sexta-feira, 19 de maio de 2023

Do fim e da gralha


A gralha, pousada no muro de pedra rachada

Observa curiosa e atenta

O manto escuro, ao fim da tarde

Deitado de lado sobre as costas encurvadas

Agitando-se ao vento

Andando depressa

Coberto de negro, quase de noite

Sob o olhar atento da gralha

Acima das pedras do muro rachado

Que o musgo do tempo mantém de pé

E escuro vai encurvado, sem se saber para onde,

Na negra noite primaveril

O vento sopra de rajada

E da gralha nem rasto.

E da vida nem som

Curvado sobre o abismo,

Manto ao vento, bandeira negra

Réstia de nada

Lá bem longe

Onde já nada existe 

Excepto a gralha




quarta-feira, 17 de maio de 2023

Esgotando o desespero

 

Já nada mais tenho para te dizer

Esgotei as palavras conhecidas

Que pensei dizer-te

E cansei o olhar a adorar-te

Sempre que distraída te apanhava

 

Sequei a esperança de vencer a cobardia

E te expressar o quanto revolves o meu peito

Não,

Não creio que alguma vez venhas a saber

Que por ti seria capaz de ser fortaleza,

Porto de abrigo, braço protector

Um mundo de emoções,

Sentimentos em turbilhão

Um pateta sem jeito,

Um perdido de paixão

 

Por isso,

E porque não consigo amar outra qualquer

Brinco às escondidas com as minhas sombras

Em ruelas estreitas e escuras

No coração da cidade

 Na zona mais profunda da tristeza

Que os meus olhos rasos conseguem atingir

 

E já nada mais há pelo qual respirar




segunda-feira, 24 de abril de 2023

No fundo de mim

 

Quantas vezes não passeei

Por vielas escuras e fétidas

Ventos de bolor, escorrendo nas paredes

Vielas de pedra húmida, pedra imunda

Agarrado a um cigarro

Cambaleando etilizado

Perdido numa procura insana

Ou tão só perdido de razão

Quantas quedas, quanta lama

Tanto desnorte roçado no salitre

Da podridão onde me atolei

Quando hoje recordo o que passei

Ou melhor, aquilo a que me forcei

Estremeço só de pensar

Em voltar a percorrer essas sujas vielas

Essas podres vias emocionais

Perfeitos desequilíbrios comportamentais

Labirintos de emoção

Ligando cérebro e coração




sexta-feira, 21 de abril de 2023

A certeza do talvez

 

Não sei quando te encontrarei,

Nem sei se alguma vez te encontrarei

Não mesmo sei onde existes

Mas sei que te espero

 

Vives nesta melancolia

Que me prende a nada o olhar 

Neste respirar suspirado

Que me deixa vazio de ar

 

Sinto-te em cada Estação

Na brisa suave dos fins de tarde

Sinto-te na espuma das ondas

Que me banham os pés

 

Não sei onde estás

Não te vejo, não te oiço

Apenas sei que te sinto

Algures neste mundo

 

E espero, no ar que respiro

No horizonte que observo

Na esperança que me move

Espero o momento do encontro

 

O momento em que todas as palavras me serão vedadas

Em que perderei a compostura

E idiotamente ficarei especado

Olhar bem fixo em ti

Olhos destilando o tanto que te quero

E o quanto te esperei

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Hoje gostaria de ser um cavalo selvagem, galopando numa imensa pradaria 





quarta-feira, 5 de abril de 2023

O princípio da dor

 

Não!

Não quero deslizar os dedos no contorno dos teus lábios

Não quero descobrir os sulcos dos teus olhos

Nem provar o teu sabor

Não quero pegar-te pelas mãos

E rodopiar contigo ao som de uma musica qualquer


Mas cometi o erro de te sentir o cheiro

De bailar nos teus lábios

De saborear-te as palavras

Que debitavas pelos olhos

 

Não, repito para mim

Não voltas a deslumbrar-te

Não vais permitir-te sentir

Não voltarás a envolver-te

 

Em vão

 

Porque é sempre assim o princípio da dor

Quando a realidade nos atinge

A magia termina de repente

E o mundo, de súbito, sabe a fel

E vem o desatino da recordação

E a certeza de que aquela dança de olhares,

Não voltará a acontecer


E na ressaca da dor

escutas na tua mente:

Não, não voltas, 

não irás permitir-te, 

não mais sentirás



quarta-feira, 29 de março de 2023

Momentos difusos

 Não é essa imagem reflectida no espelho

que recordam as paredes da casa.

