Fosse o teu corpo uma praia
E o meu desejo uma
fracção do mar
Entre nós há algo mais
Que um simples gostar
Um desafio de palavras,
Um certo olhar
desconcertante
Um provocar, um hesitar
Um tudo e um nada
Uma corrida parada
E um louco e inesperado
gargalhar
Entre nós há um jogo
Uma linha ténue afiada
Um saltitar por entre o
vazio
Um silencio ruidoso
E um quero-te soletrado
Não assumido, velado
Envergonhado, como se
temesse
Tropeçar no próprio
desejo
Entre nós não passa o ar
E somos só nós
Com um desejo receoso de
ficar
À tua volta uma azáfama de balanços do ano moribundo, agradecimentos e mensagens esperançosas de Ano Novo. O passado que ainda não se consumou e a esperança do que há-de vir.
À tua volta as compras de
última hora para colocar na mesa, os convites, as combinações de encontro logo
à noite, o olhar para o relógio como se este avançasse sob pressão.
Estás sentado, ouvindo um
piano que debita acordes melancólicos na companhia de uma voz estranha,
envolvente, cativante. E pensas no que foi, no que gostarias que tivesse sido,
no que perdeste ou não aproveitaste. Despedes-te, silenciosamente dos que deixaram
de te bater à porta e dos que viram a tua porta ser-lhes fechada
irremediavelmente. Questionas-te pela última vez (será?) se terás agido bem com
estes últimos, como se isso pesasse na tua decisão.
O piano acompanha-te nas
divagações, em jeito de balanço anual. Passou mais um ano, numa fase em que os
anos têm o peso de décadas e lá estás tu a pensar no tempo. Há algum tempo que
notas essa fixação pelo tempo, como se ele te pesasse cada vez mais, como se
medisses os teus passos pelo ponteiro do relógio.
Tu, que ao longo dos anos
coleccionaste coisas, mas mais diversas coisas, desde objectos a amigos,
tornando-te escravo de tudo quanto foste guardando e que tanto te pesa,
tornaste-te também escravo dos minutos que originam horas e das horas que
traduzem dias e dos dias que dobram anos.
À tua volta todos andam
presos pela ilusão cativante de mais uma festa pendurada na contagem regressiva
dos ponteiros do relógio, de um copo de espumante, de champanhe ou de cava, a
ilusão cativante dos ponteiros que avançam contando regressivamente.
Regressivo é o tempo que
te resta, o tempo que te angustia e te faz perder no limbo das memórias, dos
balanços tardios, do tique-taque mecânico de coisas que contam sem parar.
E o piano, também sem
parar, faz as teclas dedilharem sons, numa imagem regressiva, num som
melancólico, hipnótico, alheio à azáfama das pessoas embriagadas pelo espírito
de fim de ano. E tudo acontece numa contagem decrescente, numa paisagem cada
vez mais agreste, progressivamente mais vazia.
É tempo de balanço. Sempre a palavra tempo…
Da
suavidade melancólica de um adeus sentido, do delicado sorriso que traduz um
até breve ou da ingrata sensação de quebra permanente de uma ligação outrora
inquebrável.
De
muitas maneiras se define a ausência, mas cada ausência tem uma forma própria,
um sentimento singular, uma dor única e inconfundível, uma cor.
Ausência
é sinónimo de saudade, embora nalguns casos traga apenas uma esbatida
recordação.
Saudade
é dor, pesado fardo que a memória agudiza. Saudade é vazio, nomadismo forçado,
prisão. Saudade é o tempo contado pelos dedos de muitas mãos, um rosário
desfiado no desespero do tempo passado.
Se eu
tivesse de expressar a saudade, escolheria uma tela sobre a qual, a pastel,
traçaria em tons de preto e cinza, carregando bem nos traços, um abstracto.
Forçaria os pincéis, numa angústia revoltada, a dançarem um tango maldito, num
rodopio infinito, até que a alma esvaziasse ou os dedos me traíssem.
E em
abstracto traduziria a imagem que me ocorre do sorriso que me lançaste quando
nessa noite tardia, me disseste: “Até qualquer dia”.
Dezembro instalou-se.
Chegou suavemente, como
só o mês de dezembro o sabe fazer. Só os calendários o traem, só as folhas das
árvores o sentem e caem como partículas de chuva, submissas à inevitabilidade
do tempo final.
