segunda-feira, 19 de janeiro de 2026

Sensações

 

Rios colidem no vidro da janela

Bem juntinho a meus olhos

É uma da manhã,

D’uma outra noite

O frio, tenso, vem de dentro

É intenso, é doentio

A chuva, lá fora, brinca comigo

Uma luz ténue ilumina o quarto

Em mim há escuridão

Tremem sombras na parede

Treme o fumo do borrão

Treme o fio que me prende ao chão

Uma porta bateu de dentro

Será silêncio ou solidão?




sábado, 17 de janeiro de 2026

Da doce gravidade das quedas

 

Chegou atrasado e desusado

Mas foi tão inevitável como cair

Cruzados olhares, trocadas palavras desastradas

Bateu um ardor nas faces e um brilho baço nos olhos

O pensamento perdeu-se num mar de imagem parada

E descambou em suspiros de olhares trémulos no relógio

Não percebeu que deu o primeiro passo de um caminho sinuoso

Para um destino incerto, doloroso, doce, amargo mas sempre cativante

O desejo trai-lhe a vontade, angustia pela ausência, entorpece pela presença

Desatinado reincidente que te deixaste, de repente, arrastar para um mar revolto

Irás morrer mil vezes e renascer, irás ser de novo criança e crescer na dor da esperança

De um querer sem razão de ser, de um possuir múltiplo de prazer, de uma fome que não sacia

De uma dor que é incerteza, de um afago repetido e nunca revivido, porque isso é amor

E o amor é sempre parido em dor e em dor arrependido






sexta-feira, 16 de janeiro de 2026

A minha cidade

 

A rua era estreita e íngreme. As casas, estreitas e altas, escorriam humidade pelas cicatrizes centenárias.

O chão, de calhau rolado, era um ringue de patinagem no inverno. O sol dificilmente descia às pedras e o cheiro a mofo era como um perfume de marca.

A minha cidade tinha uma parte muito antiga, corroidamente velha, deliciosamente genuína, onde as casas eram testemunhas das estórias vividas naquelas ruas estreitas e essas mesmas testemunhavam muitas cenas caseiras. Eram como as velhas intriguistas, as casas e as ruas empedradas.

No verão, no quente verão da minha cidade, era um descanso passar por essas ruas frescas, amenas, calmantes.

A minha cidade, a minha velha cidade é um misto de encanto e sedução. E é só minha.

Há muito que deixei de a habitar; visito-a, de fugida porque me dói a transformação que se tem operado. Não porque esteja pior, mas porque as minhas imagens dela são outras, são mais bonitas, são vistas pelos olhos de uma criança e pelos de um adolescente e, finalmente de um jovem adulto.

E essas sim, são as imagens da minha verdadeira cidade, aquelas que preservo e amo.

Por isso as suas ruas continuam ingremes e estreitas e as casas suam a sua velha podridão, libertando um perfume bafiento único. E assim igualei a minha cidade, envelhecendo cada um ao ritmo do seu tempo.

É bela a minha cidade, conquistando a serra, afagando o rio que a banha.

E é só minha porque é nos meus olhos que ela vive e sempre lá estará.



quarta-feira, 14 de janeiro de 2026

Até quando

 

Tardia se faz a hora do desespero

Quando em teu regaço repouso

Nele o tempo para e eu descanso

Sabendo que quando minha cabeça erguer

Será mais um adeus até quando

E um mar de saudade soluçada

E um não saber em que horizonte

Voltarei a sentir, em mim, o teu regaço

O afago suave dessa mão nos meus cabelos,

O doce embalo da voz

Que me trava o desassossego

e me congela o tempo

No vidro riscado do relógio.




