sábado, 3 de junho de 2017

Íntimos Segredos



Gosto de longos silêncios e de palavras olhadas ; uma paisagem selvagem, desusada, obsoleta.
Gosto de caminhos esquecidos, palmilhados ao som do vento, que me levam a aldeias que desconheço; de noites escuras, de luares cheios e de cheiros de ervas molhadas.
Gosto de marés cheias e vagas enormes, de rochedos pintados de algas verdes, em praias de areia deserta.
Gosto de sentir o sal do mar a secar-me a pele.
Gosto de uma falésia ao despontar do dia e da humidade fria do nevoeiro.
Gosto de apanhar uma pedra e descobrir que tem um fóssil, de lhe dar um nome e levá-lo para casa.
Gosto de olhar à volta e descobrir que só eu estou ali, de subir uma colina e, sentado no topo, observar tudo em redor.
Gosto de me sentar em alpendres de madeira de casas de granito, em tardes de Maio, sentindo o cheiro quente da flor de tília.
Gosto de manipular palavras simples, dançando em pontas de carvão sobre folhas alvas.
Gosto do barulho dos regatos em troços de montanha.
Gosto de portas, portas que se podem fechar ou abrir em função do desejo do momento; gosto delas maciças (e que não se desenhem traços psicológicos à custa desta simples manifestação).
Gosto de livros e do cheiro do papel, do cheiro do café e do seu sabor.
Gosto de coisas simples.
Gosto de gostar sem que se saiba que gosto
E gosto do gosto de gostar de ti.


quarta-feira, 17 de maio de 2017

Sobre a sobreposição de 2 espaços no tempo





O ritmo tem de ser coordenado entre os dois planos, em movimentos fluidos, apressurados que não apressados, gravitando em torno do verbo sentir.
Sugere-se começar com um ritmo de valsa lenta, numa curva ascendente, em que o clímax é antecipado por um rufar de tambores.
A acção transita para movimento aceleradamente descontrolado; os planos colapsam no espaço confinado; a horizontalidade perde o sentido.
O som torna-se abstracto, a paisagem desfocada e a força é puro instinto.
Os espaços colam e descolam para lá da razão.

E, depois de recuperar o fôlego...já se fumava!


quarta-feira, 3 de maio de 2017

Da linha hipnótica da boca


Vejo-te falar e não oiço
Duas linhas carnudas de sangue
desenhadas na maldade da perfeição
Traços de uma sensualidade que me ensurdece
Frágil se torna a luz no teu reflexo
Teus cabelos, ondas revoltas onde meus dedos se afogam
E tu uma praia
Onde as gaivotas esboçam no ar o meu desejo
E a areia a cama onde te quero
Cega é a ausência do teu toque
E negra a distância que nos separa


terça-feira, 2 de maio de 2017

E um belo dia tornas-te analfabeto de ti



Um dia, sem que o saibas, fecharás a penúltima página do teu livro, sem chegar a abrir a última.
Essa não a lerás, não saberás o que lá foi escrito, mas será a mais importante página da tua vida porque é lá que ficará registado o teu legado.
A última página será escrita a várias mãos, em diferentes caligrafias, em formatos emocionais diversos; e será escrita por tempo indeterminado, até que a última memória que de ti houver chegue à penúltima página do seu livro.
Tu, que por tanto tempo, escreveste uma história envolvendo tantos personagens, que sem o saberem, foram por ti ligados numa rede complexa de vivências, não terás a percepção de quando te será escrita a palavra fim.
Quem foste, o que foste para os outros, o que significou a tua vida, só o último dos teus personagens o saberá.
A ironia da situação é que nunca vestirás o fraque para receber o prémio Nobel, por muito bom que venha a revelar-se o teu livro.


segunda-feira, 24 de abril de 2017

Que se lixe a métrica



Vieram-me os olhos ao mundo
Numa golfada de ar
Surpresa em forma de dor
Pranto com sabor a sal
Companhia de vida
Em formato pendular
Vida quase sempre ausente
Hoje vejo o presente
Não vislumbro um futuro
E ao renegar o passado
Em passadas transviadas
Virei costas ao mundo
Tornei-me a sombra do nada