Para elas o tempo não altera faces

Para ele nada pode manter-se inalterado

A casa já não te reconhece

A rua deixou de ter sentido

E o largo onde outrora jogaste à bola

já não existe

Que é feito desse tempo primaveril?

Já nada é desse mundo que recordas

E, no entanto, olhas o presente

e não o sentes teu.

Ouve-se uma melodia muito ao longe,

memória indistinta.

Já tudo é enublado

E nem o sol te aquece os ossos.

Será tempo de voltar?




sábado, 11 de março de 2023

Um caso perdido

 

Tantos, tantos anos passados

Tantos filmes rodados

Quantos planos desenhados

Quantos finais desejados

E quantos fracassados

O nevoeiro chegou

Tardiamente

Um cigarro perdido no canto da boca

Uma palavra entalada na garganta

Uma vontade de andar

Um desejo breve de ficar

Há uma estrada que espera

Um caminho a percorrer

(solitário)

Uma ave negra atenta,

Uma música lenta

Uma ladainha a contar

Um caso de amor por desvendar

É uma cicatriz ferida

Uma humidade entranhada

Um suspiro vencido

Um olhar perdido

(Outrora convencido)

Uma imagem gravada

E um caminho por fazer

Ou um fim por atingir

Já tanto faz e tudo serve

Quando a dor persiste

(E aquela música persiste

E magoa)





terça-feira, 28 de fevereiro de 2023

Da louca sedução

 

Por vezes, ao fim da tarde, naqueles momentos em que o sol já baixo no horizonte, nos presenteia com uma luz difusa e mágica, eu acredito ouvir os seus passos breves e ligeiros no corredor. E uma fragância fresca frutada, como a que usava, aflora-me as narinas. São breves instantes de breve loucura, momentos de ilusão que me permitem manter um certo equilíbrio emocional, em particular quando a bendita solidão me ataca de mansinho e me embala no seu canto irresistível.

É terrivelmente cativante a solidão, apenas suplantada pela tristeza.

Esta última seduz-nos, envolve-nos, apodera-se da nossa vontade e alimenta-se das nossas fraquezas.

Por isso essa breve ilusão de a sentir, tanto tempo depois, sempre que a luz obliquamente breve do sol brinca no meu soalho, é um escudo que me protege da solidão e da tristeza por instantes, embora eu, infalivelmente me volte a render a ambas e a adormecer nos seus braços a cada noite.




segunda-feira, 23 de janeiro de 2023

Da dor e do tempo

 

Sei que nunca te contei

(Porque egoisticamente guardei para mim)

Desse teu jeito tão peculiar ao dormir

Cabeça tombada sobre o meu peito

Sorriso maroto de garota feliz


Sei-te os percursos da pele

De olhos fechados

Caminho acetinado, mapa perfumado

E, enquanto descansas sobre o meu peito sei

Sei que um dia te perderei


Porque não consigo parar o tempo

Porque me é impossível congelar o momento


Um dia, eu sei

Um de nós não mais erguerá a cabeça

Não mais olhará o outro nos olhos

Os mesmos que olhando dizem tanto do amor que não se diz


Sei que nunca te contei

Deste medo de ficar mudo

De querer falar e não ter voz

Do silêncio cego e da ausência

De ti, meu amor.

domingo, 22 de janeiro de 2023

Estas partes de mim

 

Muitas vezes pergunto

O que seria de mim

Se uma parte do que sou

Viesse a saber da outra parte de mim

E sinto uma angústia,

Um desconforto, enfim

Pensando se, por absurdo,

As duas partes se conhecessem

E falassem de mim

E quando, finalmente,

Cientes do todo, 

Conscientes do que habita em mim,

Que passariam a ser,

Em que todo me tornariam

Estas duas partes de mim

Ai de mim.



