quinta-feira, 12 de outubro de 2017

Migração



Sei o quão frágil é respirar
E como engana o bater do coração
Mas a esperança é soberana
Mesmo pra quem a renega
Por mais dores que o passado traga
Por isso desejo, por isso rogo
Que venha o inverno
E me traga um bilhete teu
No seu vento selvagem
Me mova como um ponteiro de bússola
E me indique o norte
No meu pregão peço a coragem
Para partir sem pensar
Para ir sem hesitar
E finalmente te encontrar
E no teu calor me perder
Porque teu pretendo ser
Até que o inverno se acabe
Até que a memória se apague
Até que desistas de mim



domingo, 1 de outubro de 2017

Renovação ou cansam-se-me demasiado os olhos nos dias que correm



Dos sentimentos vividos
Dos poucos que dei
Dos muitos que roubei
Dos risos e dores
Dos escritos de autor
Mágoas provocadas
Feridas mal curadas
É a dança da vida
Bem ou mal vivida
Em paisagens guardadas
Em memórias cuidadas

Do que me falta fazer
Já tão só não me sinto
Despedi-me me do banco de pedra
Guardei um ramo de jasmim
E a Serra parada despedindo-se de mim

Do espelho já não guardo imagens
Outros mares, outras margens
Novos olhares, ondas baixas
A paisagem, enfim, mudou

E da tormenta guardei a calma
Da luta quero intervalos
Fumados em finos retalhos

É tempo de repousar os olhos cansados
Na imagem
Que a sombra me trouxe doutra paragem

Já outrora fui quem esqueci
Uma lágrima perdida por aí.


segunda-feira, 25 de setembro de 2017

Pedaços de mim




Cala-se a voz no silêncio; do sonho
desperto de ti. Ensandecido
te procuro e não alcanço. Esquecido
torno a dormir. Medonho
é o desejo de te sentir
Tremenda a vontade de fugir
E nesta contradição pendular
balanço entre não querer e alcançar
Maldigo a hora em que senti
Quão gostoso é gostar de ti






Teia de Luzes ou Efeito Psicotrópico



Não sei se é do efeito da luz na vidraça, do aroma da erva molhada ou do sussurro do vento no espanta espíritos. Talvez seja apenas uma calma induzida pelos fármacos ou a ilusão do tempo suspenso.
Sinto um sossego incomum, indolor e inebriante.
A aranha continua impávida a tecer a sua teia no bordo do vaso do jasmim.
Um jovem casal passa na rua. Na sua discussão cortam o fio que suspende o tempo interior.
Ele, agressivamente, questiona-a. Ela hesita.
Apetece-me interceder por ela, de tão óbvia e merecida a resposta, no entanto prefiro remendar o fio e voltar a suspender o tempo.
Sentado no sofá imagino um retrato, dessa outra que me entorpece, pendurado na parede branca, mesmo em frente. Pequeno, desenhado a carvão, apanhando-lhe as particularidades tão peculiares do rosto.
Ficava mesmo bem o retrato dela na parede branca, mesmo em frente do sofá.
Lamentavelmente, não quero dispor do tempo suspenso para a desenhar.
Os raios de sol perdem terreno no soalho, ou talvez seja apenas o efeito da luz na vidraça.
A aranha continua a sua interminável dança rendilhada no vaso e eu suspendo as pálpebras no fio da memória.






sexta-feira, 22 de setembro de 2017

Equinócio



São os traços mutáveis da paisagem
E o comportamento dos animais
Em mim sinto a mudança
Os cinzentos iniciaram o retorno
Cruzaram-se com as aves migratórias
As videiras estão em fim de prazo
Os doces figos despedem-se
A noite ganha avanço ao dia
E o vento trás as primeiras chuvas
É tempo de interiorizar
É a estação da nostalgia a chegar
É mais ou menos um Outono?
Pressinto o menos a ganhar
O fim ganha sempre vantagem no início
E novas aves chegarão com o solstício de Dezembro




Acredito que o equinócio se dissolva no solstício

quinta-feira, 21 de setembro de 2017

Moldando em cera



Desta vez olha de frente e sorri.
Sorri uma lágrima quente, uma gota sentida,
a expressão de um sentimento salgado.