Do insano fingimento



Diz-se que um animal ferido pode enlouquecer da dor. Eu acredito e vou mais longe: um ser humano ferido nos seus sonhos pode perder a razão, pode não querer respirar, pode querer apenas ficar sentado, rodeado de silêncio, fitando algo, para lá do horizonte. Algo que só está lá para ele, que fica lá para ele, até que páre de respirar.
Há feridas que podem causar insanidade, dores que podem deixar cicatrizes, cicatrizes que não fecham.
É perigoso o jogo da paixão segundo as regras do desejo. E tal como esta musica se desenvolve num crescendo, até atingir o climax, assim pode evoluir a dor da ferida não cicatrizada, a dor não fechada, o desejo não atingido, a paixão não cumprida,
É tudo insanidade, só insanidade e lá no fundo, bem na curva do horizonte, a figura acena e sorri.


segunda-feira, 3 de abril de 2017

Brincar às palavras



Eu amo
tu amas
nós amamos
eu amo múltiplos
tu amas diversos
nós amamos multidões
Eu traio
tu trais
Nós não traímos
Somos o casal perfeito
As palavras
As palavras não têm sentimentos
As palavras expressam sentimentos
Os sentimentos
Os sentimentos dificilmente se expressam
Embora possam ser expressos
A imagem
A imagem é mais forte que o sentimento
A imagem é facilmente manipulada
As pessoas
As pessoas são facilmente manipuladas
e manipulam facilmente
As palavras de novo
As palavras que expressam sentimentos podem ser manipuladas
Novamente os sentimentos
Os sentimentos são manipulados e não têm palavras
O som
O som das asas expressam liberdade
Os sons podem ser recriados
Manipular
Manipular é recriar?
Expressar
Expressar sentimentos é manipular
O verbo manipular
Eu manipulo
tu manipulas
A pura diversão
Todos nos divertimos
O fim
e depois morremos

sábado, 25 de março de 2017

Alucinações em www.com ou Realidades em WiFi



Vozes sem rosto
Multidões sem forma
Cortadas por formas geométricas
A preto e branco
Céus de violetas
Em tons caqui
Fumos espessos
Escapam por entre os dedos
E a rua flui até ao seu fim
Ao meio um cruzamento
Ou será uma encruzilhada
Onde mulheres se perdem
Se mostram, se expõem
Um red light district.com
Em formato de bolso
E os homens espumam
(os homens espumam sempre e facilmente)
Os homens agitam-se
Os olhos excitam-se
Em céus de violetas
Com tons de caqui
Conversas estudadas
Frases usadas
Dirigidas, manipuladoras
Conversas pobres
Que acabam em trapos espalhados no chão
E os céus de violetas anunciam tempestade
E há sempre uma nova praia
Uma enseada à espera de ser descoberta
E um porto de abrigo usado, desgastado, devoluto
A cabeça estala, a dor agudiza
A noite vai longa, quase morta
E o copo nunca esteve vazio


Reflexos vidrados


Acordei dorido
Quebrado pelo peso do que sinto
Fatigado desta luta fratricida
Hoje é apenas mais um dia
Uma soma sem significado
Uma subtracção existencial
Hoje o céu é o mesmo de outros dias
E as horas são repetidas
Os sons são ecos
E os ecos imagens que não queria
Não pedi para acordar
Não rezei por mais um dia
Não gritei por justiça
Nem concebo um perdão
Mas anseio por uma paz
Que não consigo expressar
Em simulacros de escrita
Sem ter dormido, acordei
Em contagem decrescente

quarta-feira, 8 de março de 2017

O vinil do amor

Lado A

Sonha.
Sonha um sono infantil, uma aventura sem nexo, mas sonha e no sonho sorri. Foge da realidade, descansa a cabeça na almofada e deseja viver, inconsciente, uma felicidade. E, em sonhos, sorri. Sê feliz, mesmo que seja só a fingir.