 

segunda-feira, 16 de janeiro de 2023

Sentimentos profundos

 

A rua era estreita e íngreme. As casas, estreitas e altas, escorriam humidade pelas cicatrizes centenárias.

O chão, de calhau rolado, era um ringue de patinagem no inverno. O sol dificilmente descia às pedras e o cheiro a mofo ira como um perfume de marca.

A minha cidade tinha uma parte muito antiga, corroidamente velha, deliciosamente genuína, onde as casas eram testemunhas das estórias vividas naquelas ruas estreitas e essas mesmas testemunhavam muitas cenas caseiras. Eram como as velhas intriguistas, as casas e as ruas empedradas.

No verão, no quente verão da minha cidade, era um descanso passar por essas ruas frescas, amenas, calmantes.

A minha cidade, a minha velha cidade é um misto de encanto e sedução. E é só minha.

Há muito que deixei de a habitar; visito-a, de fugida porque me dói a transformação que se tem operado. Não porque esteja pior, mas porque as minhas imagens dela são outras, são mais bonitas, são vistas pelos olhos de uma criança e pelos de um adolescente e, finalmente de um jovem adulto.

E essas sim, são as imagens da minha verdadeira cidade, aquelas que preservo e amo.

Por isso as suas ruas continuam ingremes e estreitas e as casas suam a sua velha podridão, libertando um perfume bafiento único. E assim igualei a minha cidade, envelhecendo cada um ao ritmo do seu tempo.

É bela a minha cidade, conquistando a serra, afagando o rio que a banha.

E é só minha porque mais ninguém a vê como eu sempre a fui vendo.

segunda-feira, 9 de janeiro de 2023

Loucura 5 - A outra face do amor

 

Parti sentindo a perda

Quebrei o contacto

Desfiz a ligação

Senti a falta

Plenamente vazio

Perfeitamente desfeito

Parti, quebrado, vazio

O tempo passou

O Inverno suavizou

A lua encheu de novo

E hoje olho as cicatrizes

Sem dor

Sei que pode repetir-se

Embora não queira

Mas sei que não domino

Os caminhos da lua

Que seja cheia

Se assim tiver de acontecer



terça-feira, 3 de janeiro de 2023

Loucura 4 - O Caminho para amar

 

Entre nós há algo mais

Que um simples gostar

Um desafio de palavras,

Um certo olhar desconcertante

Um provocar, um hesitar

Um tudo e um nada

Uma corrida parada

E um louco e inesperado gargalhar

Entre nós há um jogo

Uma linha ténue afiada

Um salto no vazio

Um silencio ruidoso

E um quero-te soletrado

Não assumido, velado

Envergonhado, como se temesse

Tropeçar no próprio desejo

Entre nós não passa o ar

E somos só nós

Com um desejo receoso de ficar




quinta-feira, 29 de dezembro de 2022

Loucura 3 - Medos

É quase fim de ano; quase fim de ciclo, cada vez mais quase um fim.

É doloroso pensar no fim; mas este é o fim de ano, chamemos-lhe assim. E assim alcunhado deixa de ser doloroso e passa a ser alegre, um pouco melancólico talvez, mas supostamente divertido.

Por isso ergam-se os copos cheios de nada, brinde-se a coisas vazias de significado e embriaguemo-nos de uma falsa esperança.

Haja paz na terra e silêncio nas campas; o mundo é um imenso cemitério...

a preto e branco

E não convém incomodar os moradores.





Loucura 2- A tristeza

 

Ela chega, instala-se e apodera-se

Ela cativa, envolve e alimenta

Uma vez sentida jamais deixarás de a querer

Torna-se a tua droga,

A tua cama acetinada

O teu horizonte mais brilhante

E tu procura-la, mais e mais

Tornam-se inseparáveis

A tristeza esconde-se nos teus olhos

Insinua-se no teu sorriso baço

É a tua bengala

Tentas esconder

Negas o seu domínio

Inutilmente

És a tristeza embalada por uma solidão fria,

Negra, profunda e doentia

É o fruto do teu desespero

E respiras desesperadamente a melancolia

Que te mantém vivo

Mas sorris, sorris sempre

Mesmo na mais profunda fase de tristeza

Quando mais aperta a solidão

Sorris.