As aves migratórias já
partiram; eu e as aves migratórias, companheiros de destino, velhos amigos de
viagem, comprometidos pelo silêncio, como só os velhos amigos o sabem fazer.
Os velhos amigos, tal
como os amantes, não precisam falar para se expressar. Conversam em longos
silêncios, com entoações vivas de surdez e afecto. Escutam na ausência e nunca
se despedem. Os velhos amigos, tal como os verdadeiros amantes, nunca se despedem,
dizem até breve no seu código de olhares. E o compromisso é tal, o entendimento
é tanto e o gosto de se sentirem é tamanho, que nem na morte se despedem.
Os velhos, tal como os
amantes, são aves migratórias que desistiram do seu destino, mas não dos seus
silêncios comunicativos.
Dezembro instalou-se em
mim e é terrível na dualidade que me inspira; lindo e triste, o princípio do
fim, o prenúncio de algo a renascer. Os velhos querem acreditar que há sempre
algo por renascer. Os amantes estão em constante renascimento e a mim, ave migratória
que renegou, restam-me as memórias de viagem, os sons dos outros e o silêncio
frio das folhas mortas nas calçadas.
Falo dos desequilíbrios
persistentes
Do ter tudo e nada ter
E porque não apenas ter o
suficiente?
Falo dos encontros
marcados,
A ansiedade provocada:
será ou não realizado?
E ainda gostará?
E se não gostar que
farei?
Mas é claro que vai
gostar e ainda desejar
E riremos e tolices
faremos
E bem abraçados pela doce
noite seguiremos
Brincando às escondidas
com as nossas sombras
Da antecipação infantil
de algo bom que vem
Do sorriso feliz do
realizado
E do desencanto profundo
do encontro falhado
Da dor, da mágoa de não
ser desejado
E da sombra solitária que
se esconde da sua vergonha
Ao voltar sozinho para
casa.
Dessa dor no peito, da
vontade de a coçar
De a arranhar e de a
arrancar
(Exponha-se o peito que
não o sentimento)
Por desespero, por não
ser amado ou não saber amar
Falo bem alto dos sonhos
não realizados
Tão alto que apenas eu
oiço
Tão sentido que
enlouqueço
Falo do horizonte de fogo
Espalhando brasas pelo
espelho de água
E escuto a respiração
E guardo estes momentos
Que me fazem sentir vivo
Que não verdadeiramente
sentido
E grito bem alto: Porquê?
E só quero estar num
penhasco bem alto
Bem próximo do céu
E numa metamorfose
poética abrir as asas
E vestir a minha pele de
negro
E sem hesitar lançar-me
do penhasco
E desaparecer
Que a solidão é a única
companheira que está sempre presente
Ontem sorriste-me como nunca e, naquela noite escura e chuvosa, aproveitei
o vento e deixei-o levar-me até ti. Abracei-te no olhar e rodopiámos no ar como
crianças atrevidas, num movimento contínuo de vida; atrevidamente felizes por
entre as gotas de chuva, bebi-te os lábios nas palavras que os teus olhos me
lançavam.
Devido ao vento, ou à tua presença fremente, acordei a meio da noite, assim
de repente, imediatamente após te ter poisado no chão, num último rodopio
sonhado.
Sentado na cama, sozinho e tonto de tanta dança, senti nos lábios um sabor
há muito guardado, um calor da cor do desejo e com a forma de um beijo, beijado
com paixão.
Ontem o vento comprimia a vidraça da janela do quarto e a chuva tudo lavava
excepto a forma desejada do teu corpo encostado no meu.
Tenho um amigo de
estimação. Não é um amigo convencional, é uma daquelas pessoas que partilham
comigo o gosto pela tranquilidade de um pequeno espaço verde na cidade; um
desses lugares onde se avista a desembocadura do rio, rodeado de um sossego que
permite ouvir os pensamentos. Recorro a esse local sempre que me farto de
pessoas; eu farto-me com frequência de pessoas.
Esse tal amigo tem esses
dois pontos em comum comigo: farta-se de pessoas e gosta de locais tranquilos
onde se possa ouvir o som mudo do pensamento. Apesar da diferença de gerações,
acabámos por quebrar o bendito silêncio do local ao fim de inúmeros encontros e
apenas por causa de um vício socialmente malquisto que partilhamos: o tabaco.
Os fumadores são os proscritos do seculo XXI, são perseguidos, mal vistos e
nada recomendáveis. Por isso, restringem-lhes cada vez mais a liberdade de
fumar; coisas de Santa Inquisição transpostas para os dias de hoje.