LADO B

E gritou, gritou bem alto em silêncio. E chorou uma tempestade de lágrimas desidratadas a dor que, no peito, o quebrava.
Sentiu-se impotente, sentiu-se amputado do seu amor. E desta vez gritou em desespero, um grito horripilante, um uivo de lobo solitário. As chagas da memória abriram e tornaram-se pústulas hediondas.
Das costas, dois fios de sangue, duas asas amassadas; asas de desejo, desejo arrancado pela raiz.
E não quis saber do sol, não sentiu o vento morno, ignorou quem passava; olhos raiados de um frio cortante. Não mais a luz, não mais a cor, apenas o luto derrotado da sua arrogância. E errante se perdeu nas vielas escuras do desnorte.


domingo, 29 de janeiro de 2017

Geração transfronteiriça

Texto deprimente para avançados de vida ou, a porra da vida passou por mim de carrinho


Se tens a minha idade, andaste numa escola primária, usaste um quadro de ardósia, paus de giz branco, sentavas-te num banco de madeira, tampo inclinado. Os teus pais deram-te um estojo com lápis de carvão, esferográfica Bic, borracha, afiadeira. O teus professor obrigava-te a fazer contas de cabeça e tiveste de decorar as dinastias, a divisão administrativa do País (ainda um Império de sonhos tresloucados), o nome das serras, dos rios e mais uma série de coisas “inúteis”, que os jovens de hoje, com um clique, descobrem num minuto na Internet.
Ao fim de alguns anos a penar de lápis e borracha na mão, com um pouco de sorte recebeste uma calculadora. Se foste para a faculdade, começaste a ouvir falar de uns equipamentos muito grandes, chamados computadores, que permitem fazer rotinas de cálculo complexo; antes tens de aprender umas estranhas linguagens, a que chamam linguagem de programação e aprender a furar uns cartões. Os computadores são máquinas enormes, em enormes salas e há longas filas para quem quer programar.
Acabas a faculdade ou o 12º ano e arranjas emprego. Os projectos demoram semanas a fazer, tudo à mão.
Um belo dia o teu chefe dá-te para as mãos um computador de mesa, com uns programas de cálculo, outros de texto, uns programas de desenho e uma coisa que se chama e-mail e lá tens tu de aprender tudo porque os teus jovens colegas, uma geração mais novos, já aprenderam a usar aquilo tudo na escola. Sentes-te deslocado, este não é o mundo em que te formaram e tens de aprender tudo de novo, porque os empregos escasseiam, a concorrência dos mais novos é feroz e eles levam-te vantagem com essas novas tecnologias. Esforças-te por aprender, a tua experiência já não tem qualquer valor; os novos gestores olham para ti como um técnico caro e o mercado de emprego tem gente disponível e a mais baixos custos.
Conforta-te, foste criado numa sociedade que vivia ao ritmo da vida e dos ponteiros do relógio e, de repente, vives numa sociedade de bytes, megabytes e gigabytes.
Aderes aos computadores, deslumbras-te pela Internet e pelos telemóveis, rendes-te completamente às novas tecnologias. Este novo mundo permite-te quase tudo sem teres de sair de casa. De repente descobres que não tens privacidade, expuseste completamente a tua vida.
Pertences a uma geração que viu morrer um conceito social e nascer outro completamente diferente e, podes sentir-te deslocado ou mesmo perdido com os novos valores sociais. Já não vives na tua aldeia, vila ou pequena cidade, és um cidadão global e a dimensão do teu novo mundo é assustadora.
Tens o direito à diferença e à indignação, mas há muito que perdeste essas qualidades e não queres ser visto como um “marginal”. Ensinaram-te que ser diferente pode ter um preço demasiado alto, por isso resignas-te, inconformado contigo. E essa dualidade consome-te, roí-te o amor-próprio e deixa-te amargo.
Descansa, morrerás como qualquer outro e, em pouco tempo, já ninguém se lembrará de ti.
Consola-te, a tua morte é coisa que não terás de programar.