 

sexta-feira, 9 de janeiro de 2026

Os caminhos da lua

Parti sentindo a perda

Quebrei o contacto

Desfiz a ligação

Senti a falta

 

Plenamente vazio

Perfeitamente desfeito

Parti. Quebrado, vazio

 

O tempo passou

O Inverno suavizou

A lua encheu de novo

E hoje olho as cicatrizes

 

Sem dor

 

Sei que pode repetir-se

Embora não queira

Mas sei que não domino

Os caminhos da lua

 

Que seja cheia

Se assim tiver de acontecer


sábado, 3 de janeiro de 2026

Desejo

 Fosse o teu corpo uma praia

E o meu desejo uma fracção do mar

Anos haveria de marés vivas

Entre nós

 

Entre nós há algo mais

Que um simples gostar

Um desafio de palavras,

Um certo olhar desconcertante

Um provocar, um hesitar

Um tudo e um nada

Uma corrida parada

E um louco e inesperado gargalhar

Entre nós há um jogo

Uma linha ténue afiada

Um saltitar por entre o vazio

Um silencio ruidoso

E um quero-te soletrado

Não assumido, velado

Envergonhado, como se temesse

Tropeçar no próprio desejo

Entre nós não passa o ar

E somos só nós

Com um desejo receoso de ficar




quarta-feira, 31 de dezembro de 2025

Dos votos de Ano Novo ou da sofreguidão do tempo

 À tua volta uma azáfama de balanços do ano moribundo, agradecimentos e mensagens esperançosas de Ano Novo. O passado que ainda não se consumou e a esperança do que há-de vir.

À tua volta as compras de última hora para colocar na mesa, os convites, as combinações de encontro logo à noite, o olhar para o relógio como se este avançasse sob pressão.

Estás sentado, ouvindo um piano que debita acordes melancólicos na companhia de uma voz estranha, envolvente, cativante. E pensas no que foi, no que gostarias que tivesse sido, no que perdeste ou não aproveitaste. Despedes-te, silenciosamente dos que deixaram de te bater à porta e dos que viram a tua porta ser-lhes fechada irremediavelmente. Questionas-te pela última vez (será?) se terás agido bem com estes últimos, como se isso pesasse na tua decisão.

O piano acompanha-te nas divagações, em jeito de balanço anual. Passou mais um ano, numa fase em que os anos têm o peso de décadas e lá estás tu a pensar no tempo. Há algum tempo que notas essa fixação pelo tempo, como se ele te pesasse cada vez mais, como se medisses os teus passos pelo ponteiro do relógio.

Tu, que ao longo dos anos coleccionaste coisas, mas mais diversas coisas, desde objectos a amigos, tornando-te escravo de tudo quanto foste guardando e que tanto te pesa, tornaste-te também escravo dos minutos que originam horas e das horas que traduzem dias e dos dias que dobram anos.

À tua volta todos andam presos pela ilusão cativante de mais uma festa pendurada na contagem regressiva dos ponteiros do relógio, de um copo de espumante, de champanhe ou de cava, a ilusão cativante dos ponteiros que avançam contando regressivamente.

Regressivo é o tempo que te resta, o tempo que te angustia e te faz perder no limbo das memórias, dos balanços tardios, do tique-taque mecânico de coisas que contam sem parar.

E o piano, também sem parar, faz as teclas dedilharem sons, numa imagem regressiva, num som melancólico, hipnótico, alheio à azáfama das pessoas embriagadas pelo espírito de fim de ano. E tudo acontece numa contagem decrescente, numa paisagem cada vez mais agreste, progressivamente mais vazia.

É tempo de balanço. Sempre a palavra tempo…





quinta-feira, 18 de dezembro de 2025

Como uma brisa fria na pele

 

Da suavidade melancólica de um adeus sentido, do delicado sorriso que traduz um até breve ou da ingrata sensação de quebra permanente de uma ligação outrora inquebrável.

De muitas maneiras se define a ausência, mas cada ausência tem uma forma própria, um sentimento singular, uma dor única e inconfundível, uma cor.

Ausência é sinónimo de saudade, embora nalguns casos traga apenas uma esbatida recordação.

Saudade é dor, pesado fardo que a memória agudiza. Saudade é vazio, nomadismo forçado, prisão. Saudade é o tempo contado pelos dedos de muitas mãos, um rosário desfiado no desespero do tempo passado.

Se eu tivesse de expressar a saudade, escolheria uma tela sobre a qual, a pastel, traçaria em tons de preto e cinza, carregando bem nos traços, um abstracto. Forçaria os pincéis, numa angústia revoltada, a dançarem um tango maldito, num rodopio infinito, até que a alma esvaziasse ou os dedos me traíssem.

E em abstracto traduziria a imagem que me ocorre do sorriso que me lançaste quando nessa noite tardia, me disseste: “Até qualquer dia”.




quarta-feira, 10 de dezembro de 2025

Dezembro recomeça

 

Dezembro instalou-se.