Esse esgar de dor disfarçado de esperança

Sorris uma multidão de medos

Sorris as fraquezas que alimentas

Sorris da tua triste condição



quarta-feira, 21 de dezembro de 2022

Loucura 1- O labirinto

 

Tenta não pensar,

Não queiras relacionar 

Esvazia a cabeça,

Respira fundo e não penses

Dor, sofrimento, desespero

Mágoa, desencanto, traição

Um labirinto de emoções

Que se estreita com o tempo

Sem nexo, sem saída

Tens a noção?

E falta-te o ar,

Pareces estar a sufocar

Tenta não pensar, deixa andar

Liberta a mente

Mente

Ri descontroladamente

Bebe muito e rapidamente

Vale tudo o que te impeça de voltar

A pensar




quinta-feira, 1 de dezembro de 2022

Dezembro

 

Este é o mês do princípio das coisas

É o momento zero e os seguintes

É frio, é chuvoso, cinzento

É meu

Este é o mês do meu íntimo

É o meu novelo de emoções

É quando mais desaguam os meus sentimentos

E mais expostas estão as minhas fraquezas

Este é o cordão umbilical

Que me liga à terra,

que me faz sentir barro

E é meu

Sendo o último, é o que me faz ser primeiro

É curto de luz e longo de sombras

Tem o som de um piano

E a cor das suas teclas

Facetadamente melancólico

Este é o meu principio

 E este sou eu



quarta-feira, 23 de novembro de 2022

À deriva

Há quem tente

Quem saiba o quanto sente,

E que quem ama não desiste

Mesmo quando ama sozinho

E há quem hesite

Quem não faça um esforço

Para entender o que deveras sente

Seja por medo ou covardia

E quando finalmente se atreve,

Quase sempre é tardia

A assunção há tanto contida

Que também ama, que deseja partilha

É apenas mais um sonho perdido

Dois barcos que se cruzaram

Neste mar tão revolto

Um quer que o outro volte

O outro já não tem por que voltar


domingo, 20 de novembro de 2022

Dias cinzentos

 Há dias cinzentos,

Dias de pensamento rebelde

Onde a tristeza se instala,

Onde a memória te desobedece

E traz-ta de volta à ideia 

Recordas o que foram e deixaram de ser

E dói-te senti-la de novo

Sabendo que já te esqueceu

Sentes-lhe os lábios

Esses lábios quentes e húmidos

E o seu cheiro envolvente

E esses dias tornam-se chuvosos

São dias dolorosos 

Em que te odeias por sentir

Quem há muito deixou de te pensar



sexta-feira, 28 de outubro de 2022

O sorriso

 

Ela veio suave, instalou-se na minha vida

E deu-me carinho,

Deu-me o prazer do amor

Deu-me também um sorriso.

O mais belo e rasgado sorriso alguma vez pintado

Foi um tempo que parece agora ter sido um momento

Um tempo de dar, um tempo de partilhar

Também me deu um motivo, trouxe com ela uma razão

E tudo se encaixava na perfeição

Ela partiu de repente

Sem um motivo, sem explicação

Deixou-me um vazio, um frio gélido

Um tempo por acabar, como se fora uma ilusão

Mas deixou-me o sorriso

Esse sorriso rasgado, jamais pintado

E uma insaciável solidão



segunda-feira, 17 de outubro de 2022

Devagar

Sente a vibração no ar

É outubro, é outono

Sente a flor a mudar de cor,

Devagar

É tempo de sentir o tempo a passar

A flor murcha,

Devagar

A vida flui pelo ar

O dia arrefece,

O mar enfurece

É o tempo que muda

É a vida a vibrar

Sente-o no ar

Antes que o inverno venha

A folha vai acabar por cair,

Devagar

Em rodopios suaves,

Numa dança sem vida

Num tempo que murcha,

Sem o sentir definhar

A noite insinua-se,

Devagar

O escuro conquista

As frias paredes desta casa a tombar,

Lentamente

Sei que assim é,

Da vida e da morte

De perder e amar

E se amar é perder…

Devagar, muito devagar

A luz do farol,

Lá longe

Já não protege,

Nem mesmo aconchega

O coração cansado

Que bate,

Que ainda bate

Bem devagar

Esperando, qual Outono,

O inverno chegar

Com a brisa húmida do mar



sexta-feira, 30 de setembro de 2022

O poder do som e da letra

 