sexta-feira, 13 de janeiro de 2017

Manifesto viperino

"Num povo ignorante a opinião pública representa a sua própria ignorância."Fonte - MáximasAutor - Maricá , Marquês
"O desprezo é a forma mais subtil de vingança."Autor - Gracián y Morales , Baltasar

Se procuras poemas de amor podes parar por aqui. Hoje não há.
Frases bonitas? Talvez nos vizinhos; é provável que tenham feito umas transcrições interessantes doutro alguém que não suas. É o mérito de fazer bem nada fazendo (ver exemplos acima; imaginá-los sem referência e decerto entenderão o figurão que se pode fazer). Os exemplos foram tirados ao acaso, numa minuciosa pesquisa de 42 horas.
Hoje o dia está aziago: não há nuvens, não há frio nem, tampouco, chuva.
Os passarinhos não andam malucos, os cães estão desaluados e o canário da vizinha irrita-me solenemente, ou seja, os canais de televisão estão cada vez mais horrorosos.
Cansam-me as verdades hipócritas, vestidas por medida para a ocasião; cansam-me as espertezas cultas mal escritas, mal alinhavadas e muito pouco paridas.
Apetece-me um prado florido, flores lindíssimas e bem cheirosas para poder pisar à vontade e com toda a convicção.
Irrita-me a canseira de nada fazer, a inércia do movimento aceleradamente retardado e a porta da garagem pendurada pelos gonzos.
Estou farto de políticos, apolíticos, paralíticos da opinião e apócrifos.
Não me apetece ter paciência para ser paciente.
Não me apetecem amores, desamores, amizades, rancores, ciúmes e favores; se vierem acompanhados de uma caixa de chocolate preto belga com cerca de 78% de cacau repensarei a minha opinião. Beijinhos, hoje não por favor; podem sempre mandar por correio registado, não esquecendo o código postal e o nº da porta.
Antitabagistas ao largo, de preferência num barco a naufragar, bem no meio do mar.
Só penso em poltronas, (e por que não matronas) , uma música escolhida por mim-condição obrigatória neste dia- maço de tabaco ao lado e um isqueiro funcional porque, para disfuncional já chego eu.

Que Deus vos abençoe que é a sua obrigação; eu quero mais é portar-me mal!
E se este texto tiver algum erro, que se dane...

quarta-feira, 28 de dezembro de 2016

Talvez


Life is good
Death is great




Um dia,
talvez um dia,
me atreva a dizer-te que te amo
Quem sabe consiga que as palavras fluam,
facilmente, e te faça rasgar a face num sorriso fremente
Um dia,
quem sabe um dia,
eu te prenda nos meus braços
e te sussurre ao ouvido
que és tu o meu mundo.

Um dia,
sei que um dia,
te farei sentir especial.
Tão única e imperdível
quanto a luz do sol

E temo,
e desconfio, que nesse momento,
te possa irremediavelmente perder...
para sempre


Da perda provocada pelo piscar dos olhos


No intervalo de dois sussurros
Um olhar desviado
Atenção mascarada
Uma sombra fugidia
E um assomo de vida
Assim se inicia o desejo
Não sei quem era, não a vejo
Só sei que me prendeu
Sombra por detrás de um véu
Imagino-lhe mil faces
Sinto-lhe mil contrastes
Não sei o que me deu
(Só sei que me prendeu)
Sinto-lhe o cheiro suspenso no ar
Sigo-lhe o rasto a pairar
Mas não a consigo identificar
Perdi-a no espaço de um olhar