Chegou suavemente, como só o mês de dezembro o sabe fazer. Só os calendários o traem, só as folhas das árvores o sentem e caem como partículas de chuva, submissas à inevitabilidade do tempo final.

As aves migratórias já partiram; eu e as aves migratórias, companheiros de destino, velhos amigos de viagem, comprometidos pelo silêncio, como só os velhos amigos o sabem fazer.

Os velhos amigos, tal como os amantes, não precisam falar para se expressar. Conversam em longos silêncios, com entoações vivas de surdez e afecto. Escutam na ausência e nunca se despedem. Os velhos amigos, tal como os verdadeiros amantes, nunca se despedem, dizem até breve no seu código de olhares. E o compromisso é tal, o entendimento é tanto e o gosto de se sentirem é tamanho, que nem na morte se despedem.

Os velhos, tal como os amantes, são aves migratórias que desistiram do seu destino, mas não dos seus silêncios comunicativos.

Dezembro instalou-se em mim e é terrível na dualidade que me inspira; lindo e triste, o princípio do fim, o prenúncio de algo a renascer. Os velhos querem acreditar que há sempre algo por renascer. Os amantes estão em constante renascimento e a mim, ave migratória que renegou, restam-me as memórias de viagem, os sons dos outros e o silêncio frio das folhas mortas nas calçadas.

 


sexta-feira, 14 de novembro de 2025

Dos uivos de um predador

 

Falo dos desequilíbrios persistentes

Do ter tudo e nada ter

E porque não apenas ter o suficiente?

Falo dos encontros marcados,

A ansiedade provocada: será ou não realizado?

E ainda gostará?

E se não gostar que farei?

Mas é claro que vai gostar e ainda desejar

E riremos e tolices faremos

E bem abraçados pela doce noite seguiremos

Brincando às escondidas com as nossas sombras

Da antecipação infantil de algo bom que vem

Do sorriso feliz do realizado

E do desencanto profundo do encontro falhado

Da dor, da mágoa de não ser desejado

E da sombra solitária que se esconde da sua vergonha

Ao voltar sozinho para casa.

Dessa dor no peito, da vontade de a coçar

De a arranhar e de a arrancar

(Exponha-se o peito que não o sentimento)

Por desespero, por não ser amado ou não saber amar

Falo bem alto dos sonhos não realizados

Tão alto que apenas eu oiço

Tão sentido que enlouqueço

Falo do horizonte de fogo

Espalhando brasas pelo espelho de água

E escuto a respiração

E guardo estes momentos

Que me fazem sentir vivo

Que não verdadeiramente sentido

E grito bem alto: Porquê?

E só quero estar num penhasco bem alto

Bem próximo do céu

E numa metamorfose poética abrir as asas

E vestir a minha pele de negro

E sem hesitar lançar-me do penhasco

E desaparecer

Que a solidão é a única companheira que está sempre presente




terça-feira, 11 de novembro de 2025

Do desejo sonhado

 

Ontem sorriste-me como nunca e, naquela noite escura e chuvosa, aproveitei o vento e deixei-o levar-me até ti. Abracei-te no olhar e rodopiámos no ar como crianças atrevidas, num movimento contínuo de vida; atrevidamente felizes por entre as gotas de chuva, bebi-te os lábios nas palavras que os teus olhos me lançavam.

Devido ao vento, ou à tua presença fremente, acordei a meio da noite, assim de repente, imediatamente após te ter poisado no chão, num último rodopio sonhado.

Sentado na cama, sozinho e tonto de tanta dança, senti nos lábios um sabor há muito guardado, um calor da cor do desejo e com a forma de um beijo, beijado com paixão.

Ontem o vento comprimia a vidraça da janela do quarto e a chuva tudo lavava excepto a forma desejada do teu corpo encostado no meu.





domingo, 19 de outubro de 2025

L' amour

 

Tenho um amigo de estimação. Não é um amigo convencional, é uma daquelas pessoas que partilham comigo o gosto pela tranquilidade de um pequeno espaço verde na cidade; um desses lugares onde se avista a desembocadura do rio, rodeado de um sossego que permite ouvir os pensamentos. Recorro a esse local sempre que me farto de pessoas; eu farto-me com frequência de pessoas.

