domingo, 22 de abril de 2018

Cinzas de Inverno



Na melancolia de um céu de chumbo
recordo paisagens amargas
momentos escondidos em mapas sem X.
Renascem lágrimas de dor e suores de raiva,
reavivo mantos frios julgados esquecidos
e revejo fotos que não desejava.
Nesse pálido céu de chumbo
numa tarde de Inverno qualquer
que de longe me traz os remorsos
do que, sentindo já não ser, ainda sou,
sinto o peso da culpa
em tempestades de tremura.



Café Central



De costas para ti senti a tua presença;
sei que estás nessa mesa contra a qual, de costas,
sempre me sento.
Senti te o perfume quando cruzaste as pernas
e soube que tinhas chegado, como sempre, silenciosa.
De costas para ti peguei no copo
e ergui-o quase casualmente
na esperança que me reflectisse a tua imagem.
Uma vez mais apenas vi o líquido e bebi um trago.
De costas para ti ouvi-te puxar do maço, tirar um cigarro e acende-lo à 3ª tentativa.
Senti o aroma desse tabaco que não fumo
e o teu olhar cravado em mim.
De costas para ti acabei a bebida,
depositei o custo do consumo sobre a mesa,
levantei-me e saí,
sabendo que estavas a olhar, esperando que me voltasse antes de atravessar a porta do café.
De costas para ti, entranhou-se-me o teu ressentimento pela minha "descoragem".
De costas para mim, senti-me, uma vez mais, incapaz de te suportar o olhar
porque sei que, se o fizesse, entregar-me-ia inevitavelmente a ti.


quarta-feira, 27 de dezembro de 2017

Equações sentimentais de grau indeterminado


Amo-te e desejo-te
Mas se te desejasse alcançar-te-ia no patamar do amor?
Se te amo e te desejo,
então desejo amar-te
ou amo desejar-te?
Poder-te-ei amar sem te desejar?
Sei que te posso desejar sem te amar,
mas não sei se é suficiente para ti.
Posso desejar amar-te, se já te desejo tanto?
Posso mesmo amar desejar-te sem nunca te ter.
Será que te quero mesmo amar,
ou é um pretexto para experimentar um prazer sem igual?
Posso desejar querer amar-te, mas isso não é forçar?
Quero amar-te?Não, soa mal.
Desejo-te tanto que me atrevo a dizer que te amo,
mas se estiver enganado no amor, não estou certamente no desejo.
Umas vezes desejo-te, outras...amo-te.
Muitas vezes, nem uma nem outra.
Mas sei que te desejo e te amo,
ou será que é ao contrário?
Sei, convictamente, que te quero!


domingo, 17 de dezembro de 2017

Se assim fosse ou a imprevisibilidade dos ventos



Diz-me que sim
Não penses
Deixa-te levar pelo momento
Deixa falar o sentimento
E diz-me que sim
Pendura-te em mim e deixa-te ir
Dá-me esse sorriso rasgado
Rasga o preconceito guardado
E diz-me que sim
Atreve-te a ir sem rumo
A sentir no limite
A soltar as emoções
Colhendo as sensações
Arrisca-te a ir
E diz-me apenas: sim


A Emoção do Vento Latino


Lança-me um olhar
Um fio ténue de ternura
Um sorriso a despertar
Um sopro de frescura
Dar-te-ei um suspiro
Um abraço sentido
Um braço contido
Um mundo invertido
Outra forma de estar
Todas as ondas do mar
O meu olhar

E a brisa a convidar
Vem, vamos voar


sexta-feira, 8 de dezembro de 2017

Retrato a tinta da china



Planta sombras em noites de lua cheia
E colecciona mágoas entre folhas de livros
Transforma monólogos em conversas ao espelho
E discursa em travessas empedradas cheias de ninguém
Ansiosamente procura a solidão
Raramente tem o prazer de a encontrar
A paz é uma palavra muito curta
Para ser mantida
E a liberdade só chega no fim
Perdeu o mapa do amor num jogo de póquer
E rega esquinas em noites bastardas
Não tem norte, não tem rumo
Não cultiva o aprumo
Não é ninguém e ninguém tem
Atreve-se a pensar que é alguém
Mas apenas quando lhe convém
Fala no gume fino de uma navalha romba
(Herança do tempo vivido)
Tem-se a si e pouco mais
Diz-se muito bem servido
Ele, um fado, um copo de vinho e um trompete desalinhado.