domingo, 20 de novembro de 2016

Memórias Andaluzas


Era um jardim, junto a um rio, um velho rio afogando-se no mar, pejado de pequenas ilhotas, vivendo ao ritmo das marés.
Era o verão nesse jardim, um calor escaldante de terras do sul, terras onde outrora se falava árabe. E o cheiro intenso do jasmim, plantado e crescido nesse jardim, junto ao velho e preguiçoso rio à sorte das marés.
Havia um livro numa esplanada coberta por um toldo enorme e osgas caçando nas paredes de uma ruína.
E o livro contava uma história quente como as tardes desse sul outrora árabe e intensa como a transpiração desse jasmim plantado no jardim.
Havia o ruído do silêncio quente que se espraiava no ar e o rio afagando as margens em maré alta.
E sombras apanhando moluscos na baixa maré de que se despia esse rio velho e cansado.
Ao longe, na outra margem, muros de tijolos amarelecidos, ameias meio caídas, esqueleto de outras poses, um castelo. Não sei se as paredes falaram árabe, mas decerto viram envelhecer esse rio preguiçoso, a quem as marés coçam o leito arenoso, em tarde quentes e silenciosas.
Havia um livro, uma esplanada, um silêncio fino, um rio brando e um castelo decrépito.
Havia paz e um aroma intenso a jasmim que me perfuma a memória.


terça-feira, 6 de outubro de 2015

Itinerância errática


Cruzando ruas sem destino, 
andando apenas, sem norte, 
observo quem por mim passa, 
num jogo de itinerância errática, 
como quem foge da morte. 
Sinto a pressa dos atrasados, 
os sinais corporais dos namorados, 
que em lenta passada cruzam mãos, 
e lambem sofregamente a emoção. 
E sinto o deslevo dos sem abrigo 
pelos seus sacos de estimação. 
Sinto dor e presunção, 
incompreendidos de ocasião, 
e gente cheia de solidão. 
Sinto o gato e o cão, 
no cheiro a mijo no chão. 
Encosto-me à árvore no passeio, 
faço-o não sei porquê, 
queimando cigarros, dormente, 
porque neste vazio de tanta gente, 
quem se cruza já não se vê.


Frágeis são os fios da teia de que te teces

sexta-feira, 2 de outubro de 2015

Baixas são as marés da bendita solidão





É na areia húmida de uma baixa-mar tranquila, em fim de tarde vazia, que me sinto.
Gaivotas banham-se ruidosamente num charco que a maré cheia esqueceu de resgatar. O sol força o horizonte num laranja amarelado. Passeio na interface molhada sem destino; a pequena ondulação acaricia-me os pés.
Não sei se alguma vez pisaste esta areia molhada, num fim de tarde de sol cansado de luzir por um dia; não sei sequer se alguma vez pisaste a areia desta praia com o olhar.
Não deixo de te sentir a mão, esse odor quente casando com o cheiro do iodo salgado.
Não sei onde estás neste preciso momento em que a água tranquila brinca a meus pés.

Sei que te sinto aqui, agora, neste local onde as gaivotas se lavam, onde a praia está vazia e o mar é o teu corpo enrolado no meu.


sábado, 26 de setembro de 2015

Dos labirintos da dor

Eles são frágeis.
No seu estado apaixonado, eles são frágeis. São como figuras de cristal.
Vivem um sonho lindo, vivem um para o outro; são o mundo do outro. E por isso são frágeis.
O estado de embriaguez emocional torna-os cegos à realidade, imunes às imperfeições, alheios aos sinais de perigo.
Se a paixão se mantiver entre os dois, podem viver cegamente toda a vida; será uma vida bonita, partilhada com carinho. Serão duas almas privilegiadas, saboreando uma vida de felicidade; coisa rara.
No entanto, se o deslumbramento acabar para um deles, se a atenção se virar para outro lado e não houver a hombridade de o revelar, mais cedo ou mais tarde o outro começa a retomar a visão.
E a realidade bate-lhe com força, esbofeteia-o violentamente, atordoa-o, deixa-o profundamente magoado.
Se ainda estiver apaixonado, parte-se em milhares de fragmentos, qual peça de cristal.
Se o seu coração for puro, guardará para si a dor, dirá que aprendeu uma lição e seguirá a sua vida com a esperança de encontrar um novo amor.
Se quisermos ser realistas, facilmente aceitaremos outro desfecho: poderá eventualmente guardar para si a dor, deixará propositadamente a ferida cicatrizar mal, de modo a ficar com um alerta para o resto da vida, tornar-se-á cínico nas relações.
E outro alguém frágil pagará.