Quando oiço esta música, que adoro, pergunto-me sempre: -A qual delas se refere ele?

Se fosse dirigido a mim confesso que não saberia a que casa voltar. É que ao longo da nossa vida mudamos tantas vezes de casa e em cada uma deixamos uma mala de nós. Um ente querido morre e a nossa casa imediatamente muda e uma mala se perde; um amigo desaparece e a casa muda de novo e mais uma mala ficou para tras; um amor que acaba, que esmorece ou que arrefece e a casa muda e uma montanha de malas...
Um filho que sai, um animal de estimação que falece.
Voltar para onde? Já vivi em tanto lado e por causa disso quantas vezes não morri? Quantas malas de mim eu perdi?
Há apenas uma casa a que poderei regressar e um dia assim farei, porque assim terá de ser. E acredito que lá estarão, bem arrumadinhas por ordem cronológica, todas as malas que deixei em cada casa que perdi.
Enquanto esse dia não chega, não me canso de ouvir os One Republic interpretar esta música.

segunda-feira, 19 de setembro de 2022

Da fragilidade de ser

 

Abraça-me com força,

Segura-me, não permitas que caia

E nesse abraço protector

Empresta-me um pouco do teu calor

Porque me sinto vazio

E um pouco de carinho

Pode alentar-me o caminho

Que ainda tenho de percorrer

Olha-me, olha-me nos olhos

Como quem olha alguém

E nesse olhar dá-me a esperança

De voltar a ter um ideal

E, se não for abusar muito,

Peço que me dês a mão

E que a força desse aperto

Me faça sentir um homem novamente

E quando por fim te afastares

Deixa para trás o teu perfume.

Apenas um pouco desse perfume

Para que por mais uns momentos

Nele me possa a embriagar.




Esse Jardim

 

Senta-te e observa bem quieta

Como a tarde cedo anoitece

E a temperatura do ar arrefece

Devagar, ao ritmo do tempo

 

Não fales, escuta o ruido do teu silêncio

Ou como as folhas coloridas se agitam

Ao som da brisa outonal

 

Escolhe um jardim e um banco

Esconde-te à vista de quem passa

Torna-te um elemento da paisagem

Fecha os olhos e sente

 

Sente o tempo a passar,

As horas a contar

(ao ritmo a que só as horam sabem contar)

E deixa-te ficar até a noite cerrar

E o escuro te abraçar

 

Algo está algures a findar

Não temas, é apenas a vida a cumprir-se

E nessa escuridão tardia

Aconchega a tua cabeça

Sossega o teu coração

E deixa-te estar

 

Há um dia por chegar

Há uma noite por ficar




sábado, 17 de setembro de 2022

Se ao menos existisse o tal se

 

Há quem diga que há seres destinados a cruzar-se o número de vidas necessárias para que se cumpra o desígnio que lhes está destinado.

Eu acredito que só se vive uma vez, e cada escolha é única e irrepetível. O que não se partilhar nesta vida, nunca voltará a ser possível.

Felizes dos que acreditam…

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Não sei recriar o passado

Não posso corrigir situações

Posso, sim, sentir como seria

Se recriado fosse o momento

De que hoje me lamento

Tantos anos depois

Há quem fale em destino

No tal fado fadado

Numa força maior

Eu simplesmente acredito

Que há escolhas na vida

Que se fazem uma vez

E não se colocam depois

E é este o mistério,

A graça, a especiaria

Que torna tão especial cada vida

Nunca sabermos como seria

Se em vez de um não saísse um sim,

Ou se o olhar fosse para ti

E não para algo mais além.