Esse tal amigo tem esses dois pontos em comum comigo: farta-se de pessoas e gosta de locais tranquilos onde se possa ouvir o som mudo do pensamento. Apesar da diferença de gerações, acabámos por quebrar o bendito silêncio do local ao fim de inúmeros encontros e apenas por causa de um vício socialmente malquisto que partilhamos: o tabaco. Os fumadores são os proscritos do seculo XXI, são perseguidos, mal vistos e nada recomendáveis. Por isso, restringem-lhes cada vez mais a liberdade de fumar; coisas de Santa Inquisição transpostas para os dias de hoje.

O meu amigo é de um cinismo contagiante e, como todo o solitário, adora falar da sua vida, das experiências vividas, do que sente, do seu pequeno mundo.

Recentemente o tema foi o amor e ele, como quase sempre, opinou fundamentando-se na sua vivência do tema. Retive o essencial colocando entre aspas as suas palavras, para não prevaricar nos direitos de autor.

Em determinado momento da sua vida conheceu uma senhora por quem se apaixonou e a coisa foi séria:

“… dizia amar-me, como quem aprendeu lendo um tratado sobre a matéria. Dizia-o como quem come tremoços entre dois tragos de cerveja. De uma certeza absoluta emoldurada nuns olhos credíveis. Inevitavelmente, a “confusão de espírito” acabou por revelar-se em contradições convulsivas. Digo propositadamente inevitavelmente e não fatalmente. Primeiro porque era realmente inevitável, tanto quanto conhecer a verdade da mentira. Depois porque (e aí retive-lhe da face um sorriso ironicamente maroto), na sequência tive a sorte de encontrar quem, não utilizando a palavra amor, me tratou sempre como realmente se trata quem se ama. Por algum tempo detestei a palavra amor, mais tarde acabei por lhe dar o devido apreço”.

Solidário com as palavras desse velho amigo de ocasião, tenho para mim que não se aprende a amar, não se usa amar porque se quer ou porque soa bem ou mesmo, porque convém em determinado momento.

Sente-se; apenas isso: sente-se. Se me perguntarem qual a definição de amor direi, sem qualquer veia poética: Amar é algo que se sente de uma forma muito especial e inconfundível (triste definição, eu sei).

As pessoas usam a palavra de forma fácil, por vezes convencidas de que amam, outras, de forma leviana, enganadora, mas nem todos passaram alguma vez por esse agradável desconforto que é sentir amor por outra pessoa.

Obviamente não me refiro ao amor familiar, mas aquele sentimento tão peculiar nutrido por alguém por quem não se tem qualquer laço de sangue. Não sei definir o amor porque não gostei de lhe conjugar o verbo. Comigo, foi uma experiência tão agradável e, ao mesmo tempo tão desconfortável, que julgo ter criado uma defesa psicológica que me alerta sempre que há indícios do sintoma. Admito mesmo que é dos poucos verbos onde mais erro a conjugação. Enrola-se-me a língua, paralisa-se-me o maxilar.

Sei que o amor deslumbra, é egoísta, cega, é ingrato, possessivo. Sei que é difícil de cultivar e manter. Também sei que dá uma ressaca intemporal; deixa cicatrizes que se fazem sentir sempre que têm oportunidade. É um caminho de sentido único, acelerado e, normalmente, apontado a uma parede de betão.

E, no entanto, ninguém está imune a ele.

Mas o verdadeiro, aquele que de facto é sentido e não o que se cospe na cara de outro porque fica bem, porque convém, porque, acima de tudo, é fácil de dizer, embora mais tarde venha a ter consequências devastadoras.

Confesso que continuo a sentir uma espécie de alergia à palavra.

Bendita paralisia facial.






 

sábado, 18 de outubro de 2025

O Grito

 

Desata-se o nó da intolerância

Acentua-se a irritabilidade ferida

Não há paciência sadia

Apenas o desejo maior

De que morra a hipocrisia

Quero uma insanidade por medida

E que venha um terramoto

Que destrua as emoções

Que o desejo esmoreça

Que o amor adoeça

E a tentação adormeça

E que tudo apodreça

Quero berrar que não, não quero

Não me apetece, não se me cola

Exijo um silêncio obrigatório

E uma solidão permitida

Decretada, respeitada e sentida

Que haja multidões, mas mudas

E nem que a morte tudo arrase

Em torno do que de mim resta

Quero uma paz que me impeça

Esta loucura tardia




terça-feira, 7 de outubro de 2025

Déjà vu



Era certamente a hora ideal para um desentendimento, mas não aconteceu. Não ocorreu nenhum eclipse, nem um furacão; na verdade nenhuma catástrofe natural aconteceu.