O meu amigo é de um
cinismo contagiante e, como todo o solitário, adora falar da sua vida, das
experiências vividas, do que sente, do seu pequeno mundo.
Recentemente o tema foi o
amor e ele, como quase sempre, opinou fundamentando-se na sua vivência do tema.
Retive o essencial colocando entre aspas as suas palavras, para não prevaricar
nos direitos de autor.
Em determinado momento da
sua vida conheceu uma senhora por quem se apaixonou e a coisa foi séria:
“… dizia amar-me, como
quem aprendeu lendo um tratado sobre a matéria. Dizia-o como quem come tremoços
entre dois tragos de cerveja. De uma certeza absoluta emoldurada nuns olhos
credíveis. Inevitavelmente, a “confusão de espírito” acabou por revelar-se em
contradições convulsivas. Digo propositadamente inevitavelmente e não
fatalmente. Primeiro porque era realmente inevitável, tanto quanto conhecer a
verdade da mentira. Depois porque (e aí retive-lhe da face um sorriso
ironicamente maroto), na sequência tive a sorte de encontrar quem, não
utilizando a palavra amor, me tratou sempre como realmente se trata quem se
ama. Por algum tempo detestei a palavra amor, mais tarde acabei por lhe dar o
devido apreço”.
Solidário com as palavras
desse velho amigo de ocasião, tenho para mim que não se aprende a amar, não se
usa amar porque se quer ou porque soa bem ou mesmo, porque convém em
determinado momento.
Sente-se; apenas isso:
sente-se. Se me perguntarem qual a definição de amor direi, sem qualquer veia
poética: Amar é algo que se sente de uma forma muito especial e inconfundível
(triste definição, eu sei).
As pessoas usam a palavra
de forma fácil, por vezes convencidas de que amam, outras, de forma leviana,
enganadora, mas nem todos passaram alguma vez por esse agradável desconforto
que é sentir amor por outra pessoa.
Obviamente não me refiro
ao amor familiar, mas aquele sentimento tão peculiar nutrido por alguém por
quem não se tem qualquer laço de sangue. Não sei definir o amor porque não
gostei de lhe conjugar o verbo. Comigo, foi uma experiência tão agradável e, ao
mesmo tempo tão desconfortável, que julgo ter criado uma defesa psicológica que
me alerta sempre que há indícios do sintoma. Admito mesmo que é dos poucos
verbos onde mais erro a conjugação. Enrola-se-me a língua, paralisa-se-me o
maxilar.
Sei que o amor deslumbra,
é egoísta, cega, é ingrato, possessivo. Sei que é difícil de cultivar e manter.
Também sei que dá uma ressaca intemporal; deixa cicatrizes que se fazem sentir
sempre que têm oportunidade. É um caminho de sentido único, acelerado e,
normalmente, apontado a uma parede de betão.
E, no entanto, ninguém
está imune a ele.
Mas o verdadeiro, aquele
que de facto é sentido e não o que se cospe na cara de outro porque fica bem,
porque convém, porque, acima de tudo, é fácil de dizer, embora mais tarde venha
a ter consequências devastadoras.
Confesso que continuo a
sentir uma espécie de alergia à palavra.
Bendita paralisia facial.
Desata-se o nó da intolerância
Acentua-se a irritabilidade ferida
Não há paciência sadia
Apenas o desejo maior
De que morra a hipocrisia
Quero uma insanidade por medida
E que venha um terramoto
Que destrua as emoções
Que o desejo esmoreça
Que o amor adoeça
E a tentação adormeça
E que tudo apodreça
Quero berrar que não, não quero
Não me apetece, não se me cola
Exijo um silêncio obrigatório
E uma solidão permitida
Decretada, respeitada e sentida
Que haja multidões, mas mudas
E nem que a morte tudo arrase
Em torno do que de mim resta
Quero uma paz que me impeça
Esta loucura tardia
Era certamente a hora
ideal para um desentendimento, mas não aconteceu. Não ocorreu nenhum eclipse,
nem um furacão; na verdade nenhuma catástrofe natural aconteceu.
Eles cruzaram-se,
olharam-se, decerto que se cheiraram porque, independentemente de tudo, o
instinto primitivo ainda prevalece sobre a razão e o cheiro é um dos maiores
estímulos da atracção, mas não se falaram.