Do efeito colorido do pó


Amo-te hoje porque amanhã não existe
E preciso sentir-te como as flores precisam do orvalho da manhã
O teu aroma é como o cheiro húmido da terra
Fértil, ávido de vida e de calor
Amo-te sem to saber expressar
Trôpego na ansiedade de te sentir
Carente dessas mãos presas nas minhas mãos
Até que o dia chegue ao fim
Porque amanhã não existe
Amo-te e, nesta ânsia de te ter
Esqueço a fome, esqueço o ar
Só preciso saciar a sede insana no teu olhar
Num sorriso, numa lágrima, num esgar de desdém
Amo-te hoje e para além da morte
Porque esta existe e amanhã é uma incógnita
(E o pêndulo não pára)





sexta-feira, 1 de dezembro de 2017

O compasso do tempo



Penso nas horas
Passo a passo
No passo descompassado da vida
No compasso dos ponteiros
Num círculo vidrado ao olhar
Vejo o tempo a passar
O mecanismo perfeito
Onde a tempo me acerto
É a medida desta vida
Contada a cada momento
No tic tac repetido
Agitado num piscar
Num movimento perpétuo
Sentido até nas desoras
No ritmo lento das demoras
Na pressa dos desencontros
No pressuposto da certeza
Que perpétuo é o tempo
Que não a vida que o sente


terça-feira, 28 de novembro de 2017

Do indelével jogo dos sentimentos marginais



"Não cobiçarás a casa do teu próximo, não cobiçarás a mulher do teu próximo, nem o escravo, nem a sua escrava, nem o seu boi, nem o seu jumento, nem coisa alguma do teu próximo." (in os 10 mandamentos)
________
E a casa da tua próxima e o homem da tua próxima? Esses já poderás cobiçar sem que a fúria Divina se abata sobre ti e a tua casa?

«««««««««««««««««««««««««
Primeiro motivo: ambos existem, pelo que há a probabilidade, mesmo que diminuta, de um dia se cruzarem.
Segundo motivo: frequentam espaços comuns, têm amigos comuns ou não nada têm em comum.
Terceiro motivo: apercebem-se da existência do outro, seja no local de trabalho, seja público ou da forma mais inesperada, mas apercebem-se da existência mútua e iniciam diálogo.
A partir daqui o jogo começa; as conversas, inicialmente ocasionais e vagas, tornam-se progressivamente mais frequentes. Trocam ideias, opiniões, gostos e preferências.
Uma fome crescente de contacto apodera-se de ambos, embora ainda não tenham consciência que o desejo lhes ganha espaço à razão. Quando se apercebem já a carência se instalou.
Apaixonam-se ou, tão só, desejam-se e, inevitavelmente, acabam por consumar o acto; todo aquele crescendo de sentir, de partilhar de querer possuir, acumulado ao longo do tempo, explode em sensações de partilha de novos territórios, mapas de pele nunca antes visitadas. O acto é intenso, como intenso é o que de bom apenas se faz uma vez. E fica a sensação de pouco, de querer mais e mais e mais rapidamente.
A dependência cresce mas a distância é grande e grande é o risco; e o risco, sendo perigoso, é motivador, desafiante.
Surge a primeira regra: não serem apanhados e a segunda: não ferirem os seus pares.
E partem para a clandestinidade.
Aproveitam cada fracção do pouco tempo que dispõem de partilha. Tocam-se e sentem-se como se fosse a última vez; escolhem cuidadosamente os locais, vestem delicadamente os olhares partilhados e partilham-se freneticamente, em batalhas sofregamente húmidas.
O risco de perda e a incógnita da próxima vez torna ainda mais intenso o contacto.
E é a intensidade do beijo que distingue os amantes marginais.