sexta-feira, 18 de setembro de 2015

Da luz pálida da esperança







Espero-te
Quando todos tiverem desistido de esperar
Quando o som da rua se calar
E os amantes se despedirem
Espero-te
Quando os sinos da igreja se atrasarem
E os cães vadios se acalmarem
Quando os barcos atracarem
Os botões da rosa se fecharem
E o violino parar de chorar
Espero-te
Mesmo que a madeira se transforme em bengala
E o Inverno se instale de vez
E já não tenha voz para te dizer
Tudo quanto guardei nesta espera
Espero-te
Nessas veredas perdidas
onde as sombras jogam com as vidas
Porque sempre te esperei
Mesmo quando o não sabia


segunda-feira, 14 de setembro de 2015

Vidas, secas vidas


A inocência termina com o travo da injustiça
Segue-se a percepção da morte
A ideia expande, a visão aclara e intimida
O conceito queima, inquieta, intranquiliza
A morte ganha vida, torna-se palpável.
De repente nasce a paixão
Esta trás consigo o desejo
Tudo se confunde e surge o amor
Ama-se e deseja-se, deseja-se e ama-se,
Deseja-se sem amar e quer-se ter e desejar ainda mais
Irrompe a posse e tudo se agrava
A posse é ciumenta, intolerante, agressiva, desconfiada
É um cavalo sem freios, um touro enraivecido, um tornado.
E o ser humano completa-se
O Diabo dança e Deus rejubila
A vida tumultua, a mente turva, os movimentos tolhem
Subitamente a morte aparece, abraça e estabelece o caminho
O ciclo fecha-se com um amargo sabor de injustiça (a vida soube a pouco)
O ciclo fecha-se, mas não na inocência em que começou
Coloca-se o morto no meio de uma sala
Com rendas e flores e um lenço na cara
Junta-se a família, os amigos e os conhecidos
Juntam-se, também, os que passam por lá
Curiosos por ver quem já não está
Comenta-se o defunto: uma perfeição agora que está morto
Veste-se o preto, o azul e o cinzento
Vestem-se lágrimas e esgares de dor
Passeia-se o dito até ao jardim
Atira-se ao solo e cobre-se por fim.
Fecha-se o ciclo, vamos a outro
Haja mais partos, casamentos e mortos

sábado, 12 de setembro de 2015

A inevitabilidade de um segundo




Retardada se faz a hora do desespero

Quando em teu regaço repouso

Nele o tempo pára e eu descanso

Sabendo que quando minha cabeça erguer

Será mais um adeus; até quando?

E um mar de saudade soluçada

E um não saber em que horizonte

Sentirei em mim, de novo, o teu regaço

O afago suave dessa mão nos meus cabelos,

O doce embalo da voz

Que me trava o desassossego

e me congela o tempo

No vidro riscado do meu relógio.


sexta-feira, 11 de setembro de 2015

Ondas de calor tatuadas




Encostei-me, fechei os olhos e, quieto, fiquei a ouvir aquela música envolvente.
A melodia suave e a voz arrastada, quase forçada a cantar, trouxe-me a tua imagem.
O calor da tarde beijava-me a face e o teu rosto, chapéu-de-sol providencial, aportou recordações simpáticas, mornas e envolventes. As recordações juntam-se em novelos e desfiam-se, inevitavelmente, quando começamos a usá-las. São fios de tempo, retratos de destinos partilhados, por vezes sofridas, outras sorridentes. Memórias são orgasmos neurónicos.
Vieram em ondas, seguindo a corrente de ar quente de Agosto à sombra do teu rosto amornando a saudade. Sobre os telhados que ao longe desfilavam para mim, um farrapo de água percorrendo o horizonte.
Uma tranquila tarde de verão, um silêncio dourado, uma música envolvente e boas memórias por companhia. Não durou muito; repentinamente assaltou-me um pensamento:

A paixão que não é cuidada descamba inevitavelmente em amor
(Inconscientemente senti um desconforto)
Amor rima com dor
Caminho dos fascínios tolhidos
Dos encontros perdidos
De humores assassinados
De sofrimentos guardados
De sentimentos de posse exacerbados
Incontrolados

É o princípio do ódio
Rapidamente, interrompi a música, mandei passear as memórias, mudei a cadeira de posição e fiquei a ver passar os comboios.

