com o teu sorriso enamorado como guarda-chuva e o desejo transformado em sol de verão.
Desconfio que vai chover, uma vez mais, amanhã.

sexta-feira, 7 de setembro de 2018

Soalheiramente


Um fio de luz dançando sobre duas tábuas do soalho; um fino e frágil fio de luz que atravessou o vidro da janela, numa tarde avançada de verão.
Um traço de cor, cor de cristal, fio atrevido, tarde de sol, brisa de sal.
Lá longe, azul, o mar abraça o céu, o sol prepara o mergulho no horizonte e o tempo flui à velocidade do seu tempo. 
Silêncio, sossego, tranquilidade, ideal. 
Olho lá ao longe a ave que espreguiça sobre a onda de espuma, cavalgando brisas quentes e, nesta tarde avançada de verão, um fio de luz dança ao som do silêncio, brilhando como cristal tranquilo, embalado na espuma branca de uma onda no soalho.
Haverá melhor maneira de deixar a vida fluir?

domingo, 22 de abril de 2018

Cinzas de Inverno



Na melancolia de um céu de chumbo
recordo paisagens amargas
momentos escondidos em mapas sem X.
Renascem lágrimas de dor e suores de raiva,
reavivo mantos frios julgados esquecidos
e revejo fotos que não desejava.
Nesse pálido céu de chumbo
numa tarde de Inverno qualquer
que de longe me traz os remorsos
do que, sentindo já não ser, ainda sou,
sinto o peso da culpa
em tempestades de tremura.



Café Central



De costas para ti senti a tua presença;
sei que estás nessa mesa contra a qual, de costas,
sempre me sento.
Senti te o perfume quando cruzaste as pernas
e soube que tinhas chegado, como sempre, silenciosa.
De costas para ti peguei no copo
e ergui-o quase casualmente
na esperança que me reflectisse a tua imagem.
Uma vez mais apenas vi o líquido e bebi um trago.
De costas para ti ouvi-te puxar do maço, tirar um cigarro e acende-lo à 3ª tentativa.
Senti o aroma desse tabaco que não fumo
e o teu olhar cravado em mim.
De costas para ti acabei a bebida,
depositei o custo do consumo sobre a mesa,
levantei-me e saí,
sabendo que estavas a olhar, esperando que me voltasse antes de atravessar a porta do café.
De costas para ti, entranhou-se-me o teu ressentimento pela minha "descoragem".
De costas para mim, senti-me, uma vez mais, incapaz de te suportar o olhar
porque sei que, se o fizesse, entregar-me-ia inevitavelmente a ti.


quarta-feira, 27 de dezembro de 2017

Equações sentimentais de grau indeterminado


Amo-te e desejo-te
Mas se te desejasse alcançar-te-ia no patamar do amor?
Se te amo e te desejo,
então desejo amar-te
ou amo desejar-te?
Poder-te-ei amar sem te desejar?
Sei que te posso desejar sem te amar,
mas não sei se é suficiente para ti.
Posso desejar amar-te, se já te desejo tanto?
Posso mesmo amar desejar-te sem nunca te ter.
Será que te quero mesmo amar,
ou é um pretexto para experimentar um prazer sem igual?
Posso desejar querer amar-te, mas isso não é forçar?
Quero amar-te?Não, soa mal.
Desejo-te tanto que me atrevo a dizer que te amo,
mas se estiver enganado no amor, não estou certamente no desejo.
Umas vezes desejo-te, outras...amo-te.
Muitas vezes, nem uma nem outra.
Mas sei que te desejo e te amo,
ou será que é ao contrário?
Sei, convictamente, que te quero!


domingo, 17 de dezembro de 2017

Se assim fosse ou a imprevisibilidade dos ventos



Diz-me que sim
Não penses
Deixa-te levar pelo momento
Deixa falar o sentimento
E diz-me que sim
Pendura-te em mim e deixa-te ir
Dá-me esse sorriso rasgado
Rasga o preconceito guardado
E diz-me que sim
Atreve-te a ir sem rumo
A sentir no limite
A soltar as emoções
Colhendo as sensações
Arrisca-te a ir
E diz-me apenas: sim


A Emoção do Vento Latino


Lança-me um olhar
Um fio ténue de ternura
Um sorriso a despertar
Um sopro de frescura
Dar-te-ei um suspiro
Um abraço sentido
Um braço contido
Um mundo invertido
Outra forma de estar
Todas as ondas do mar
O meu olhar

E a brisa a convidar
Vem, vamos voar


sexta-feira, 8 de dezembro de 2017

Retrato a tinta da china



Planta sombras em noites de lua cheia
E colecciona mágoas entre folhas de livros
Transforma monólogos em conversas ao espelho
E discursa em travessas empedradas cheias de ninguém
Ansiosamente procura a solidão
Raramente tem o prazer de a encontrar
A paz é uma palavra muito curta
Para ser mantida
E a liberdade só chega no fim
Perdeu o mapa do amor num jogo de póquer
E rega esquinas em noites bastardas
Não tem norte, não tem rumo
Não cultiva o aprumo
Não é ninguém e ninguém tem
Atreve-se a pensar que é alguém
Mas apenas quando lhe convém
Fala no gume fino de uma navalha romba
(Herança do tempo vivido)
Tem-se a si e pouco mais
Diz-se muito bem servido
Ele, um fado, um copo de vinho e um trompete desalinhado.