sábado, 18 de novembro de 2017

Fragmentos de jardim



Suspirou profundamente, sentado naquele banco de jardim, banco de momentos silenciosos.
Abriu os olhos, olhos espelhados de noites mal dormidas, noites pressentidas.
Os cães passeiam no relvado, chorando em troncos de árvore, num ritual ancestral. Acredito que procurem a árvore original, aquela onde o Adão dos cães se aliviou pela primeira vez. Legados caninos que escapam à sensibilidade distraída dos donos.
Os melros banqueteiam-se por entre saltos acrobáticos; a chuva da véspera animou os vermes da terra e estes animaram a passarada.
Mesmo em frente, um jovem casal vive o momento calmo da tarde; certamente ainda não tiveram a primeira prova de dor. As dores atacam quando menos se espera, de forma cruel, intempestiva. E tudo depende da resistência, da indolência, da sensibilidade para ultrapassar, mascarar, ignorar ou conviver com elas.
Já não se recorda da sua primeira dor; as primeiras dores não são como os primeiros beijos; por serem tão fortes, tão intensas, o consciente ordena ao inconsciente que se livre dessas memórias por DHL.
O primeiro beijo…ah, o primeiro beijo é outra coisa; é sabor a morango, em travo de cetim; é ardor na face e olhares por cima do ombro da companheira, com receio de que alguém esteja a olhar. É intenso, é inocente, flui da boca como azeite. O primeiro beijo é imediatamente emoldurado na memória, em tons de vermelho vivo.
Sorriu perante a recordação e imediatamente fechou a expressão em memória da última dor.
Os cães passeiam, os melros comem em saltos de ballet, os namorados excitam-se e sangram carícias e o homem puxa o chapéu para os olhos, desce o queixo para o peito e suspira a emoção.



Serão as memórias fragmentos de sentimentos? Dores e sorrisos em latas mentais de conserva...


Apocalipse ou a fragmentação do ser básico


12 E vi os mortos, grandes e pequenos, em pé diante do trono; e abriram-se uns livros; e abriu-se outro livro, que é o da vida; e os mortos foram julgados pelas coisas que estavam escritas nos livros, segundo as suas obras. 13 O mar entregou os mortos que nele havia; e a morte e o Hades entregaram os mortos que neles havia; e foram julgados, cada um segundo as suas obras. Apocalipse 20:12-13



E vi a inveja, a injúria e a incúria. Vi homens e mulheres invejando mulheres e homens.
Vi petardos de ignorância lançados a outros e mentiras escondidas num manto de cobardia.
Vi a mesquinhez e a baixeza mascarados de altruísmo e vi a dor dos atingidos.
E vi a nódoa e os cães de duas patas, caminhando hirtos como gente, falando como gente, mordendo como gente e como cães. E vi os vermes e os vermes falavam enquanto se retorciam e eram congruentes na sua linguagem de verme.
E vi doutores e carpinteiros, poetas e engenheiros, políticos e pedreiros, feridos de corno, doridos na alma e quebrados no amor-próprio.
E vi risos forçados e acenos acobardados e adulações e manifestações invertebradas.
Vi o ódio e a cegueira e sentimentos não retribuídos, ferindo como lâminas, minando o discernimento.
E também vi uma centelha de pureza quase extinta, quase nada.
E avancei pelo meio deles e não senti pena, não me dizem nada.
Ri-me e não me detive por nenhum.



quinta-feira, 2 de novembro de 2017

Meu amor



O amor
O poder do amor
O maravilhoso poder do amor
O maravilhosamente grandioso poder do amor
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O poder do amor só tem dor
É ferida, é ardor
É desejo com pudor
É um vai lá por favor
Que hoje estou cheio de dores...
O poder do amor
É primavera, é alergias
É inveja, é ciúme
É dor de corno
É o costume
Possessão
Consternação
Choro, dor e pregão
É pra vida e não pra morte
É excelente, com muita sorte
O amor é uma flor
Colhida no ano anterior
É sorriso e é lágrima
É traição
Devoção e emoção
O amor é bipolar
É pra toda a gente usar
É democrático, é tirano
É o fogo do candeeiro
É o melhor e o pior
É o poema, a enciclopédia
É a Maria e a Noémia
O Joaquim e o André
O amor é o que é
Gosto muito mas nem tanto
O amor é um espanto