Os olhares, magoados de
ambos acertaram no outro como se fossem punhos cerrados viajando pelo ar em
fúria, mas nada disseram.
E passaram um pelo outro,
como se nada existisse, como se nada fosse, como se agora tivesse sido antes.
E assim também se
descreve o desejo!
Suave chega a dor,
esteve ausente
vem tardia
Num crescendo vem a dor,
e com ela morre o dia
Cresce dor crescente,
vem suave, vem tardia
Cresce dor, enlouquece,
nasce a noite fugidia
Depressa se instala a
dor,
amarga dor
que a noite se faz tardia
Arde a dor intensamente,
docemente incontida
Brota dos olhos
quebrados,
tão forte, tão sentida
E logo se mata a noite
num crescendo rumo ao
dia,
na tortura branda e doce
dessa louca dor tardia
Sobrevive a essa dor,
aguenta só mais um dia
Até que ela retorne e te
tome
tão suave quanto tardia
O quanto eu lamento
Não, não foi pelas vezes
passeadas de mãos entrelaçadas,
Nem pelas idiotices que,
do riso, acabavam num longo beijo
Não foi pelos dias de sol
gastos a apreciar, deleitados, os mútuos olhos
Também não foi pelas
vezes que se usou a palavra: amo-te
Decerto não foi pelas
carícias, que não faltaram, nem pelos abraços prolongados
O que eu lamento foram os
silêncios não partilhados
As dores da incerteza,
O egoísmo da posse
Quando já tudo se havia
perdido.
E o lamento torna-se
abominação
Quando a palavra se
revela, repetidamente, oca
Desprovida de sentido e
usada em desespero.
Desespero,
É reter a mágoa que se
avoluma, que queima, que teima em não morrer.
E assim lamento,
lamento o desespero de
quem usa a dita palavra, num contexto egoísta,
Num remate inconsciente
de não perder a posse do que já havia perdido.
E retenho a mágoa.
(texto escrito durante o período do confinamento pandémico)
______________________________________
Agora sei que as gotas de chuva têm um compasso acertado e concertado sobrepondo-se a todos os outros sons.
Não recordava quantas vezes a ouvira. Provavelmente, tantas quantas a melancolia lhe enchera os olhos de um vazio baço, virado para as memórias.
Desata-se o nó da intolerância
Acentua-se a irritabilidade ferida
Não há paciência sadia
Apenas o desejo maior
De que morra a hipocrisia
Quero uma insanidade por medida
E que venha um terramoto
Que destrua as emoções
Que o desejo esmoreça
Que o amor adoeça
E a tentação adormeça
E que tudo apodreça
Quero berrar que não, não quero
Não me apetece, não me cola
Exijo um silêncio obrigatório
E uma solidão permitida
Decretada, respeitada e sentida
Que hajam multidões, mas mudas
E nem que a morte tudo arrase
Em torno do que de mim resta
Quero uma paz que me impeça
Esta loucura tardia
Ontem sorriste-me como
nunca e, naquela noite escura e chuvosa, aproveitei o vento e deixei-o levar-me
até ti. Abracei-te no olhar e rodopiámos no ar como crianças atrevidas, num
movimento contínuo de vida; atrevidamente felizes por entre as gotas de chuva,
bebi-te os lábios nas palavras que os teu olhos me lançavam.
Devido ao vento, ou à tua
presença fremente, acordei a meio da noite, assim de repente, imediatamente
após te ter poisado no chão, num último rodopio sonhado.
Sentado na cama, sozinho
e tonto de tanta dança, senti nos lábios um sabor há muito guardado, um calor
da cor do desejo e com a forma de um beijo, beijado com paixão.
Ontem o vento comprimia a
vidraça da janela do quarto e a chuva tudo lavava excepto a forma desejada do
teu corpo encostado no meu.