Desta vez olha de lado
faz o teu olhar enviesado.
Sorri um sorriso distorcido
e de novo roda a cabeça
e de frente afoga a diferença

Mas sorri...


sexta-feira, 15 de setembro de 2017

A arte do silêncio



Gradualmente as respirações abrandaram
Os corpos ainda luziam da transpiração
Ela enconchou-se nele e, por cima do ombro, lançou-lhe um sorriso comprometido
Ele retribuiu com o olhar brilhante de cansaço
Afagou-lhe os cabelos
Beijou-lhe a nuca
E enlaçou-a
Numa nova dança

quarta-feira, 6 de setembro de 2017

A suavidade densa da silhueta perdida


A música tocava suave, em volume sussurrado, na parte instrumental que antecede a voz suplicante.
Não recordava quantas vezes a ouvira. Provavelmente, tantas quantas a melancolia lhe enchera os olhos de um vazio baço, virado para as memórias.
As suas memórias eram como uma mala de viagem estampada de autocolantes com os nomes das cidades, tão em voga nos anos 60 e 70. Memórias excessivas, memórias de excessos. Acendeu mais um cigarro, no borrão do anterior; era escusado gastar pedra de isqueiro, já bastava consumir os pulmões.
Gostaria que as memórias fossem como a cinza do cigarro: frágeis e leves. No entanto sabia –as densas, persistentes, incómodas.
Uma vez mais recordou-lhe a face e amaldiçoou a memória. O fumo escapava-se por entre os dedos, o fumo tinha a forma dela. Sempre que queimava a envenenada esperança de a voltar a encontrar, o fumo brincava maldosamente com ele formando a silhueta dela antes de desaparecer no ar.
Entrou a voz exactamente quando era suposto entrar, logo após aquele solo de viola que tanto o arrepiava. E a voz suplicava e as memórias ardiam-lhe os olhos e o fumo empurrava-as para os seus olhos doridos, batidos, cansados da imagem repetida, cada vez mais viva, em carne viva. E o tom suplicante erguia-se acima da bateria e a água escorria dessas janelas vazias, lenta, num movimento não linear.
O clímax musical, o soluço final e a imagem que não conseguia banir e a cabeça a latejar e o cigarro a acabar e a noite mais cerrada e infindável.
A voz calou-se no mesmo tom sussurrante em que começara.
Porque é que as memórias espinhosas não são como as músicas, interrogou-se ele? Porque é que não se podiam simplesmente calar?
Instalou-se o vazio no vazio da esperança. Achou por bem não passar de novo aquela música, acendeu novo cigarro e desejou ser vencido rapidamente pelo cansaço.
Em vão…
E, à medida que a noite avançava, a sombra dela alastrava sobre si.



terça-feira, 5 de setembro de 2017

Envenenemos o medo



Não te tentes
Não queiras querer
Não te sujeites a pertencer
Desenha um círculo em torno de ti
Chama-lhe fronteira
Chama-lhe muralha
Imagina-o parede
E não deixes nada entrar
Reconstrói-te
Refaz-te
Reforça-te
Mas não te tentes
Não te deixes tentar
Não voltes sequer a imaginar
Contém-te, detém-te
Usa mas não sintas
Utiliza mas não recordes
Se, por fraqueza, usares, esquece
Se, por necessidade, utilizares, ignora
Se te sentires fraquejar, desaparece
Mas não te tentes
Não desejes
Não recordes
E não te envolvas
Usa sem guardar
E resguarda-te no teu círculo
Fecha a fronteira
Ergue a muralha
E não arrisques a dor


domingo, 3 de setembro de 2017

sombras de uma alma perdida



Quando escrevi esta mistura de "coisas", em jeito de duplex ou macedónia, datei-o no final do Outono; verifico que afinal estava enganado. Os seguintes gatafunhos, organizados em pretensas frases, são intemporais, pior, são como vulcões adormecidos: nunca se sabe quando se reactivam e quanto podem destruir.

