Vai tu à frente; vai e espera porque eu prometo-te que, quando a altura chegar, irei lá ter para voltarmos a percorrer todos os lugares que conheciamos e onde rimos.
terça-feira, 29 de março de 2022
Vai
segunda-feira, 13 de dezembro de 2021
A modos que sim, mas talvez não
Hoje fiz que vi, mas não vi
Preferi ouvir e sentir
Aleguei sofrer de síndrome antissocial
Disse que era um problema cultural
E fiquei de parte a contemplar
As ideias que não vinham,
Acabadas de chegar
Hoje recusei ousar,
Tive medo de arriscar
E fiquei de lado a observar
O suave movimento do ar
Hoje atrasei o relógio adiantado
Peguei num copo amassado
E com ele na mão menti,
De um modo descarado
E senti-me mais humano, mesmo ousado
E pensei para comigo,
Num tom de voz mental,
Hoje foi um bom dia
Nada fiz de bom
Nada fiz de mal
sexta-feira, 27 de agosto de 2021
Como se nada fosse
terça-feira, 13 de julho de 2021
O Pacto
Foi só mais um
sorriso
No acto de
reviver aquela árvore
Velha árvore, já
velha quando eu, criança,
Me escondia do
sol sob a sua copa.
É só mais um
sorriso
Por saber que
continuarás
Quando eu,
cansado, sentir que devo ir
Sei que correrei
na tua seiva
Enquanto a tua
seiva te percorrer
E depois já não
sei, talvez mineral, talvez pura energia
Quem sabe, quem
quer saber
Se o que conta é
o que foi?
Fazemos um pacto:
Trocamos
recordações para sempre
E para sempre
viveremos enquanto nos recordarmos
Eu criança, tu
frondosa
Embalando-me
nesse perfume de tília
Sussurrando ao
vento
coisas que só as árvores e os ventos conhecem
Foi só mais um
sorriso,
Agora que cumpro a minha parte.
terça-feira, 9 de março de 2021
Há estranhas coisas a desacontecer
Ontem podia ter chovido
quarta-feira, 30 de dezembro de 2020
2021
Não sei que te
diga
Pois já não sei
beijar
No beijo punha
todo o meu discurso
Todas as emoções
e sentimentos
Que te queria
transmitir
Se me tiraram o
beijo
Como poderás
saber que ainda te gosto
Que ainda me
importo
Que és o centro
da minha vida?
Tento que me leias
nos olhos
Essa enciclopédia
de amor que te escrevi em pensamento
Mas os olhos não
se colam como os lábios,
Não transmitem o
seu calor emotivo
Não provocam a
descarga de adrenalina necessária
Para que a mensagem
passe.
Os olhos
completavam os lábios na perfeição
Mas agora estão órfãos
Por isso não sei
que te diga
Até que me
libertem os lábios
Até que a
comunicação entre nós se restabeleça
Até que tudo o
que de bom era volte a ser
E por isso o que
mais desejo para 2021 é que, de forma segura, caiam as máscaras que tapam as
bocas, se libertem as mãos que acariciam, se desprendam os braços que abraçam e
se soltem os beijos.
terça-feira, 29 de dezembro de 2020
2020
terça-feira, 25 de agosto de 2020
Carnaval ou a realidade contida
De branco e preto uma máscara criei,
com laivos de silêncio a coloquei,
e com grande exagero a retoquei.
No canto direito do olho esquerdo uma lágrima desenhei,
e nela toda a minha nostalgia derramei.
De máscara posta pela rua passeei
e por entre as outras máscaras me misturei.
De todas as que vi a que mais me tocou,
era a minha, porque despida de mim, nua de som,
era a mais real que alguém inventou.
sexta-feira, 21 de agosto de 2020
Outono
Por vezes ainda recordo o som da chuva
nas folhas amarelecidas
E o cheiro da terra molhada ao nosso redor
Agora sei que era curto
o longo passeio pelo parque
O tempo arrefecia
mas era quente a tua mão
Gosto de recordar pelos dois
esses momentos perdidos
agora que estás ao abrigo do tempo
E chove-me de saudade o Outono
domingo, 9 de agosto de 2020
Relato da morte de um vitral
onde me sentava nas tardes de verão,
quando o sol a pique queimava o que mexia.
