Por vezes, ao fim
da tarde, naqueles momentos em que o sol já baixo no horizonte, nos presenteia
com uma luz difusa e mágica, eu acredito ouvir os seus passos breves e ligeiros
no corredor. E uma fragância fresca frutada, como a que usava, aflora-me as
narinas. São breves instantes de breve loucura, momentos de ilusão que me
permitem manter um certo equilíbrio emocional, em particular quando a bendita
solidão me ataca de mansinho e me embala no seu canto irresistível.
É terrivelmente cativante
a solidão, apenas suplantada pela tristeza.
Esta última seduz-nos,
envolve-nos, apodera-se da nossa vontade e alimenta-se das nossas fraquezas.
Por isso essa
breve ilusão de a sentir, tanto tempo depois, sempre que a luz obliquamente
breve do sol brinca no meu soalho, é um escudo que me protege da solidão e da
tristeza por instantes, embora eu, infalivelmente me volte a render a ambas e a
adormecer nos seus braços a cada noite.
A rua era estreita e íngreme. As
casas, estreitas e altas, escorriam humidade pelas cicatrizes centenárias.
O chão, de calhau rolado, era
um ringue de patinagem no inverno. O sol dificilmente descia às pedras e o
cheiro a mofo ira como um perfume de marca.
A minha cidade tinha uma parte
muito antiga, corroidamente velha, deliciosamente genuína, onde as casas eram
testemunhas das estórias vividas naquelas ruas estreitas e essas mesmas
testemunhavam muitas cenas caseiras. Eram como as velhas intriguistas, as casas
e as ruas empedradas.
No verão, no quente verão da
minha cidade, era um descanso passar por essas ruas frescas, amenas, calmantes.
A minha cidade, a minha velha
cidade é um misto de encanto e sedução. E é só minha.
Há muito que deixei de a
habitar; visito-a, de fugida porque me dói a transformação que se tem operado.
Não porque esteja pior, mas porque as minhas imagens dela são outras, são mais
bonitas, são vistas pelos olhos de uma criança e pelos de um adolescente e,
finalmente de um jovem adulto.
E essas sim, são as imagens da
minha verdadeira cidade, aquelas que preservo e amo.
Por isso as suas ruas
continuam ingremes e estreitas e as casas suam a sua velha podridão, libertando
um perfume bafiento único. E assim igualei a minha cidade, envelhecendo cada um
ao ritmo do seu tempo.
É bela a minha cidade, conquistando a serra, afagando o rio que a banha.
E é só minha porque mais ninguém a vê como eu sempre a fui vendo.
É quase fim de ano; quase fim de ciclo, cada vez mais quase um fim.
É doloroso pensar no fim; mas este é o fim de ano, chamemos-lhe assim. E assim alcunhado deixa de ser doloroso e passa a ser alegre, um pouco melancólico talvez, mas supostamente divertido.
Por isso ergam-se os copos cheios de nada, brinde-se a coisas vazias de significado e embriaguemo-nos de uma falsa esperança.
Haja paz na terra e silêncio nas campas; o mundo é um imenso cemitério...
Quando oiço esta música, que adoro, pergunto-me sempre: -A qual delas se refere ele?
Se fosse dirigido a mim confesso que não saberia a que casa voltar. É que ao longo da nossa vida mudamos tantas vezes de casa e em cada uma deixamos uma mala de nós. Um ente querido morre e a nossa casa imediatamente muda e uma mala se perde; um amigo desaparece e a casa muda de novo e mais uma mala ficou para tras; um amor que acaba, que esmorece ou que arrefece e a casa muda e uma montanha de malas...
Um filho que sai, um animal de estimação que falece.
Voltar para onde? Já vivi em tanto lado e por causa disso quantas vezes não morri? Quantas malas de mim eu perdi?
Há apenas uma casa a que poderei regressar e um dia assim farei, porque assim terá de ser. E acredito que lá estarão, bem arrumadinhas por ordem cronológica, todas as malas que deixei em cada casa que perdi.
Enquanto esse dia não chega, não me canso de ouvir os One Republic interpretar esta música.