É tempo de fazer o balanço
Aos sentimentos
Colhidos por tantos anos
Fragmentos coloridos de
emoções
Formando paisagens doces
Gritos desesperados de
dor
Rios de mágoas que nunca
desaguam
É o final do Outono
Nas pontas das chamas
Que iluminam as noites
mais escuras
Onde cavalgam as
recordações
São as faces, tantas faces
Que em mim habitam
É o canto melancólico do
quase final
Ou a vida em pequenos retalhos
É quase final de Outono
Tempo de balanço
Ao som da introspecção
Organizando as sombras
Dos meus genuínos pecados
E é tempo de sentir o
tempo
Fluir no seu movimento
E preparar a jornada,
Que quase não tarda,
De finalmente o seguir,
De me deixar ir
Na tua sombra cabem as
minhas desilusões
Botões de uma rosa
murcha, quase amorfa
Desatinos em fragmentos de emoções
No teu cabelo, maré viva, sonho naufrágios
Porto que não alberga
meus anseios
És miragem, eu deserto
Espero-te
Quando todos tiverem desistido de esperar
Quando o som da rua se calar
E os amantes se despedirem
Espero-te
Quando os sinos da igreja se atrasarem
E os cães vadios se acalmarem
Quando os barcos atracarem
Os botões da rosa se fecharem
E o violino parar de chorar
Espero-te
Mesmo que a madeira se transforme em bengala
E o Inverno se instale de vez
E já não tenha voz para te dizer
Tudo quanto guardei nesta espera
Espero-te
Porque sempre te esperei
Mesmo quando o não sabia
Espero-te
Quando todos tiverem desistido de esperar
Quando o som da rua se calar
E os amantes se despedirem
Espero-te
Quando os sinos da igreja se atrasarem
E os cães vadios se acalmarem
Quando os barcos atracarem
Os botões da rosa se fecharem
E o violino parar de chorar
Espero-te
Mesmo que a madeira se transforme em bengala
E o Inverno se instale de vez
E já não tenha voz para te dizer
Tudo quanto guardei nesta espera
Espero-te
Porque sempre te esperei
Mesmo quando o não sabia
É sempre à tarde,
fim de tarde
Que me sento e
observo
O jogo das
sombras nas paredes da sala
E fico assim,
sossegado
Vendo os raios de
luz apagar
E a mancha das
sombras aumentar
É sempre à tarde,
sempre tarde
Que me escondo do
dia
Ao fim do dia
Suspenso me
sinto
Sentado sossegado
Na penumbra dos
dias
Na sombra do meu
tempo
Esperando que
chegue, devagar
O tempo do meu esquecimento
Se um dia pudesse
ser feliz
Contente só por
ser assim
Sem mágoa, sem
dor
Apenas ser feliz
Se eu pudesse ser
feliz
Teria o sorriso
mais rasgado
O riso mais
sonoro
O tino menos
acertado
Mas seria enfim
feliz
Não sei sentir
felicidade
Sei da dor, sei da
angústia
Sei da triste
ansiedade
Que ansiosamente
me prende
Ao mais mesquinho
que há em mim
E se um dia fosse
assim
Despreocupado e
feliz?
Só feliz...
Diz-me, por onde andam
teus passos
Dá-me uma pista sobre
ti
Sinto o teu
perfume
Sinto a tua pele
Embora há muito
não te veja
Fala-me desta tua
vida
Agora que a ela
não pertenço
Conta-me, mesmo
que não te oiça
Ouvir não conta
quando a voz está bem presente
E dá-me um sorriso,
desses que são
tão teus
Da boca até aos
olhos
Brilhando
intensamente,
Reflectindo nos
olhos meus
Não sei da tua
sombra,
Que da minha se
escondia por instantes
Para depois se entrelaçarem,
Bem unidas, de
mãos dadas
Por esses
passeios da vida
Diz-me, que nada
sei de ti,
Tens sabido de
mim?
Procuraste-me nas
calçadas
Olhaste bem
através das vielas?
Preciso saber se
me procuras
Porque desde que
te perdi,
Nada mais soube
de mim.
A porta, em
madeira velha e muito gasta, dava acesso a um pátio exterior largo, feito de
pedra granítica que outros, muito tempo antes, cortaram e endireitaram à mão.
As paredes da casa, vestidas de plantas trepadeiras, creio que eram
buganvílias, davam cor e aroma ao conjunto. As tardes de junho eram perfumadas
nesse pátio virado a oeste. Ao fundo, quase na curvatura do terreno, a vinha e
o olival.
À volta, os contrafortes
da Serra da Estrela recortados por profundos vales por onde circulavam riachos
de água gelada e límpida. Recordo os salgueiros, fortemente enraizados nas
margens, totalmente desgrenhados, folhas e ramos beijando a superfície das
águas. Eram locais de sombra, de erva viçosa, de convite a longas sonecas com
os pés dentro da água.