Eles cruzaram-se, olharam-se, decerto que se cheiraram porque, independentemente de tudo, o instinto primitivo ainda prevalece sobre a razão e o cheiro é um dos maiores estímulos da atracção, mas não se falaram.

Os olhares, magoados de ambos acertaram no outro como se fossem punhos cerrados viajando pelo ar em fúria, mas nada disseram.

E passaram um pelo outro, como se nada existisse, como se nada fosse, como se agora tivesse sido antes.

E assim também se descreve o desejo!




segunda-feira, 25 de agosto de 2025

Negras asas feridas

 



Suave chega a dor,

esteve ausente

vem tardia

Num crescendo vem a dor,

e com ela morre o dia

Cresce dor crescente,

vem suave, vem tardia

Cresce dor, enlouquece,

nasce a noite fugidia

Depressa se instala a dor,

amarga dor

que a noite se faz tardia

Arde a dor intensamente,

docemente incontida

Brota dos olhos quebrados,

tão forte, tão sentida

E logo se mata a noite

num crescendo rumo ao dia,

na tortura branda e doce

dessa louca dor tardia

Sobrevive a essa dor,

aguenta só mais um dia

Até que ela retorne e te tome

tão suave quanto tardia



quarta-feira, 11 de junho de 2025

Do lamento

 

O quanto eu lamento

Não, não foi pelas vezes passeadas de mãos entrelaçadas,

Nem pelas idiotices que, do riso, acabavam num longo beijo

Não foi pelos dias de sol gastos a apreciar, deleitados, os mútuos olhos

Também não foi pelas vezes que se usou a palavra: amo-te

Decerto não foi pelas carícias, que não faltaram, nem pelos abraços prolongados

O que eu lamento foram os silêncios não partilhados

As dores da incerteza,

O egoísmo da posse

Quando já tudo se havia perdido.

E o lamento torna-se abominação

Quando a palavra se revela, repetidamente, oca

Desprovida de sentido e usada em desespero.

Desespero,

É reter a mágoa que se avoluma, que queima, que teima em não morrer.

E assim lamento,

lamento o desespero de quem usa a dita palavra, num contexto egoísta,

Num remate inconsciente de não perder a posse do que já havia perdido.

E retenho a mágoa.



quarta-feira, 12 de fevereiro de 2025

O ténue fio da vida

(texto escrito durante o período do confinamento pandémico)

______________________________________

Agora sei que as gotas de chuva têm um compasso acertado e concertado sobrepondo-se a todos os outros sons.

Nestes tempos certamente incertos, os sons que eram habitualmente menos ouvidos tornaram-se certamente mais escutados.
Ao fim do dia sento-me no sofá, em frente à janela vendo a chuva cair no seu compasso vaidoso, ruidoso mas calmante, contrariando estes tempos tão desconcertantes, fazendo um compasso nas incertezas que habitualmente me inundam o pensamento. Penso nos que me preocupam e nos que não resistiram e apenas suspiro.
É tão fino e frágil o fio que nos prende à vida!





segunda-feira, 9 de dezembro de 2024

Musicalidades

 




Há músicas assim, músicas em fios de água cristalina, água de nascente. Músicas de fino traço, que encerram uma panóplia de emoções.
A que escolhi não acompanha o texto, gerou o texto. É de uma suavidade assustadora, de uma melodia tremenda, arrepiante, um pouco sofrida.
Ao ouvi-la pela primeira vez, senti-me transportado para um jardim de Outono, desses carregados de árvores com folhas de tons quentes. E recordou-me que a vida é finita e que, por muito aliciante que a morte possa ser e é, há que aproveitar esta passagem.
Invejo o génio e a mestria de quem cria algo assim tão belo e sinto a leveza das folhas amarelas, castanhas e multicolores, desprendendo-se dos ramos, e dançando com o vento suave que as transporta pelo ar até ao chão, esse destino terminal de tudo quanto vive.
É outono, no seu final, um outono no fio das cordas dos violinos, na voz rouca das teclas do piano, no embalo melancólico de quem escuta.
Melhor? Só o sussurro de quem nos diz ao ouvido: “desejo-te”

Fumando memórias

 Não recordava quantas vezes a ouvira. Provavelmente, tantas quantas a melancolia lhe enchera os olhos de um vazio baço, virado para as memórias.