O amor é a invenção mais profícua do diabo

quarta-feira, 1 de novembro de 2017

• Alucinações em www.com ou Realidades em WiFi


Vozes sem rosto
Multidões sem forma
Cortadas por formas geométricas
A preto e branco
Céus de violetas
Em tons caqui
Fumos espessos
Escapam por entre os dedos
E a rua flui até ao seu fim
Ao meio um cruzamento
Ou será uma encruzilhada
Onde mulheres se perdem
Se mostram, se expõem
Um red light district.com
Em formato de bolso
E os homens espumam
(os homens espumam sempre e facilmente)
Os homens agitam-se
Os olhos excitam-se
Em céus de violetas
Com tons de caqui
Conversas estudadas
Frases usadas
Dirigidas, manipuladoras
Conversas pobres
Que acabam em trapos espalhados no chão
E os céus de violetas anunciam tempestade
E há sempre uma nova praia
Uma enseada à espera de ser descoberta
E um porto de abrigo usado, desgastado, devoluto
A cabeça estala, a dor agudiza
A noite vai longa, quase morta
E o copo nunca esteve vazio



quinta-feira, 12 de outubro de 2017

Migração



Sei o quão frágil é respirar
E como engana o bater do coração
Mas a esperança é soberana
Mesmo pra quem a renega
Por mais dores que o passado traga
Por isso desejo, por isso rogo
Que venha o inverno
E me traga um bilhete teu
No seu vento selvagem
Me mova como um ponteiro de bússola
E me indique o norte
No meu pregão peço a coragem
Para partir sem pensar
Para ir sem hesitar
E finalmente te encontrar
E no teu calor me perder
Porque teu pretendo ser
Até que o inverno se acabe
Até que a memória se apague
Até que desistas de mim



domingo, 1 de outubro de 2017

Renovação ou cansam-se-me demasiado os olhos nos dias que correm



Dos sentimentos vividos
Dos poucos que dei
Dos muitos que roubei
Dos risos e dores
Dos escritos de autor
Mágoas provocadas
Feridas mal curadas
É a dança da vida
Bem ou mal vivida
Em paisagens guardadas
Em memórias cuidadas

Do que me falta fazer
Já tão só não me sinto
Despedi-me me do banco de pedra
Guardei um ramo de jasmim
E a Serra parada despedindo-se de mim

Do espelho já não guardo imagens
Outros mares, outras margens
Novos olhares, ondas baixas
A paisagem, enfim, mudou

E da tormenta guardei a calma
Da luta quero intervalos
Fumados em finos retalhos

É tempo de repousar os olhos cansados
Na imagem
Que a sombra me trouxe doutra paragem

Já outrora fui quem esqueci
Uma lágrima perdida por aí.


segunda-feira, 25 de setembro de 2017

Pedaços de mim




Cala-se a voz no silêncio; do sonho
desperto de ti. Ensandecido
te procuro e não alcanço. Esquecido
torno a dormir. Medonho
é o desejo de te sentir
Tremenda a vontade de fugir
E nesta contradição pendular
balanço entre não querer e alcançar
Maldigo a hora em que senti
Quão gostoso é gostar de ti