Do efeito colorido do pó


Amo-te hoje porque amanhã não existe
E preciso sentir-te como as flores precisam do orvalho da manhã
O teu aroma é como o cheiro húmido da terra
Fértil, ávido de vida e de calor
Amo-te sem to saber expressar
Trôpego na ansiedade de te sentir
Carente dessas mãos presas nas minhas mãos
Até que o dia chegue ao fim
Porque amanhã não existe
Amo-te e, nesta ânsia de te ter
Esqueço a fome, esqueço o ar
Só preciso saciar a sede insana no teu olhar
Num sorriso, numa lágrima, num esgar de desdém
Amo-te hoje e para além da morte
Porque esta existe e amanhã é uma incógnita
(E o pêndulo não pára)





sexta-feira, 1 de dezembro de 2017

O compasso do tempo



Penso nas horas
Passo a passo
No passo descompassado da vida
No compasso dos ponteiros
Num círculo vidrado ao olhar
Vejo o tempo a passar
O mecanismo perfeito
Onde a tempo me acerto
É a medida desta vida
Contada a cada momento
No tic tac repetido
Agitado num piscar
Num movimento perpétuo
Sentido até nas desoras
No ritmo lento das demoras
Na pressa dos desencontros
No pressuposto da certeza
Que perpétuo é o tempo
Que não a vida que o sente


terça-feira, 28 de novembro de 2017

Do indelével jogo dos sentimentos marginais



"Não cobiçarás a casa do teu próximo, não cobiçarás a mulher do teu próximo, nem o escravo, nem a sua escrava, nem o seu boi, nem o seu jumento, nem coisa alguma do teu próximo." (in os 10 mandamentos)
________
E a casa da tua próxima e o homem da tua próxima? Esses já poderás cobiçar sem que a fúria Divina se abata sobre ti e a tua casa?

«««««««««««««««««««««««««
Primeiro motivo: ambos existem, pelo que há a probabilidade, mesmo que diminuta, de um dia se cruzarem.
Segundo motivo: frequentam espaços comuns, têm amigos comuns ou não nada têm em comum.
Terceiro motivo: apercebem-se da existência do outro, seja no local de trabalho, seja público ou da forma mais inesperada, mas apercebem-se da existência mútua e iniciam diálogo.
A partir daqui o jogo começa; as conversas, inicialmente ocasionais e vagas, tornam-se progressivamente mais frequentes. Trocam ideias, opiniões, gostos e preferências.
Uma fome crescente de contacto apodera-se de ambos, embora ainda não tenham consciência que o desejo lhes ganha espaço à razão. Quando se apercebem já a carência se instalou.
Apaixonam-se ou, tão só, desejam-se e, inevitavelmente, acabam por consumar o acto; todo aquele crescendo de sentir, de partilhar de querer possuir, acumulado ao longo do tempo, explode em sensações de partilha de novos territórios, mapas de pele nunca antes visitadas. O acto é intenso, como intenso é o que de bom apenas se faz uma vez. E fica a sensação de pouco, de querer mais e mais e mais rapidamente.
A dependência cresce mas a distância é grande e grande é o risco; e o risco, sendo perigoso, é motivador, desafiante.
Surge a primeira regra: não serem apanhados e a segunda: não ferirem os seus pares.
E partem para a clandestinidade.
Aproveitam cada fracção do pouco tempo que dispõem de partilha. Tocam-se e sentem-se como se fosse a última vez; escolhem cuidadosamente os locais, vestem delicadamente os olhares partilhados e partilham-se freneticamente, em batalhas sofregamente húmidas.
O risco de perda e a incógnita da próxima vez torna ainda mais intenso o contacto.
E é a intensidade do beijo que distingue os amantes marginais.