Fase cinzenta, introspectiva, caracterizada por um pessimismo agudo, um olhar para dentro, incómodo, amargo. Os dias que antecedem a morte do Outono propiciam a auto flagelação mental.
A perspectiva ambígua do mal e do remorso retratada na sombra.Tudo deriva do pecado ou do seu conceito, algo que fica impresso na mente, cravado a ferro em brasa, nos jovens-vitelos de leite-que todos fomos.
Ai os pecados, essa coisa insubstancial com que fomos formatados em criança, gratuita e altruisticamente por homens de vestidos de preto, dizendo-se porta-vozes de um ser maior, de um bem superior, de uma lei suprema e inquestionável.
O pecado é como o desejo: inevitável e muito apetecível.



As sombras da alma são vermelho sangue
Feridas abertas, disformes
Pústulas do teu lado mais sombrio
Que te acordam tarde na noite
Em revoadas de suores frios
As sombras da alma
São os teus fantasmas de estimação
São aves de rapina pairando
Sobre a tua memória
Avisos do passado, gritados no presente
Alertando-te o futuro, inutilmente
São gritos de dor, cáries da consciência
São dores embaraçantes
Que alimentarão para sempre
O borralho da tua vergonha


sexta-feira, 1 de setembro de 2017

Para quando o Inverno?


Para onde olham os velhinhos sentados nos bancos de jardim?
Olharão o seu passado em episódios ou medem a distância até à meta?
Mal se movem, mal se tocam, falam com poucas e baixas palavras
Os seus olhares são de uma lentidão quase estudada e parecem captar o mais pequeno pormenor
O que pensam os velhinhos sentados nos seus bancos de jardim?
Pensarão em ampulhetas, em albuns de fotografias?
Nos tempos passados, no tempo que lhes resta, no que irão fazer quando se levantarem do banco?
Quão longe pensam os velhinhos sentados nos seus bancos de jardim?
Quem são os velhinhos sentados nos bancos de jardim?
Vestem-se de Inverno, sonham dias de Primavera


terça-feira, 29 de agosto de 2017

"Gone" ou de como acabar com o medo



Quando desaparecer
acender-se-à uma vela num canto escuro de uma janela
Haverá uma fotografia antiga, desbotada pela humidade olhada
Uma mão dirá adeus ao sentimento quebrado
Um cão uivará à lua após ter mijado num candeeiro
Uma prostituta entediada virar-se-à de lado na cama alugada, em silêncio
Alguém sufocará um soluço
Alguém matará um beijo à nascença
Alguém sorrirá de tristeza, clandestinamente
Os homens do lixo farão o habitual ruido nocturno
e um gato queixar-se-à da presa perdida
Um homem atravessará a pé a rua, de regresso a casa;
roupa desalinhada, hálito etílico
Uma mulher simulará de novo um orgasmo
Um bébé chorará pelo peito materno
E alguém dirá em silêncio - saudade
soprada sobre a chama de uma vela  que,
no canto escuro de uma janela,
sufoca um soluço de vento
e imagina uma silhueta afastando-se
no céu nocturno


sábado, 26 de agosto de 2017

Forma difusa



De repente pressenti um vulto na janela;
um perfil bem conhecido.
Fixei o olhar e nada vi,nada se fixava por detrás do vidro.
Foi a vista que me traiu, pensei
porque esse vulto há muito que o não via à janela.
Um vulto que era um rosto,
um rosto que a janela me abria
e por vezes se escondia, sorrindo
fazendo me a janela abrir para o encontrar.
Mesmo não tendo ouvido o sorriso,
tive o instinto de me dirigir à janela e procurar.
Mas contive-me. Porque esse perfil de rosto desenhado
num sorriso bonito e deslavado
desapareceu por si na brisa do seu querer.
E marinheiro não volto a ser
para me largar no desejo, sem leme nem vela a preceito
abrindo janelas de vento sem jeito,
e me afogar sem nada ver.
Se miragem não foi, voltará
e na janela se fixará e dessa vez baterá.
Se se quiser dar a ver,
virá