Teia de Luzes ou Efeito Psicotrópico



Não sei se é do efeito da luz na vidraça, do aroma da erva molhada ou do sussurro do vento no espanta espíritos. Talvez seja apenas uma calma induzida pelos fármacos ou a ilusão do tempo suspenso.
Sinto um sossego incomum, indolor e inebriante.
A aranha continua impávida a tecer a sua teia no bordo do vaso do jasmim.
Um jovem casal passa na rua. Na sua discussão cortam o fio que suspende o tempo interior.
Ele, agressivamente, questiona-a. Ela hesita.
Apetece-me interceder por ela, de tão óbvia e merecida a resposta, no entanto prefiro remendar o fio e voltar a suspender o tempo.
Sentado no sofá imagino um retrato, dessa outra que me entorpece, pendurado na parede branca, mesmo em frente. Pequeno, desenhado a carvão, apanhando-lhe as particularidades tão peculiares do rosto.
Ficava mesmo bem o retrato dela na parede branca, mesmo em frente do sofá.
Lamentavelmente, não quero dispor do tempo suspenso para a desenhar.
Os raios de sol perdem terreno no soalho, ou talvez seja apenas o efeito da luz na vidraça.
A aranha continua a sua interminável dança rendilhada no vaso e eu suspendo as pálpebras no fio da memória.






sexta-feira, 22 de setembro de 2017

Equinócio



São os traços mutáveis da paisagem
E o comportamento dos animais
Em mim sinto a mudança
Os cinzentos iniciaram o retorno
Cruzaram-se com as aves migratórias
As videiras estão em fim de prazo
Os doces figos despedem-se
A noite ganha avanço ao dia
E o vento trás as primeiras chuvas
É tempo de interiorizar
É a estação da nostalgia a chegar
É mais ou menos um Outono?
Pressinto o menos a ganhar
O fim ganha sempre vantagem no início
E novas aves chegarão com o solstício de Dezembro




Acredito que o equinócio se dissolva no solstício

quinta-feira, 21 de setembro de 2017

Moldando em cera



Desta vez olha de frente e sorri.
Sorri uma lágrima quente, uma gota sentida,
a expressão de um sentimento salgado.

Desta vez olha de lado
faz o teu olhar enviesado.
Sorri um sorriso distorcido
e de novo roda a cabeça
e de frente afoga a diferença

Mas sorri...


sexta-feira, 15 de setembro de 2017

A arte do silêncio



Gradualmente as respirações abrandaram
Os corpos ainda luziam da transpiração
Ela enconchou-se nele e, por cima do ombro, lançou-lhe um sorriso comprometido
Ele retribuiu com o olhar brilhante de cansaço
Afagou-lhe os cabelos
Beijou-lhe a nuca
E enlaçou-a
Numa nova dança

quarta-feira, 6 de setembro de 2017

A suavidade densa da silhueta perdida


A música tocava suave, em volume sussurrado, na parte instrumental que antecede a voz suplicante.
Não recordava quantas vezes a ouvira. Provavelmente, tantas quantas a melancolia lhe enchera os olhos de um vazio baço, virado para as memórias.
As suas memórias eram como uma mala de viagem estampada de autocolantes com os nomes das cidades, tão em voga nos anos 60 e 70. Memórias excessivas, memórias de excessos. Acendeu mais um cigarro, no borrão do anterior; era escusado gastar pedra de isqueiro, já bastava consumir os pulmões.
Gostaria que as memórias fossem como a cinza do cigarro: frágeis e leves. No entanto sabia –as densas, persistentes, incómodas.
Uma vez mais recordou-lhe a face e amaldiçoou a memória. O fumo escapava-se por entre os dedos, o fumo tinha a forma dela. Sempre que queimava a envenenada esperança de a voltar a encontrar, o fumo brincava maldosamente com ele formando a silhueta dela antes de desaparecer no ar.
Entrou a voz exactamente quando era suposto entrar, logo após aquele solo de viola que tanto o arrepiava. E a voz suplicava e as memórias ardiam-lhe os olhos e o fumo empurrava-as para os seus olhos doridos, batidos, cansados da imagem repetida, cada vez mais viva, em carne viva. E o tom suplicante erguia-se acima da bateria e a água escorria dessas janelas vazias, lenta, num movimento não linear.
O clímax musical, o soluço final e a imagem que não conseguia banir e a cabeça a latejar e o cigarro a acabar e a noite mais cerrada e infindável.
A voz calou-se no mesmo tom sussurrante em que começara.
Porque é que as memórias espinhosas não são como as músicas, interrogou-se ele? Porque é que não se podiam simplesmente calar?
Instalou-se o vazio no vazio da esperança. Achou por bem não passar de novo aquela música, acendeu novo cigarro e desejou ser vencido rapidamente pelo cansaço.
Em vão…
E, à medida que a noite avançava, a sombra dela alastrava sobre si.