Ali me sentava com o meu avô materno, e
à sombra dessa árvore centenária, falávamos,
ou ele contava-me estórias da sua juventude
e daquele lugar perdido no alto da serra,
mesmo em frente a outra serra igualmente perdida.
O cheiro da tília e o fresco que a sombra proporcionava
associados ao timbre da voz do meu avô,
embalavam-me. Era um cenário hipnótico
Era como se aquele velho e aquela centenária árvore
tivessem o poder de deixar o tempo suspenso
Quando agora voltei o banco já não estava,
A velha árvore também não
O calor, esse mantinha-se
Sentei-me no muro de pedra mesmo por detrás do local
E fiquei em silêncio, à espera.
Ao fim de algum tempo apareceu o banco
E logo de seguida, mas muito discretamente, a árvore.
E finalmente, dobrando a esquina da velha casa dos meus primos,
mesmo por baixo do beiral onde a gata malhada
se espreguiça ao sol, um chapéu preto de aba larga,
um velho vestido de cinzento escuro
e um menino
Vinham os 2 concentradíssimos à conversa
Passaram por mim sem me ver,
Sentaram-se, de costas para mim, no banco
e ficaram os dois à conversa
Não se aperceberam do nó que me apertou a garganta
E do grão de poeira que me irritou os olhos
do sol abrasador e do cheiro tranquilo da tília
Nem mesmo notaram que, à sua volta,
Nem uma sombra se deitava no chão
sob esse sol impiedoso sol de verão
Com um sorriso melancólico levantei-me,
Despedi-me dos dois com a dolorosa certeza
de não mais os voltar a encontrar
Virei costas e desci a rua empedrada para a vila
sábado, 8 de agosto de 2020
Negros desejos
Do destino que à nascença me coube
Já lhe cumpri mais de metade
Queima célere a mecha da vida
E do que ainda me cabe
Peça cada vez mais tingida
Vontade que já não me move
Espero que venha depressa
Essa mulher fugidia
A quem muitos chamam morte
E eu chamo outra sorte
Suave destino de vida
Doce carícia perdida
Não é fim, é mais forte
É um princípio, um mote
Compromisso desafiante
Um navegar sem ter norte
É parar, é dormir e satisfazer de prazer
Essa mulher de má sorte,
A quem todos chamam Morte.
Trilhos rasgados
Que pensara apagado
E não gostei de me ver
Tentei subtrair-me à memória
Incómoda
Inutilmente
As imagens mantêm-se
Intocadas
E a dor recomeçou
Intensa
domingo, 2 de agosto de 2020
Sombras da alma
Hoje há um pessimismo agudo, um olhar para dentro, incómodo, amargo. Os
dias que antecedem a morte do Outono normalmente propiciam a autoflagelação
mental.
(Este é um texto outonal)
A perspectiva ambígua do mal e do remorso retratada na sombra. É tudo
derivado do pecado ou do seu conceito, fica impresso na mente, cravado a ferro
em brasa, nos jovens, vitelos de leite, que todos fomos.
Ai os pecados, essa coisa insubstancial com que fomos formatados em criança,
gratuita e altruisticamente por homens vestidos com vestidos, dizendo-se
porta-vozes de um ser maior, de um bem superior, de uma lei suprema e
inquestionável.
Mas os pecado é como o amor: inevitável, traumatizante e apetecível.
As sombras da alma são vermelho sangue
Feridas abertas, disformes
Pústulas do teu lado mais sombrio
Que te acordam tarde na noite
Em revoadas de suores frios
As sombras da alma
São os teus fantasmas de estimação
São aves de rapina pairando
Sobre a tua memória
Avisos do passado, gritados no presente
Alertando-te o futuro, inutilmente
São gritos de dor, cáries da consciência
Assim são essas sombras da alma
Essas dores embaraçantes
Que acompanharão para sempre
O borralho da tua vergonha
domingo, 21 de junho de 2020
Num sussurro arrepiado
segunda-feira, 4 de maio de 2020
Lá
Lá, onde o mar é mais iodado e os rochedos são finas lâminas de xisto.
Lá, onde os prados fogem ao olhar, as colinas são suaves e preguiçosas e as ervas têm cheiro de condimento.
Lá, onde as pessoas são brandas e o tempo se mede pelas rugas, onde as casas são térreas e brancas, com finos recortes de azul ou amarelo.