Nem sempre é o que parece

e nem sempre parece o que é

domingo, 2 de agosto de 2015

SIROCO


Era o luar, uma silhueta e a sombra de uma mão
Percorrendo labirintos, meandros de emoção
A lua não descreve a visão
Translúcida, suada e quente
Um mar banhando o continente
Era a noite, era ardente
E o que a noite testemunha não se revela, não se descreve, não se conta
Apenas se sente


sábado, 6 de junho de 2015

Tempo suspenso

Esta noite eram três
O ponteiro dos minutos avariado
E eu acordado
Juntando pedaços dispersos de conversas
Retalhos de imagens
E restos de memórias
Lá colei uma história,
Que rasguei
Pelas quatro e pouco
Mas os poucos minutos
Eram os das três
Madrugadas agarradas a farrapos dispersos
Numa nuvem de pó
Que se deve ter dissipado pelas cinco
Já não recordo, mas aposto
Que os poucos minutos eram os das três
Talvez


sexta-feira, 5 de junho de 2015

Amanheceres ou dores de crescimento

Há quem amanheça nos braços de quem lhe entregou o corpo
E quem amanheça no sabor amargo de uma cama meia vazia, ou como se o estivesse.
Há quem amanheça sem saber que todos os dias tal acontece
Há-os que apenas anoitecem
E os que nada sabem da dança dos astros.

Metamorfoses


Metamorfoses são ampulhetas armadas em relógios digitais
_______________________________________________________
Não se trata de ti, nem tão pouco dos sussurros que julgas teus.
O sol não nasce por ti e o nevoeiro não desce sempre que precisas de passar despercebido.
Mostras-te altivo, alheio, seguro.
Pensas transmitir uma leveza rochosa.
Mas escondes-te sob o manto sedoso das penas que criaste.
Insensível à sensibilidade que promoves,
Plantas árvores de plástico e escreves frases desconexas
Alinhas por linhas desalinhadas, as linhas que alinhadamente constróis
E és uma sombra desbotada do teu reflexo esbatido nas gotas de chuva
Não! Não se trata de ti o choro de quem sofre
Nem o sorriso de quem gosta
Não se arredonda o calhau rolado só porque lhe admiras a forma
E não se criam silêncios porque gostas de os regar.
Nunca chegas tarde nem cedo, aliás nem sempre chegas
Mesmo quando, convencido, dizes ter chegado.
E, decididamente, nem sempre trata de ti o que de ti de facto se trata.

sábado, 14 de março de 2015

Do efeito da luz na vidraça



Não sei se é do efeito da luz na vidraça, do aroma da erva molhada ou do sussurro do vento no espanta espíritos. Talvez seja apenas uma calma induzida pelos fármacos ou a ilusão do tempo suspenso.
Sinto um sossego incomum, indolor e inebriante.
A aranha continua impávida a tecer a sua teia no bordo do vaso do jasmim.
Um jovem casal passa na rua. Na sua discussão cortam o fio que suspende o tempo interior.
Ele, agressivamente, questiona-a. Ela hesita.
Apetece-me interceder por ela, de tão óbvia e merecida a resposta, no entanto prefiro remendar o fio e voltar a suspender o tempo.
Sentado no sofá imagino um retrato, dessa outra que me entorpece, pendurado na parede branca, mesmo em frente. Pequeno, desenhado a carvão, apanhando-lhe as particularidades tão peculiares do rosto.
Ficava mesmo bem o retrato dela na parede branca, mesmo em frente do sofá.
Lamentavelmente, não quero dispor do tempo suspenso para a desenhar.
Os raios de sol perdem terreno no soalho, ou talvez seja apenas o efeito da luz na vidraça.
A aranha continua a sua interminável dança rendilhada no vaso e eu suspendo as pálpebras no fio da memória.