terça-feira, 5 de setembro de 2017

Envenenemos o medo



Não te tentes
Não queiras querer
Não te sujeites a pertencer
Desenha um círculo em torno de ti
Chama-lhe fronteira
Chama-lhe muralha
Imagina-o parede
E não deixes nada entrar
Reconstrói-te
Refaz-te
Reforça-te
Mas não te tentes
Não te deixes tentar
Não voltes sequer a imaginar
Contém-te, detém-te
Usa mas não sintas
Utiliza mas não recordes
Se, por fraqueza, usares, esquece
Se, por necessidade, utilizares, ignora
Se te sentires fraquejar, desaparece
Mas não te tentes
Não desejes
Não recordes
E não te envolvas
Usa sem guardar
E resguarda-te no teu círculo
Fecha a fronteira
Ergue a muralha
E não arrisques a dor


domingo, 3 de setembro de 2017

sombras de uma alma perdida



Quando escrevi esta mistura de "coisas", em jeito de duplex ou macedónia, datei-o no final do Outono; verifico que afinal estava enganado. Os seguintes gatafunhos, organizados em pretensas frases, são intemporais, pior, são como vulcões adormecidos: nunca se sabe quando se reactivam e quanto podem destruir.

Fase cinzenta, introspectiva, caracterizada por um pessimismo agudo, um olhar para dentro, incómodo, amargo. Os dias que antecedem a morte do Outono propiciam a auto flagelação mental.
A perspectiva ambígua do mal e do remorso retratada na sombra.Tudo deriva do pecado ou do seu conceito, algo que fica impresso na mente, cravado a ferro em brasa, nos jovens-vitelos de leite-que todos fomos.
Ai os pecados, essa coisa insubstancial com que fomos formatados em criança, gratuita e altruisticamente por homens de vestidos de preto, dizendo-se porta-vozes de um ser maior, de um bem superior, de uma lei suprema e inquestionável.
O pecado é como o desejo: inevitável e muito apetecível.



As sombras da alma são vermelho sangue
Feridas abertas, disformes
Pústulas do teu lado mais sombrio
Que te acordam tarde na noite
Em revoadas de suores frios
As sombras da alma
São os teus fantasmas de estimação
São aves de rapina pairando
Sobre a tua memória
Avisos do passado, gritados no presente
Alertando-te o futuro, inutilmente
São gritos de dor, cáries da consciência
São dores embaraçantes
Que alimentarão para sempre
O borralho da tua vergonha


sexta-feira, 1 de setembro de 2017

Para quando o Inverno?


Para onde olham os velhinhos sentados nos bancos de jardim?
Olharão o seu passado em episódios ou medem a distância até à meta?
Mal se movem, mal se tocam, falam com poucas e baixas palavras
Os seus olhares são de uma lentidão quase estudada e parecem captar o mais pequeno pormenor
O que pensam os velhinhos sentados nos seus bancos de jardim?
Pensarão em ampulhetas, em albuns de fotografias?
Nos tempos passados, no tempo que lhes resta, no que irão fazer quando se levantarem do banco?
Quão longe pensam os velhinhos sentados nos seus bancos de jardim?
Quem são os velhinhos sentados nos bancos de jardim?
Vestem-se de Inverno, sonham dias de Primavera


terça-feira, 29 de agosto de 2017

"Gone" ou de como acabar com o medo



Quando desaparecer
acender-se-à uma vela num canto escuro de uma janela
Haverá uma fotografia antiga, desbotada pela humidade olhada
Uma mão dirá adeus ao sentimento quebrado
Um cão uivará à lua após ter mijado num candeeiro
Uma prostituta entediada virar-se-à de lado na cama alugada, em silêncio
Alguém sufocará um soluço
Alguém matará um beijo à nascença
Alguém sorrirá de tristeza, clandestinamente
Os homens do lixo farão o habitual ruido nocturno
e um gato queixar-se-à da presa perdida
Um homem atravessará a pé a rua, de regresso a casa;
roupa desalinhada, hálito etílico
Uma mulher simulará de novo um orgasmo
Um bébé chorará pelo peito materno
E alguém dirá em silêncio - saudade
soprada sobre a chama de uma vela  que,
no canto escuro de uma janela,
sufoca um soluço de vento
e imagina uma silhueta afastando-se
no céu nocturno