No meu cantinho quase selvagem, onde tudo parece ter sido feito à minha medida, a noite é feita de estrelas e a lua é mais conversadeira.
Naquela costa primitiva, bem juntinho à cadeia montanhosa, tudo o que me rodeia é fragmento de mim e, por vezes, em dias de sorte, consigo cheirar a felicidade.
sexta-feira, 1 de maio de 2020
Aquele olhar bucólico
sexta-feira, 6 de março de 2020
São apenas pedaços de mim
te procuro e não alcanço. Esquecido
torno a dormir. Medonho
é o desejo de te sentir
Tremenda a vontade de fugir
E nesta contradição pendular
balanço entre não querer e alcançar
Maldigo a hora em que senti
Quão gostoso é gostar de ti
terça-feira, 3 de março de 2020
Fragmentos de jardim
Chuva em pétalas doridas
Som cadenciado, compassado, como militares desfilando muito ao longe.
E de longe se aproxima, vindo de cima e de lado, ser alado.
Chuva, chuva fina, peregrina, cadente, por vezes urgente, outras, persistente.
Fria cai em fiadas, dias de noites amargas, ideias peregrinas, pouco sadias, enlutadas por dores veladas, dores de falta, mascaradas por sorrisos de nada.
Chuva, doida chuva que não poisa, não tem assento, tal como o vento.
Chuva que por vezes acalma, em melodia recortada, filigrana, ouro sacana que não me sacia a alma, essa esponja que retém o que não deve e me não salva, das noites perdidas de chuva, dessa chuva que cheira a malva, memórias de infância e de novo a calma.
Húmida névoa que chora e sobre mim se demora, presença constante, pranto delirante que pede às mãos que me rasguem deste céu ou no ar as erga, olhos no chão, consciência plena da pequenez que me fez.
Chuva, densa chuva, nevoeiro, mau-olhado, formigueiro, que me ecoa aos ouvidos, vindo de dentro, tolhe os sentidos.
Chuva plena que não termina. Não reajo, não resisto, deixo-me ir pelos riachos, já sem tino, desatino, e desaguo na loucura deste som de violino.
Já não sinto, não me consinto, sinto a chuva, não me sinto.
sábado, 11 de janeiro de 2020
Da pálida dança do desejo
quarta-feira, 27 de novembro de 2019
Breve nota sobre as esquinas da vida
Desde que viraste a esquina da minha vida, não mais cheirei o teu cheiro, não mais ouvi a tua voz, não mais olhei directo nos teus olhos.
Desde esse dia recorro à memória de imagens, sons e cheiros para te recordar; é a única forma de saciar este vício que adquiri de ti.
Um dia essas memórias passam do prazo, a minha mente não irá conseguir mais retê-las e tu deixarás de existir na minha vida, tal como não existias antes de te teres cruzado comigo da primeira vez em que senti o teu cheiro, ouvi a tua voz, apreciei os teus olhos.
Como acontece na ressaca de um vício, sentirei a falta de algo, uma necessidade de qualquer coisa que não conseguirei identificar, até que essa falta deixe de faltar.
As esquinas da vida são sorvedouros de pessoas, de sentidos e de memórias; elas levam-me os olhos que conseguem marejar os meus.
Here, there and everywhere
E foi assim que aconteceu, sem tirar nem pôr.
quarta-feira, 20 de novembro de 2019
Sentires
Eternamente grato
Pensemos no benefício da dúvida, na piedade alheia, ou mesmo na compreensão, independentemente de delas precisarmos.
Consideremos tudo o que pensámos e, eternamene agradecidos, adoremos os seres humanos por serem tão misericordiosos.
quarta-feira, 31 de outubro de 2018
Danças de luz taxadas por palavra ou Como ser alegremente fútil
terça-feira, 30 de outubro de 2018
Eternamente Novembro
O frio veio primeiro; o frio acha-se o porteiro.
Novembro é triste, é escuro e frio, é húmido e melancólico. É o mês viela do purgatório.
É quando apetece ouvir músicas suaves da juventude com a companhia desejada, enrolados num cobertor bem quentinho.
E por falar na companhia desejada, não sei de ti, por onde caminham teus passos, quem te leva agora a passear, pendurada nos seus ombros e sem deixar que as mãos descolem uma da outra, olhando para cima com esses olhos arqueados, essa boca fantástica, rasgada num imenso sorriso de felicidade.