Não quero recriar o passado

Tenho comigo as emoções

E as imagens que marcaram

Tudo o mais são ilusões



terça-feira, 13 de setembro de 2022

Cinzento escuro

 

Penso no pouco que me resta

Do tanto em que me dividi

Tão pouco,

tão espalhado

Sombra de um pecado

Sendo pouco sou nada

Nada sendo do que pareço ser

Uma mentira no espelho

Uma solução de continuidade

Algo que não sabe o que é

Não importa se é fragmento

Se o todo não é


Penso no fragmento

Tão pouco, 

tão espelhado

Na mentira que criei

De cada vez em que me dividi

Em algo,

Numa sombra

No nada 

No quanto resta de mim







sexta-feira, 19 de agosto de 2022

 

Não esmoreças,

Não desanimes.

Por pior que as coisas se apresentem, não percas a compostura.

E continua, e vai em frente

Porque a verdade é que tudo tende a piorar

A esperança é um mito

E a vida significa morte

Mas não esmoreças, não desanimes.

Engana-te propositadamente

E diz para ti mesmo: “podia ser pior”

Mesmo não sendo e se for possível ser, será

E tu saberás.

Cabeça erguida,

Olhar em frente,

Não vaciles

E tem fé:

Com sorte a morte virá cedo



quarta-feira, 10 de agosto de 2022

My house

 

Na casa dos meus pais as paredes secaram

Essa foi a minha casa enquanto eu fui dos meus pais

Havia vida no chão de madeira; ripas antigas; algumas rangiam até de noite

Mas as paredes tinham vida

Na casa dos meus pais as tardes eram soalheiras quando não havia tempestades

Os vizinhos eram todos amigos, mesmo os que fingiam

E quase todos fingiam, mas só quando fingiam.

A casa dos meus pais era grande; para mim era imensa.

Tinha muitas divisões e escadas, muitos degraus, vários obstáculos.

Hoje a casa dos meus pais parece-me pequena, embora continue a ter muitas divisões e degraus.

Já não há obstáculos dignos desse nome.

E as paredes, entretanto, secaram mesmo.

Há muito deixou de haver tempestades, mas as ripas de madeira rangem mais.

Há muitos sons na casa praticamente vazia

Eu acho que alguns são ecos doutros tempos.

Em breve a casa que foi dos meus pais e minha e depois só dos meus pais, voltará a ser minha.

Creio que desta vez será só minha, o que pode representar um problema porque as paredes não estão habituadas e eu não sei como reagirão,

As paredes são temperamentais, algumas podem ser mesmo muito.

Mas o que mais temo são os sons que teimam em ficar.



sexta-feira, 5 de agosto de 2022

Viver é uma felicidade

 

Nasces.

Pela casa é uma alegria contagiante.

Comemora-se o teu nascimento - aplaude-se a tua morte

Nasces, terás um pouco de tudo e muito de algumas coisas

Mas morrerás

O único legado da vida, a única não promessa que se cumprirá,

A única coisa que terás: uma morte

Mas nasces e o mundo é feliz

Estás vivo

Por quanto tempo?

Que interessa se o teu mundo é feliz?

Se fores crédulo ainda acreditarás que a morte é apenas uma passagem

Para uma outra qualquer margem onde, acreditas porque tens de acreditar para manteres alguma sanidade, que serás ainda mais feliz

E o teu mundo sorri

Vives e há um sentido na tua vida, apenas não sabes qual, mas queres acreditar que é algo de maior

E depois morres, mas antes de acontecer, o teu credo abala, os teus medos tomam-te e perguntas-te que sentido teve tudo isso

Sorri, ninguém disse que a vida era fácil

Ela apenas acontece




domingo, 10 de julho de 2022

Um traço

 

Com um traço desenho o limite entre a areia e o mar.

Um traço cada vez mais ténue com o passar dos anos.  Um traço que já foi uma fronteira.

Há nesse traço toda a história de uma vida.

Há toda uma história que envolve vidas. Com um traço desenho limites de vida.

E com esse traço vou à origem, risco sentimentos e sentires.

Um traço

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