Aqui e ali um
castanheiro, uma nogueira-imponentes no porte- e uma tília. As tílias eram as
minhas preferidas; perfumavam o ar quente por todo o lado; um perfume
envolvente e calmante. Os blocos de rocha, blocos arredondados de diversos
tamanhos, saídos do solo, pintalgados de líquenes, conviviam com as grandes
árvores. Não sei quem suportava quem, mas eram conjuntos harmoniosos.
Assim eram as
pinceladas serranas da minha juventude em dias em que a primavera há muito
tinha escancarado as suas portas ao verão.
Para mim tudo era
calmo e equilibrado; para mim ainda a primavera da vida estava a começar e não
se imaginava que aquele claro e limpo horizonte tantas vezes mais tarde viesse
a mostrar-se negro escuro, tempestuoso.
Há muito que não
visito esse muito meu espaço da infância e início da juventude, mas sinto-lhe a
falta; por vezes sinto uma saudade imensa desses tempos. Desconfio que não
voltarei a visitá-los; fazê-lo poderia ser uma desilusão e assim preservo estas
memórias que me são caras.
Não, não deverei
voltar aquele local, mas sinto-o, sei-o. Tenho-o entranhado nos ossos, é parte
do meu código genético; é a Serra que há em mim.
Disseram-te ser
terminal
Como a última
estação de serviço
Sem qualquer
serviço mais além
Sem sequer um
além onde ir
Disseram-te que não
haveria mais sonho
Nem muito espaço
para respirar
Que nem um fôlego
profundo iria ajudar
Nem o topo de uma
montanha onde ficar
Não sabes o que
sentiste
Foi uma surpresa
brutal
Um imenso
vazio pleno de dor
Um imenso espaço
esvaziado de esperança
Tens uma vida, sabes
que é finita
Mas pensas:
falta
sempre muito para o fim
(Mas nem sempre é o tempo a ditar)
Até que não falta
mais
E chegas ao
terminal
Desfaz-te das
malas,
E em silêncio
Despede-te do que
amas
Arruma os
pensamentos
Arquiva as
memórias
Liberta-te do passado
porque
Ainda tens uma ultima viagem
É interminável,
É indefinida,
É solitária
E não tem retorno
Uma lua imensa
Enchia de luz o
canto mais sinistro da rua
De sons, apenas o
de um noitibó
Parecia chamar-me
Eu, pendurado no
borrão de um cigarro
Fumo dançando ao
vento
Ideias voando por
aí
Um luar intenso
Apelando mais um
pranto ao noitibó
E este correspondendo
Como se me
chamasse
Como se me
escutasse
No meu silêncio
fumado
A preguiça
enchendo-me de brilho
E o cigarro queimou-se
Um acaso
Uma mudança de percurso
Algo que chama a atenção
Um simples nada que prende
Um momento
Uma partilha
Uma partilha que gera um sorriso
Uma atenção no momento em que atenção é
precisa
Uma mão estendida
A confiança alargada
Um beijo
Depois outro
Uma sequência de olhares
Uma sequência real
Uma real situação
Um devaneio levado ao sério
Um sério caso
Um ocaso por acaso
E um renascer a dois
O espelho
devolve-me o tempo
Ampulheta acelerada,
retrata o que é
Quando eu queria
o que foi
O espelho
desfeia-me a ideia
Desmente-me a
ilusão
Enruga-me a memória
Diz-me, em
silêncio, no que me tornei
Espelho, espelho
meu
Há algo mais
ingrato que a realidade?
Ou serei eu,
Que saudoso do
tempo que já foi
Recuso esse reflexo presente
Pálida imagem de
mim
Frio esboço que
sobrou
Essa imagem que vejo espelhada
É tudo quanto resta
Do que há muito se esfumou
A gralha, pousada
no muro de pedra rachada
Observa curiosa e
atenta
O manto escuro,
ao fim da tarde
Deitado de lado
sobre as costas encurvadas
Agitando-se ao
vento
Andando depressa
Coberto de negro,
quase de noite
Sob o olhar
atento da gralha
Acima das pedras
do muro rachado
Que o musgo do
tempo mantém de pé
E escuro vai
encurvado, sem se saber para onde,
Na negra noite
primaveril
O vento sopra de
rajada
E da gralha nem
rasto.
E da vida nem som
Curvado sobre o
abismo,
Manto ao vento,
bandeira negra
Réstia de nada
Lá bem longe
Onde já nada existe
Excepto a gralha