Quem te bebe o sorriso por estes dias? Quem te leva a passear à chuva nestes dias cinzentos, para os outros, mas solarengos para ti?
Eis que novembro bate à porta e eu fico do lado de dentro da vidraça, olhando ao longe duas silhuetas familiares, unidas por um laço de paixão, encaixadas entre duas linhas de água que escorrem pelo vidro.
Novembro desorganiza-me as memórias, desequilibra-me os sentidos, traz-me esperanças vãs e rouba-me o calor do talvez: talvez, quem sabe, talvez ainda seja possível passear-te à chuva, numa tarde de novembro, com o teu sorriso enamorado como guarda-chuva e o desejo transformado em sol de verão.
Desconfio que vai chover, uma vez mais, amanhã.
sexta-feira, 7 de setembro de 2018
Soalheiramente
Um fio de luz dançando sobre duas tábuas do soalho; um fino e frágil fio de luz que atravessou o vidro da janela, numa tarde avançada de verão.
Um traço de cor, cor de cristal, fio atrevido, tarde de sol, brisa de sal.
Lá longe, azul, o mar abraça o céu, o sol prepara o mergulho no horizonte e o tempo flui à velocidade do seu tempo.
Silêncio, sossego, tranquilidade, ideal.
Olho lá ao longe a ave que espreguiça sobre a onda de espuma, cavalgando brisas quentes e, nesta tarde avançada de verão, um fio de luz dança ao som do silêncio, brilhando como cristal tranquilo, embalado na espuma branca de uma onda no soalho.
Haverá melhor maneira de deixar a vida fluir?
domingo, 22 de abril de 2018
Cinzas de Inverno
Na melancolia de um céu de chumbo
recordo paisagens amargas
momentos escondidos em mapas sem X.
Renascem lágrimas de dor e suores de raiva,
reavivo mantos frios julgados esquecidos
e revejo fotos que não desejava.
Nesse pálido céu de chumbo
numa tarde de Inverno qualquer
que de longe me traz os remorsos
do que, sentindo já não ser, ainda sou,
sinto o peso da culpa
em tempestades de tremura.
Café Central
De costas para ti senti a tua presença;
sei que estás nessa mesa contra a qual, de costas,
sempre me sento.
Senti te o perfume quando cruzaste as pernas
e soube que tinhas chegado, como sempre, silenciosa.
De costas para ti peguei no copo
e ergui-o quase casualmente
na esperança que me reflectisse a tua imagem.
Uma vez mais apenas vi o líquido e bebi um trago.
De costas para ti ouvi-te puxar do maço, tirar um cigarro e acende-lo à 3ª tentativa.
Senti o aroma desse tabaco que não fumo
e o teu olhar cravado em mim.
De costas para ti acabei a bebida,
depositei o custo do consumo sobre a mesa,
levantei-me e saí,
sabendo que estavas a olhar, esperando que me voltasse antes de atravessar a porta do café.
De costas para ti, entranhou-se-me o teu ressentimento pela minha "descoragem".
De costas para mim, senti-me, uma vez mais, incapaz de te suportar o olhar
porque sei que, se o fizesse, entregar-me-ia inevitavelmente a ti.
quarta-feira, 27 de dezembro de 2017
Equações sentimentais de grau indeterminado
Amo-te e desejo-te
Mas se te desejasse alcançar-te-ia no patamar do amor?
Se te amo e te desejo,
então desejo amar-te
ou amo desejar-te?
Poder-te-ei amar sem te desejar?
Sei que te posso desejar sem te amar,
mas não sei se é suficiente para ti.
Posso desejar amar-te, se já te desejo tanto?
Posso mesmo amar desejar-te sem nunca te ter.
Será que te quero mesmo amar,
ou é um pretexto para experimentar um prazer sem igual?
Posso desejar querer amar-te, mas isso não é forçar?
Quero amar-te?Não, soa mal.
Desejo-te tanto que me atrevo a dizer que te amo,
mas se estiver enganado no amor, não estou certamente no desejo.
Umas vezes desejo-te, outras...amo-te.
Muitas vezes, nem uma nem outra.
Mas sei que te desejo e te amo,
ou será que é ao contrário?
Sei, convictamente, que te quero!