As suas memórias eram como uma mala de viagem estampada de autocolantes com os nomes das cidades, tão em voga nos anos 60 e 70. Memórias excessivas, memórias de excessos. Acendeu mais um cigarro, no borrão do anterior; era escusado gastar pedra de isqueiro, já bastava consumir os pulmões.
Gostaria que as memórias fossem como a cinza do cigarro: frágeis e leves. No entanto sabia –as densas, persistentes, incómodas.
Uma vez mais recordou-lhe a face e amaldiçoou a memória. O fumo escapava-se por entre os dedos, o fumo tinha a forma dela. Sempre que queimava a envenenada esperança de a voltar a encontrar, o fumo brincava maldosamente com ele formando a silhueta dela antes de desaparecer no ar.
Entrou a voz exactamente quando era suposto entrar, logo após aquele solo de viola que tanto o arrepiava. E a voz suplicava e as memórias ardiam-lhe os olhos e o fumo empurrava-as para os seus olhos doridos, batidos, cansados da imagem repetida, cada vez mais viva, em carne viva. E o tom suplicante erguia-se acima da bateria e a água escorria dessas janelas vazias, lenta, num movimento não linear.
O clímax musical, o soluço final e a imagem que não conseguia banir e a cabeça a latejar e o cigarro a acabar e a noite mais cerrada e infindável.
A voz calou-se no mesmo tom sussurrante em que começara.
Porque é que as memórias espinhosas não são como as músicas, interrogou-se ele? Porque é que não se podiam simplesmente calar?
Instalou-se o vazio no vazio da esperança. Achou por bem não passar de novo aquela música, acendeu novo cigarro e desejou ser vencido rapidamente pelo cansaço.
Em vão…
E, à medida que a noite avançava, a sombra dela alastrava sobre si.



quinta-feira, 5 de dezembro de 2024

Manifesto

 

Desata-se o nó da intolerância

Acentua-se a irritabilidade ferida

Não há paciência sadia

Apenas o desejo maior

De que morra a hipocrisia

Quero uma insanidade por medida

E que venha um terramoto

Que destrua as emoções

Que o desejo esmoreça

Que o amor adoeça

E a tentação adormeça

E que tudo apodreça

Quero berrar que não, não quero

Não me apetece, não me cola

Exijo um silêncio obrigatório

E uma solidão permitida

Decretada, respeitada e sentida

Que hajam multidões, mas mudas

E nem que a morte tudo arrase

Em torno do que de mim resta

Quero uma paz que me impeça

Esta loucura tardia



segunda-feira, 11 de novembro de 2024

Doce desejo

 

Ontem sorriste-me como nunca e, naquela noite escura e chuvosa, aproveitei o vento e deixei-o levar-me até ti. Abracei-te no olhar e rodopiámos no ar como crianças atrevidas, num movimento contínuo de vida; atrevidamente felizes por entre as gotas de chuva, bebi-te os lábios nas palavras que os teu olhos me lançavam.

Devido ao vento, ou à tua presença fremente, acordei a meio da noite, assim de repente, imediatamente após te ter poisado no chão, num último rodopio sonhado.

Sentado na cama, sozinho e tonto de tanta dança, senti nos lábios um sabor há muito guardado, um calor da cor do desejo e com a forma de um beijo, beijado com paixão.