Amnésia



Com um pedaço de grafite
e de olhos bem fechados,
esbocei-te os traços da cara.
A preto te refiz na memória do papel
De olhos bem fechados mirei a criação
Eras tu, tal como te vi
da primeira vez que nos desencontrámos,
por sinal no unico encontro que marcámos.
De olhos bem fechados, arranjei te uma moldura
e recriei um prego com dois traços.
Pendurei te na parede, mesmo em frente da janela rasgada
para que ficasses luminosa.
Agora sento-me à tua frente,
num ritual diário
e recordo com deleite a primeira vez que te não vi.



segunda-feira, 14 de agosto de 2017

E o asno cegou de dor



Hoje doí-me um mundo em cada segundo
Dói arrancar de mim um veio de luz
Vendo-a sorrindo pra mim de forma "frágil"
Dói abrir as mãos, apartar os braços, virar a cara
Por um pedido, por um clamor, por um medo tolo
Fere-me de morte sempre que a razão, o conforto, o temor
Vencem o desejo, a mais pura acendalha da vida, a paixão

O que as asas aproximaram,
As penas afastaram

E doí-me a inercia, a falta de reacção,
A aceitação não aceite
O baixar de braços, os braços amputados
O torpor, o estupor do destino,
Esse cabrão que abomino,
A mentira maior.
É a vida…não é não!
São as teias construídas,
São os nós de marinheiro
Os bons costumes castradores
Esses abutres dos Valores

Dói-me não conseguir arrancar esta dor
Que me magoa e corrói



sábado, 12 de agosto de 2017

Migração




Sei o quão frágil é respirar
E como engana o bater do coração
Mas a esperança é soberana
Mesmo pra quem a renega
Por mais dores que o passado traga

Por isso desejo, por isso rogo
Que venha o inverno
E me traga um bilhete teu
No seu vento selvagem
Me mova como um ponteiro de bússola
E me indique o norte

Na minha prece peço a coragem
Para partir sem pensar
Para ir sem hesitar
E finalmente te encontrar
E no teu calor me perder
Porque teu pretendo ser

Até que o inverno se acabe
Até que a memória se apague
Até que desistas de mim


Existem ontens?



Estás errada, já te disse.
Ontem não nos vimos,
ontem não falámos.
Dizes que dissemos mas não ouvi.
Estava noutro lado.
Ontem foi daqueles dias em que saimos por ruas diferentes,
daquelas que não se cruzam,
daquelas que não se tocam,
daquelas que não se veem.
Ontem não nos tocámos, nem com a voz,
porque era impossivel.
O que parece ter sido não foi,
o que foi esqueci.
Porque ontem não te vi,
vi-te a sombra
que a lua sarcástica me deu,
mas não a ti.


segunda-feira, 7 de agosto de 2017

Pétalas



Uma flor não é uma flor
É uma cor, uma dança colorida, uma palete de vida
É um cheiro, são cheiros, é perfume
Misturado com terra húmida e seca
É o zumbido dos insectos
E o suave empurrão da brisa no seu caule
Uma flor é a dor da deciduidade
O desmontar breve da beleza singular
Uma flor, fragilidade
Canção ao luar, canção breve, exaltada
Da beleza singular, da dor da deciduidade
Da secura da terra, do cheiro da humidade
Da ferida saudade, dessa flor
Essa flor


domingo, 6 de agosto de 2017

Non sense



A morte é uma puta com classe...