sábado, 18 de novembro de 2017

Fragmentos de jardim



Suspirou profundamente, sentado naquele banco de jardim, banco de momentos silenciosos.
Abriu os olhos, olhos espelhados de noites mal dormidas, noites pressentidas.
Os cães passeiam no relvado, chorando em troncos de árvore, num ritual ancestral. Acredito que procurem a árvore original, aquela onde o Adão dos cães se aliviou pela primeira vez. Legados caninos que escapam à sensibilidade distraída dos donos.
Os melros banqueteiam-se por entre saltos acrobáticos; a chuva da véspera animou os vermes da terra e estes animaram a passarada.
Mesmo em frente, um jovem casal vive o momento calmo da tarde; certamente ainda não tiveram a primeira prova de dor. As dores atacam quando menos se espera, de forma cruel, intempestiva. E tudo depende da resistência, da indolência, da sensibilidade para ultrapassar, mascarar, ignorar ou conviver com elas.
Já não se recorda da sua primeira dor; as primeiras dores não são como os primeiros beijos; por serem tão fortes, tão intensas, o consciente ordena ao inconsciente que se livre dessas memórias por DHL.
O primeiro beijo…ah, o primeiro beijo é outra coisa; é sabor a morango, em travo de cetim; é ardor na face e olhares por cima do ombro da companheira, com receio de que alguém esteja a olhar. É intenso, é inocente, flui da boca como azeite. O primeiro beijo é imediatamente emoldurado na memória, em tons de vermelho vivo.
Sorriu perante a recordação e imediatamente fechou a expressão em memória da última dor.
Os cães passeiam, os melros comem em saltos de ballet, os namorados excitam-se e sangram carícias e o homem puxa o chapéu para os olhos, desce o queixo para o peito e suspira a emoção.



Serão as memórias fragmentos de sentimentos? Dores e sorrisos em latas mentais de conserva...


Apocalipse ou a fragmentação do ser básico


12 E vi os mortos, grandes e pequenos, em pé diante do trono; e abriram-se uns livros; e abriu-se outro livro, que é o da vida; e os mortos foram julgados pelas coisas que estavam escritas nos livros, segundo as suas obras. 13 O mar entregou os mortos que nele havia; e a morte e o Hades entregaram os mortos que neles havia; e foram julgados, cada um segundo as suas obras. Apocalipse 20:12-13



E vi a inveja, a injúria e a incúria. Vi homens e mulheres invejando mulheres e homens.
Vi petardos de ignorância lançados a outros e mentiras escondidas num manto de cobardia.
Vi a mesquinhez e a baixeza mascarados de altruísmo e vi a dor dos atingidos.
E vi a nódoa e os cães de duas patas, caminhando hirtos como gente, falando como gente, mordendo como gente e como cães. E vi os vermes e os vermes falavam enquanto se retorciam e eram congruentes na sua linguagem de verme.
E vi doutores e carpinteiros, poetas e engenheiros, políticos e pedreiros, feridos de corno, doridos na alma e quebrados no amor-próprio.
E vi risos forçados e acenos acobardados e adulações e manifestações invertebradas.
Vi o ódio e a cegueira e sentimentos não retribuídos, ferindo como lâminas, minando o discernimento.
E também vi uma centelha de pureza quase extinta, quase nada.
E avancei pelo meio deles e não senti pena, não me dizem nada.
Ri-me e não me detive por nenhum.



quinta-feira, 2 de novembro de 2017

Meu amor



O amor
O poder do amor
O maravilhoso poder do amor
O maravilhosamente grandioso poder do amor
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O poder do amor só tem dor
É ferida, é ardor
É desejo com pudor
É um vai lá por favor
Que hoje estou cheio de dores...
O poder do amor
É primavera, é alergias
É inveja, é ciúme
É dor de corno
É o costume
Possessão
Consternação
Choro, dor e pregão
É pra vida e não pra morte
É excelente, com muita sorte
O amor é uma flor
Colhida no ano anterior
É sorriso e é lágrima
É traição
Devoção e emoção
O amor é bipolar
É pra toda a gente usar
É democrático, é tirano
É o fogo do candeeiro
É o melhor e o pior
É o poema, a enciclopédia
É a Maria e a Noémia
O Joaquim e o André
O amor é o que é
Gosto muito mas nem tanto
O amor é um espanto



O amor é a invenção mais profícua do diabo

quarta-feira, 1 de novembro de 2017

• Alucinações em www.com ou Realidades em WiFi


Vozes sem rosto
Multidões sem forma
Cortadas por formas geométricas
A preto e branco
Céus de violetas
Em tons caqui
Fumos espessos
Escapam por entre os dedos
E a rua flui até ao seu fim
Ao meio um cruzamento
Ou será uma encruzilhada
Onde mulheres se perdem
Se mostram, se expõem
Um red light district.com
Em formato de bolso
E os homens espumam
(os homens espumam sempre e facilmente)
Os homens agitam-se
Os olhos excitam-se
Em céus de violetas
Com tons de caqui
Conversas estudadas
Frases usadas
Dirigidas, manipuladoras
Conversas pobres
Que acabam em trapos espalhados no chão
E os céus de violetas anunciam tempestade
E há sempre uma nova praia
Uma enseada à espera de ser descoberta
E um porto de abrigo usado, desgastado, devoluto
A cabeça estala, a dor agudiza
A noite vai longa, quase morta
E o copo nunca esteve vazio