Ontem o vento comprimia a vidraça da janela do quarto e a chuva tudo lavava excepto a forma desejada do teu corpo encostado no meu.




quinta-feira, 7 de novembro de 2024

Danças de luz taxadas por palavra ou Como ser alegremente fútil

 

Os fios de Sol do outono penetram através da vidraça. Esta é uma dessas tardes tranquilamente obtusas em que, comodamente sentado, pensas ideias e pensamentos avulso apenas por exercício e como forma de esfaqueares lentamente o ritmo ao tempo.
Fútil pensamento da tarde:
- Se as palavras utilizadas fossem taxadas individualmente, que consequências teria nos diálogos e nas relações interpessoais?
Enquanto divagas sobre o impacto financeiro na comunicação e começas a construir a tabela dos prós e contras, o teu olhar é desviado para o soalho onde os fios de sol, refractados pela vidraça, executam uma lenta, caótica e, no entanto, hipnótica dança nas travessas de madeira.
Quantas palavras não seriam poupadas, quantos silêncios ganhos tal como a atenção às expressões faciais tão expressivas?
A luz rodopiou de novo, desta vez ligeiramente para a esquerda e a sombra de um pequeno pássaro atalhou o seu voo ao longo da parede.
Se as palavras fossem taxadas, os olhares seriam bem atentos, as palavras seriam criteriosamente escolhidas e os charlatões, os “comunicadores” e os fãs confessos e viciados na sua voz, cuja intenção é apenas terem atenção a todo o custo ao imenso nada que transmitem ou leram e ouviram nos média, ficariam deprimidos.
Os pequenos raios de luz executam agora verdadeiros passos de tango argentino, e eu sinto-me transportado para uma das muitas salas de tango das ruas e ruelas de Buenos Aires.
Ah! Buenos Aires e os restaurantes em Puerto Madero, onde a luz é mais brilhante, a dança mais fluida e os silêncios mais tranquilos.
Definitivamente os latinos não iriam gostar de ver as suas longas conversas taxadas, mas sei que adoram a luz do Sol.
Os pequenos e frágeis raios de luz outonais transmitiram-me a beleza da dança das partículas luminosas e ensaiam a ultima dança do dia, aquela que acontece sempre que este lado da Terra vira as costas ao Sol. E nesta dança de morte lenta neste fim de tarde tranquilamente obtusa e fútil, declaro que o mundo seria muito melhor se as palavras fossem taxadas e a grande maioria das pessoas se dedicasse, de boca bem fechada, a observar a dança das partículas de luz, no soalho de um lugar



terça-feira, 20 de agosto de 2024

É tempo de seguir o tempo

 

É tempo de fazer o balanço

Aos sentimentos

Colhidos por tantos anos

Fragmentos coloridos de emoções

Formando paisagens doces

Gritos desesperados de dor

Rios de mágoas que nunca desaguam

 

É o final do Outono

Nas pontas das chamas

Que iluminam as noites mais escuras

Onde cavalgam as recordações

São as faces, tantas faces

Que em mim habitam

É o canto melancólico do quase final

Ou a vida em pequenos retalhos

 

É quase final de Outono

Tempo de balanço

Ao som da introspecção

Organizando as sombras

Dos meus genuínos pecados

 

E é tempo de sentir o tempo

Fluir no seu movimento

E preparar a jornada,

Que quase não tarda,

De finalmente o seguir,

De me deixar ir




terça-feira, 13 de agosto de 2024

Na tua sombra

 

Na tua sombra cabem as minhas desilusões

Botões de uma rosa murcha, quase amorfa

Desatinos em fragmentos de emoções


No teu cabelo, maré viva, sonho naufrágios

 Brisa sequiosa de um desejo fecundo

Porto que não alberga meus anseios

És miragem, eu deserto




quarta-feira, 3 de abril de 2024

Espero-te

 


Espero-te

Quando todos tiverem desistido de esperar

Quando o som da rua se calar

E os amantes se despedirem

Espero-te

Quando os sinos da igreja se atrasarem

E os cães vadios se acalmarem

Quando os barcos atracarem

Os botões da rosa se fecharem

E o violino parar de chorar

Espero-te

Mesmo que a madeira se transforme em bengala

E o Inverno se instale de vez

E já não tenha voz para te dizer

Tudo quanto guardei nesta espera

Espero-te

Porque sempre te esperei

Mesmo quando o não sabia

Espero-te

Quando todos tiverem desistido de esperar

Quando o som da rua se calar

E os amantes se despedirem

Espero-te

Quando os sinos da igreja se atrasarem

E os cães vadios se acalmarem

Quando os barcos atracarem

Os botões da rosa se fecharem

E o violino parar de chorar

Espero-te

Mesmo que a madeira se transforme em bengala

E o Inverno se instale de vez

E já não tenha voz para te dizer

Tudo quanto guardei nesta espera

Espero-te

Porque sempre te esperei

Mesmo quando o não sabia





quarta-feira, 29 de novembro de 2023

Ao fim da tarde

 