Há sempre uma estrada que não percorreste, um caminho por inventar, uma musica nova a trautear. 
Há a promessa de frescura e aventura. 
E há a beleza contemplativa, o pulsar forte da vida, numa veia atrevida. Há a certeza da morte, mas acredito na sorte e na Santa Trindade, cada vez mais com a idade. 
Há o equilíbrio torto e o corvo morto, na berma da estrada perdido, mesmo por baixo de um aviso que diz: Perigo!Derrocada.
E esta vida tão malvada que nasce baptizada de morte; ganha sempre o mais forte, mesmo quando ganha nada.
E há de novo uma estrada, uma conversa sem nexo, uns sapatos estragados, uma fome, uma sede, um frio tão cerrado e um chaparro ali à frente. 
Vou ou não vou? 
É indiferente.




sexta-feira, 4 de agosto de 2017

Fragilidade sentimental


There's always a strange feeling that something's bizarre in me



Não te vás, queda-te junto a mim
Sinto-te o calor do corpo
Sinto-te a forma ondulante
Preciso de ti
Se te vais é o fim
Fico praqui, corpo morto
Perdido no teu instante
Não te vás, chega-te a mim
O dia não precisa de ti
O mundo não pára sem ti
Mas eu sem ti não tenho mundo
Fico perdido e, no fundo,
Temo por mim se não te sentir aqui.



Blind date



Na rua escura de passos compridos mas cadenciados,
calcando poças de água, e marcando as sombras anónimas que me seguem,
fui...
percorri travessas solitárias e veredas nuas
Em mim, passeei comigo, solitário de mim
e quando a lua apareceu,
vieste e ficaste a meu lado.
O meu lado cinzento...
Fizemos as pazes e, à sombra da noite, sentimos por fim a paz entre nós.
E em paz seguimos,
pelas ruas escuras,
pelas travessas solitárias, acompanhados de nós,
de mãos mal dadas, mas unidas
e junto ao rio nos detivemos
e em silencio acordámos
na tranquilidade que nos devemos.
Foste quando a lua se escondeu numa nuvem tardia,
mas sei que com ela voltarás, outra noite,
noutro dia,quando for.






Errância ou O antídoto para o Amor



Hoje detive-me quando, apressadamente me repetia nos actos.
Não fui direito a ti; parei.
Bateu-me a diferença, combati docilmente o hábito e ganhei sem esforço.
Mudei de direcção e fui me a mim.
Por entre cigarros e copos de vinho,
numa esplanada de viela suja,
limpei me do habitual, purguei-me das práticas
e sosseguei.
Recordei aquela praia vazia e imensa que calquei em tempos
em que o silencio recortava as ondas, no meio do Atlântico
(ou seria o contrário
Revivi os tempos de errância que cultivava por prazer
e quando o candeeiro sujo, preso na parede da tasca
sobre a minha mesa de ferro forjado se acendeu,
levantei-me, larguei umas moedas, coloquei a mochila
e lá parti para a noite.


Doce solidão em tons escuros, diz a noite ao solitário, abraçando-o com o seu manto misterioso.


Des_Dita



Não mais desejar, não mais gostar, tão pouco amar.
Fazer não sentir, fazer não querer
E, sobretudo, não querer sentir ao fazer.
Conter, travar a emoção, apenas fazer.
Não deixar crescer, não deixar doer; reter.
Ignorar a beleza, cegar.
Ignorar as palavras, ensurdecer.
Passar de viés, não reconhecer.
Não dar, não deixar, blindar.
Fintar o destino, ignorar.
E no final deixar-se estar; aguardar
que algo que venha não queira ficar.
Porque já não há espaço neste lugar.