quinta-feira, 12 de outubro de 2017

Migração



Sei o quão frágil é respirar
E como engana o bater do coração
Mas a esperança é soberana
Mesmo pra quem a renega
Por mais dores que o passado traga
Por isso desejo, por isso rogo
Que venha o inverno
E me traga um bilhete teu
No seu vento selvagem
Me mova como um ponteiro de bússola
E me indique o norte
No meu pregão peço a coragem
Para partir sem pensar
Para ir sem hesitar
E finalmente te encontrar
E no teu calor me perder
Porque teu pretendo ser
Até que o inverno se acabe
Até que a memória se apague
Até que desistas de mim



domingo, 1 de outubro de 2017

Renovação ou cansam-se-me demasiado os olhos nos dias que correm



Dos sentimentos vividos
Dos poucos que dei
Dos muitos que roubei
Dos risos e dores
Dos escritos de autor
Mágoas provocadas
Feridas mal curadas
É a dança da vida
Bem ou mal vivida
Em paisagens guardadas
Em memórias cuidadas

Do que me falta fazer
Já tão só não me sinto
Despedi-me me do banco de pedra
Guardei um ramo de jasmim
E a Serra parada despedindo-se de mim

Do espelho já não guardo imagens
Outros mares, outras margens
Novos olhares, ondas baixas
A paisagem, enfim, mudou

E da tormenta guardei a calma
Da luta quero intervalos
Fumados em finos retalhos

É tempo de repousar os olhos cansados
Na imagem
Que a sombra me trouxe doutra paragem

Já outrora fui quem esqueci
Uma lágrima perdida por aí.


segunda-feira, 25 de setembro de 2017

Pedaços de mim




Cala-se a voz no silêncio; do sonho
desperto de ti. Ensandecido
te procuro e não alcanço. Esquecido
torno a dormir. Medonho
é o desejo de te sentir
Tremenda a vontade de fugir
E nesta contradição pendular
balanço entre não querer e alcançar
Maldigo a hora em que senti
Quão gostoso é gostar de ti






Teia de Luzes ou Efeito Psicotrópico



Não sei se é do efeito da luz na vidraça, do aroma da erva molhada ou do sussurro do vento no espanta espíritos. Talvez seja apenas uma calma induzida pelos fármacos ou a ilusão do tempo suspenso.
Sinto um sossego incomum, indolor e inebriante.
A aranha continua impávida a tecer a sua teia no bordo do vaso do jasmim.
Um jovem casal passa na rua. Na sua discussão cortam o fio que suspende o tempo interior.
Ele, agressivamente, questiona-a. Ela hesita.
Apetece-me interceder por ela, de tão óbvia e merecida a resposta, no entanto prefiro remendar o fio e voltar a suspender o tempo.
Sentado no sofá imagino um retrato, dessa outra que me entorpece, pendurado na parede branca, mesmo em frente. Pequeno, desenhado a carvão, apanhando-lhe as particularidades tão peculiares do rosto.
Ficava mesmo bem o retrato dela na parede branca, mesmo em frente do sofá.
Lamentavelmente, não quero dispor do tempo suspenso para a desenhar.
Os raios de sol perdem terreno no soalho, ou talvez seja apenas o efeito da luz na vidraça.
A aranha continua a sua interminável dança rendilhada no vaso e eu suspendo as pálpebras no fio da memória.






sexta-feira, 22 de setembro de 2017

Equinócio



São os traços mutáveis da paisagem
E o comportamento dos animais
Em mim sinto a mudança
Os cinzentos iniciaram o retorno
Cruzaram-se com as aves migratórias
As videiras estão em fim de prazo
Os doces figos despedem-se
A noite ganha avanço ao dia
E o vento trás as primeiras chuvas
É tempo de interiorizar
É a estação da nostalgia a chegar
É mais ou menos um Outono?
Pressinto o menos a ganhar
O fim ganha sempre vantagem no início
E novas aves chegarão com o solstício de Dezembro




Acredito que o equinócio se dissolva no solstício

quinta-feira, 21 de setembro de 2017

Moldando em cera



Desta vez olha de frente e sorri.
Sorri uma lágrima quente, uma gota sentida,
a expressão de um sentimento salgado.

Desta vez olha de lado
faz o teu olhar enviesado.
Sorri um sorriso distorcido
e de novo roda a cabeça
e de frente afoga a diferença

Mas sorri...