É sempre à tarde, fim de tarde

Que me sento e observo

O jogo das sombras nas paredes da sala

E fico assim, sossegado

Vendo os raios de luz apagar

E a mancha das sombras aumentar

É sempre à tarde, sempre tarde

Que me escondo do dia

Ao fim do dia

Suspenso me sinto

Sentado sossegado

Na penumbra dos dias

Na sombra do meu tempo

Esperando que chegue, devagar

O tempo do meu esquecimento




sexta-feira, 4 de agosto de 2023

Que é feito da felicidade?

 

Se um dia pudesse ser feliz

Contente só por ser assim

Sem mágoa, sem dor

Apenas ser feliz

Se eu pudesse ser feliz

Teria o sorriso mais rasgado

O riso mais sonoro

O tino menos acertado

Mas seria enfim feliz

Não sei sentir felicidade

Sei da dor, sei da angústia

Sei da triste ansiedade

Que ansiosamente me prende

Ao mais mesquinho que há em mim

E se um dia fosse assim

Despreocupado e feliz?

Só feliz...



domingo, 2 de julho de 2023

Que é feito de nós

 

Diz-me, por onde andam teus passos

Dá-me uma pista sobre ti

Sinto o teu perfume

Sinto a tua pele

Embora há muito não te veja

Fala-me desta tua vida

Agora que a ela não pertenço

Conta-me, mesmo que não te oiça

Ouvir não conta quando a voz está bem presente

E dá-me um sorriso,

desses que são tão teus

Da boca até aos olhos

Brilhando intensamente,

Reflectindo nos olhos meus

Não sei da tua sombra,

Que da minha se escondia por instantes

Para depois se entrelaçarem,

Bem unidas, de mãos dadas

Por esses passeios da vida

Diz-me, que nada sei de ti,

Tens sabido de mim?

Procuraste-me nas calçadas

Olhaste bem através das vielas?

Preciso saber se me procuras

Porque desde que te perdi,

Nada mais soube de mim.



sexta-feira, 30 de junho de 2023

Do serrano que há em mim

 

A porta, em madeira velha e muito gasta, dava acesso a um pátio exterior largo, feito de pedra granítica que outros, muito tempo antes, cortaram e endireitaram à mão. As paredes da casa, vestidas de plantas trepadeiras, creio que eram buganvílias, davam cor e aroma ao conjunto. As tardes de junho eram perfumadas nesse pátio virado a oeste. Ao fundo, quase na curvatura do terreno, a vinha e o olival.

À volta, os contrafortes da Serra da Estrela recortados por profundos vales por onde circulavam riachos de água gelada e límpida. Recordo os salgueiros, fortemente enraizados nas margens, totalmente desgrenhados, folhas e ramos beijando a superfície das águas. Eram locais de sombra, de erva viçosa, de convite a longas sonecas com os pés dentro da água.

Aqui e ali um castanheiro, uma nogueira-imponentes no porte- e uma tília. As tílias eram as minhas preferidas; perfumavam o ar quente por todo o lado; um perfume envolvente e calmante. Os blocos de rocha, blocos arredondados de diversos tamanhos, saídos do solo, pintalgados de líquenes, conviviam com as grandes árvores. Não sei quem suportava quem, mas eram conjuntos harmoniosos.

Assim eram as pinceladas serranas da minha juventude em dias em que a primavera há muito tinha escancarado as suas portas ao verão.

Para mim tudo era calmo e equilibrado; para mim ainda a primavera da vida estava a começar e não se imaginava que aquele claro e limpo horizonte tantas vezes mais tarde viesse a mostrar-se negro escuro, tempestuoso.

Há muito que não visito esse muito meu espaço da infância e início da juventude, mas sinto-lhe a falta; por vezes sinto uma saudade imensa desses tempos. Desconfio que não voltarei a visitá-los; fazê-lo poderia ser uma desilusão e assim preservo estas memórias que me são caras.

Não, não deverei voltar aquele local, mas sinto-o, sei-o. Tenho-o entranhado nos ossos, é parte do meu código genético; é a Serra que há em mim.