A desilusão é uma mulher de véu cinzento, cinta cingida e presença constante.

terça-feira, 1 de agosto de 2017

Do desespero olhado


Há olhares da dimensão do mar, um mar cuja distância se mede pela tristeza e a profundidade pelo desespero de não o poder navegar.
Senti ser a minha estrada esse mar, esse mar que me olhava, do azul da distância que nos separa.
E senti-me rodopiar nesse mar, nessa imensidão em turbilhão.
E perdi os sentidos na sua brisa suave, e no seu movimento ondulante senti-me marejar.
Um mar que deveria ser meu.
Por vezes um homem afunda-se na dor e, por mais que resista, afoga-se no magnético desejo que não consegue evitar.

segunda-feira, 31 de julho de 2017

Amor clandestino



Assim que a viu entendeu haver amores proibidos.
Viu-a pela primeira vez quando os seus olhos se tocaram; só os olhos sabem tocar com a fragilidade que a verdade encerra.
É deste modo que as pessoas se vêm a sério, olhos nos olhos, olhos acariciando olhos em conversas sem som nem segundos significados.
Quando os seus olhos se encontraram, tardava o inverno na teimosia do outono, compreendeu duas coisas: o encaixe das formas e a percepção de algo que ultrapassa o desejo.
Seria, sem dúvida, o sentimento que os uniria, um amor saltimbanco numa relação contrabandista.
À margem da lei dos “bons” costumes, encontros furtivos, mãos sedentas de afectos obrigatoriamente contidos mas intensos, em carícias discretas cuja marca perdura na pele.
Aqueles dois tornaram-se o outro lado do amor, o amor fora da lei, o amor bandido, não aprovado, não benzido, não permitido.
Amam-se à distância de uma sociedade, porque nada mais lhes é permitido, mas o seu amor é vadio e não se deixa subjugar.
Amam-se na clandestinidade da razão, na distância de uma mão, mas sentem toda a liberdade de partilha, como só dois amantes o sabem sentir.
E eu, velho niilista empedernido, testemunha de tal compromisso, invejo amargamente a forma discreta, mas tão intensa, como partilham os seus olhares.


A cumplicidade da pele



Agarra a minha mão com a tua mão e leva-me a passear, de mãos dadas, pelas ruas da cidade.
Não fales, nada digas, a fala é para os principiantes, as palavras para quem quer seduzir.
Não precisamos disso, já atingimos aquela cumplicidade dos sorrisos, dos gestos dissimulados, do simples aceno de cabeça.
Ambos sabemos que direcção quer o outro tomar, mesmo antes de o dar a entender.
E os nossos silêncios valem mais que compêndios de ciência social.
Por isso não digas nada, pega na minha mão com a tua mão, toma a teu cuidado esses dois mapas de vincos vividos e leva-me por aí ao sabor da pele que nos une.

Ingenuamente feliz, escreveu na parede enquanto trauteava uma canção:

Este é o momento perfeito
Para te esculpir na luz
Que me inunda os olhos


quinta-feira, 27 de julho de 2017

Terão as paredes sentimentos?


Na viela suja alguém pintou um anjo na parede. De fácies africana, tem as mãos no rosto numa expressão de sofrimento ou desespero. Olho com atenção o belíssimo desenho e verifico que tem uma asa cortada.
Sentado por baixo da imagem um sem-abrigo. Esfarrapado, segura na mão direita uma garrafa de vinho e mantém uma discussão com a sua mente. Terá um alter-ego ou é da bebida? Na esquina, posição aparentemente provocadora, uma prostituta procura aliciar um passante.
Esta parte da cidade não se encontra nos cartões postais, nem na publicidade feita para atrair os turistas.
Esta é a parte da cidade onde me perco por horas; percorro as estreitas ruas sempre húmidas. Curiosamente as outras ruas, as que são percorridas pelas pessoas “decentes” da cidade, não têm humidade e estão sempre pintadas.
Já me tenho perguntado se as ruas esquecidas choram o abandono, se não sentirão, sofridamente, o desdém de quem passa por engano ou apenas para atalhar caminho. Se sentem saudades doridas dos tempos em que eram novas, pintadas e iluminadas. Será a humidade sempre presente nestas velhas e sujas ruas fruto do seu desespero?
Sentirão as paredes o desprezo de quem por elas passa?
As ruas e vielas que percorro nos meus momentos de introspecção, são sujas, tristes e húmidas. Assim como os meus pensamentos! Por isso as procuro; procuro uma paisagem onde possa mimetizar o estado de espírito; é uma terapia, um cerimonial, uma insanidade inócua, um vazio desesperado por ser preenchido.
O anjo detalhadamente pintado na parede persegue-me; sinto como minha a sua expressão de perda, o seu desespero, a mutilação.
Revejo-lhe a face tapada pelas mãos de um realismo impressionante e parece-me ter notado algo brilhante parecido com uma gota de água escorrendo por baixo de uma das suas mãos. Teria sido ilusão de óptica, um preciosismo do artista ou o choro da velha parede?