domingo, 8 de março de 2015

Borrões

Recordo te sobretudo de noite
No silêncio da noite, 
sob o manto de escuridão..
Recordo te todas as noites
Quando os outros dormem 
Quiçá recordando outros
Que lhes deixaram silêncios
Tal como tu 
Não o silêncio da noite
Nem o silêncio da voz…
Todas as noites, 
Quando a memória é mais viva
O meu ritual recomeça 
À sombra do silêncio
E é sobretudo de noite
Que a dor é mais pura
E brilha ao ritmo da (des)ilusão


sábado, 7 de março de 2015

Alma negra

Senti-te chegar silenciosa.
Uns indícios, discretos avisos, mas o suficiente para sentir que já me havias escolhido.
Sempre soube que virias, apenas não tinha data definida da tua chegada e não esperava que fosse tão discretamente.
Devo confessar que imaginava sentir-te chegar num frio dia de Inverno, sem chuva, apenas frio, apenas cinzento.
Contigo tudo é mistério e agora que sei que estás ao meu lado, a dúvida é por quanto tempo dado que não duvido que irás ficar comigo até teres cumprido a tua missão.
Já muito sobre ti escrevi, por vezes ansiando a tua vinda, mas a verdade é que, agora sei, nunca estamos verdadeiramente preparados para sentir o teu sopro sobre os ombros, a tua sombra sobre a nossa cabeça, o teu bafo ao nosso ouvido.
Chegaste, terei de me habituar à ideia de te partilhar por todo o lado, por todo o tempo. Agora o tempo tem outro significado, ganhou um novo peso, outra dimensão.
E eu passei a ter duas sombras.
Agora sinto ser importante catalogar as memórias, seleccionar as que de facto são importantes e livrar-me das restantes.
Quero reservar espaço para o que ainda falta armazenar e guardar, para usar até à exaustão, todas as boas experiências que vivi.
Quero aproveitar a tua companhia da melhor maneira: reler os livros que mais me marcaram, recordar as músicas de que mais gostei e voltar aos meus locais de culto.
Não me posso esquecer de voltar a passar uma tarde de Maio sentado naquele banco de granito, por baixo da centenária tília. Tem de ser em Maio para lhe sentir o aroma e colher as flores.
Se me permitires um desejo, é aí que eu quero despedir-me de ti, ao fim da tarde, quando o sol se começar a esconder por detrás da serra e o cheiro da terra se misturar com o intenso aroma da tília.
Só tens de ficar comigo até um qualquer Maio e eu prometo levar-te lá.
Senti-te chegar, silenciosa, discreta, envolvente, uma leve alteração na brisa, tal como sempre acontece quando o Verão se despede e o Outono se instala.


terça-feira, 24 de fevereiro de 2015

Silêncios

Há silêncios que aprecio 
São como brisas frescas em dias opressivamente quentes 
São momentos de paz em fases de lua conturbada 
Não são silêncios que se procurem 
Caem-me de repente e só tenho de os aproveitar 
Mesmo no meio de multidões, são fáceis de captar e dóceis, muito dóceis 

Há silêncios que procuro 
Silêncios que me permitem retomar o ritmo calmo da respiração 
Que me deixam falar para dentro, que me equilibram. 
Esses apenas atinjo quando me faço errante 
E errante parto sem destino em busca de locais isolados
De onde regresso refeito, revigorado, reconstruído.
 
Há silêncios negros, opressivos, dolorosos, ingratos
São fruto da desconstrução de ilusões
Borrões disfarçados de quadros
Cicatrizes em pretensas carícias 
Esses são os silêncios, de que não se fala e cuja marca permanece 

E, decerto, haverá o último dos silêncios 
E esse é uma incógnita que, desejo imaginar, será delicioso. 
Egoisticamente meu.