sábado, 26 de agosto de 2017

Forma difusa



De repente pressenti um vulto na janela;
um perfil bem conhecido.
Fixei o olhar e nada vi,nada se fixava por detrás do vidro.
Foi a vista que me traiu, pensei
porque esse vulto há muito que o não via à janela.
Um vulto que era um rosto,
um rosto que a janela me abria
e por vezes se escondia, sorrindo
fazendo me a janela abrir para o encontrar.
Mesmo não tendo ouvido o sorriso,
tive o instinto de me dirigir à janela e procurar.
Mas contive-me. Porque esse perfil de rosto desenhado
num sorriso bonito e deslavado
desapareceu por si na brisa do seu querer.
E marinheiro não volto a ser
para me largar no desejo, sem leme nem vela a preceito
abrindo janelas de vento sem jeito,
e me afogar sem nada ver.
Se miragem não foi, voltará
e na janela se fixará e dessa vez baterá.
Se se quiser dar a ver,
virá




Amnésia



Com um pedaço de grafite
e de olhos bem fechados,
esbocei-te os traços da cara.
A preto te refiz na memória do papel
De olhos bem fechados mirei a criação
Eras tu, tal como te vi
da primeira vez que nos desencontrámos,
por sinal no unico encontro que marcámos.
De olhos bem fechados, arranjei te uma moldura
e recriei um prego com dois traços.
Pendurei te na parede, mesmo em frente da janela rasgada
para que ficasses luminosa.
Agora sento-me à tua frente,
num ritual diário
e recordo com deleite a primeira vez que te não vi.



segunda-feira, 14 de agosto de 2017

E o asno cegou de dor



Hoje doí-me um mundo em cada segundo
Dói arrancar de mim um veio de luz
Vendo-a sorrindo pra mim de forma "frágil"
Dói abrir as mãos, apartar os braços, virar a cara
Por um pedido, por um clamor, por um medo tolo
Fere-me de morte sempre que a razão, o conforto, o temor
Vencem o desejo, a mais pura acendalha da vida, a paixão

O que as asas aproximaram,
As penas afastaram

E doí-me a inercia, a falta de reacção,
A aceitação não aceite
O baixar de braços, os braços amputados
O torpor, o estupor do destino,
Esse cabrão que abomino,
A mentira maior.
É a vida…não é não!
São as teias construídas,
São os nós de marinheiro
Os bons costumes castradores
Esses abutres dos Valores

Dói-me não conseguir arrancar esta dor
Que me magoa e corrói



sábado, 12 de agosto de 2017

Existem ontens?



Estás errada, já te disse.
Ontem não nos vimos,
ontem não falámos.
Dizes que dissemos mas não ouvi.
Estava noutro lado.
Ontem foi daqueles dias em que saimos por ruas diferentes,
daquelas que não se cruzam,
daquelas que não se tocam,
daquelas que não se veem.
Ontem não nos tocámos, nem com a voz,
porque era impossivel.
O que parece ter sido não foi,
o que foi esqueci.
Porque ontem não te vi,
vi-te a sombra
que a lua sarcástica me deu,
mas não a ti.


segunda-feira, 7 de agosto de 2017

Pétalas



Uma flor não é uma flor
É uma cor, uma dança colorida, uma palete de vida
É um cheiro, são cheiros, é perfume
Misturado com terra húmida e seca
É o zumbido dos insectos
E o suave empurrão da brisa no seu caule
Uma flor é a dor da deciduidade
O desmontar breve da beleza singular
Uma flor, fragilidade
Canção ao luar, canção breve, exaltada
Da beleza singular, da dor da deciduidade
Da secura da terra, do cheiro da humidade
Da ferida saudade, dessa flor
Essa flor