quinta-feira, 13 de julho de 2017

Se ao menos soubesse



Vejo-te falar e não oiço
Duas linhas carnudas de sangue
desenhadas na maldade da perfeição
Traços de uma sensualidade que me ensurdece
Frágil se torna a luz no teu reflexo
Teus cabelos, ondas revoltas onde meus dedos se afogam
E tu uma praia
Onde as gaivotas esboçam no ar o meu desejo
E a areia a cama onde te quero
Cega é a ausência do teu toque
E negra a distância que nos separa


Se soubesses o quanto o pensamento me foge para ti
Se ao menos entendesses o quanto me prendes a razão



O meu mundo...



O meu mundo é um rio
As suas margens são do tamanho dos caprichos
Caprichos do tempo,
ensaios de sorrisos e lamentos
E as águas turvas de sentimentos
Emoções que não sedimentaram
Agruras que não assentaram
O meu rio é um mundo estéril
Nele libertei a esperança
Na forma de um barco à vela
Barco feito de papel
O meu mundo é uma pia
Pia de pedra fria
Benzida em contra-mão
O meu mundo é uma mão
Mão onde cabe o meu mundo
O meu mundo é um rio
Cujas margens, um capricho,
Cabem na palma da minha mão




quarta-feira, 5 de julho de 2017

Do efeito do sal iodado



Sentado na areia húmida da praia, as pequenas ondas brincam em frentes dos meus olhos. Sente-se uma brisa morna e os salpicos de água acalmam a pele queimada.
Cheira a iodo; caramba, desde que tenho recordações, este cheiro está sempre presente.
Com os dedos puxo lentamente o cabelo molhado para trás enquanto o sol apaga as últimas gotas de água na pele.
É uma tarde tranquila nesta praia silenciosa e os pés fervem na fina areia.
Ela iria gostar. Estou a divagar; eu iria gostar de saber que ela iria gostar de estar aqui deitada ao meu lado, partilhando a areia escaldante, a brisa morna, a água refrescante e o silêncio tranquilizante.
Passaram-se semanas e dela tenho apenas a imagem e a distância. Onde estará? Em que pensará? Será que está neste momento a partilhar, sem o sabermos, o mesmo pensamento? E se estiver, sentirá o calor que emana da areia, a frescura da pele molhada, a brisa suave que acaricia o cabelo e o cheiro iodado do mar? Terá ela guardado a minha silhueta num local seguro e acessível?
Demasiados pensamentos em formato interrogativo nesta tarde quente de verão, numa qualquer praia algures na costa, sob um forte cheiro iodado de décadas.
Por onde caminharão os seus pensamentos? Colidirão com os meus sentimentos?
Levanto-me, dirijo-me à beira mar e mergulho neste manto transparente.
Uma sensação de frio percorre-me agradavelmente a pele e quebra-me o fio do pensamento.
Não sei se é o fluxo do vento, o sentido da corrente ou a silhueta feminina que me deixa à deriva.
Sei que cheira intensamente a iodo e a sal.