segunda-feira, 14 de agosto de 2017

E o asno cegou de dor



Hoje doí-me um mundo em cada segundo
Dói arrancar de mim um veio de luz
Vendo-a sorrindo pra mim de forma "frágil"
Dói abrir as mãos, apartar os braços, virar a cara
Por um pedido, por um clamor, por um medo tolo
Fere-me de morte sempre que a razão, o conforto, o temor
Vencem o desejo, a mais pura acendalha da vida, a paixão

O que as asas aproximaram,
As penas afastaram

E doí-me a inercia, a falta de reacção,
A aceitação não aceite
O baixar de braços, os braços amputados
O torpor, o estupor do destino,
Esse cabrão que abomino,
A mentira maior.
É a vida…não é não!
São as teias construídas,
São os nós de marinheiro
Os bons costumes castradores
Esses abutres dos Valores

Dói-me não conseguir arrancar esta dor
Que me magoa e corrói



sábado, 12 de agosto de 2017

Migração




Sei o quão frágil é respirar
E como engana o bater do coração
Mas a esperança é soberana
Mesmo pra quem a renega
Por mais dores que o passado traga

Por isso desejo, por isso rogo
Que venha o inverno
E me traga um bilhete teu
No seu vento selvagem
Me mova como um ponteiro de bússola
E me indique o norte

Na minha prece peço a coragem
Para partir sem pensar
Para ir sem hesitar
E finalmente te encontrar
E no teu calor me perder
Porque teu pretendo ser

Até que o inverno se acabe
Até que a memória se apague
Até que desistas de mim


Existem ontens?



Estás errada, já te disse.
Ontem não nos vimos,
ontem não falámos.
Dizes que dissemos mas não ouvi.
Estava noutro lado.
Ontem foi daqueles dias em que saimos por ruas diferentes,
daquelas que não se cruzam,
daquelas que não se tocam,
daquelas que não se veem.
Ontem não nos tocámos, nem com a voz,
porque era impossivel.
O que parece ter sido não foi,
o que foi esqueci.
Porque ontem não te vi,
vi-te a sombra
que a lua sarcástica me deu,
mas não a ti.


segunda-feira, 7 de agosto de 2017

Pétalas



Uma flor não é uma flor
É uma cor, uma dança colorida, uma palete de vida
É um cheiro, são cheiros, é perfume
Misturado com terra húmida e seca
É o zumbido dos insectos
E o suave empurrão da brisa no seu caule
Uma flor é a dor da deciduidade
O desmontar breve da beleza singular
Uma flor, fragilidade
Canção ao luar, canção breve, exaltada
Da beleza singular, da dor da deciduidade
Da secura da terra, do cheiro da humidade
Da ferida saudade, dessa flor
Essa flor


domingo, 6 de agosto de 2017

Non sense



A morte é uma puta com classe...



Há sempre uma estrada que não percorreste, um caminho por inventar, uma musica nova a trautear. 
Há a promessa de frescura e aventura. 
E há a beleza contemplativa, o pulsar forte da vida, numa veia atrevida. Há a certeza da morte, mas acredito na sorte e na Santa Trindade, cada vez mais com a idade. 
Há o equilíbrio torto e o corvo morto, na berma da estrada perdido, mesmo por baixo de um aviso que diz: Perigo!Derrocada.
E esta vida tão malvada que nasce baptizada de morte; ganha sempre o mais forte, mesmo quando ganha nada.
E há de novo uma estrada, uma conversa sem nexo, uns sapatos estragados, uma fome, uma sede, um frio tão cerrado e um chaparro ali à frente. 
Vou ou não vou? 
É indiferente.




sexta-feira, 4 de agosto de 2017

Fragilidade sentimental


There's always a strange feeling that something's bizarre in me



Não te vás, queda-te junto a mim
Sinto-te o calor do corpo
Sinto-te a forma ondulante
Preciso de ti
Se te vais é o fim
Fico praqui, corpo morto
Perdido no teu instante
Não te vás, chega-te a mim
O dia não precisa de ti
O mundo não pára sem ti
Mas eu sem ti não tenho mundo
Fico perdido e, no fundo,
Temo por mim se não te sentir aqui.



Blind date



Na rua escura de passos compridos mas cadenciados,
calcando poças de água, e marcando as sombras anónimas que me seguem,
fui...
percorri travessas solitárias e veredas nuas
Em mim, passeei comigo, solitário de mim
e quando a lua apareceu,
vieste e ficaste a meu lado.
O meu lado cinzento...
Fizemos as pazes e, à sombra da noite, sentimos por fim a paz entre nós.
E em paz seguimos,
pelas ruas escuras,
pelas travessas solitárias, acompanhados de nós,
de mãos mal dadas, mas unidas
e junto ao rio nos detivemos
e em silencio acordámos
na tranquilidade que nos devemos.
Foste quando a lua se escondeu numa nuvem tardia,
mas sei que com ela voltarás, outra noite,
noutro dia,quando for.






Errância ou O antídoto para o Amor



Hoje detive-me quando, apressadamente me repetia nos actos.
Não fui direito a ti; parei.
Bateu-me a diferença, combati docilmente o hábito e ganhei sem esforço.
Mudei de direcção e fui me a mim.
Por entre cigarros e copos de vinho,
numa esplanada de viela suja,
limpei me do habitual, purguei-me das práticas
e sosseguei.
Recordei aquela praia vazia e imensa que calquei em tempos
em que o silencio recortava as ondas, no meio do Atlântico
(ou seria o contrário
Revivi os tempos de errância que cultivava por prazer
e quando o candeeiro sujo, preso na parede da tasca
sobre a minha mesa de ferro forjado se acendeu,
levantei-me, larguei umas moedas, coloquei a mochila
e lá parti para a noite.


Doce solidão em tons escuros, diz a noite ao solitário, abraçando-o com o seu manto misterioso.


Amnésia


Com um pedaço de grafite
e de olhos bem fechados,
esbocei-te os traços da cara.
A preto te refiz na memória do papel
De olhos bem fechados mirei a criação
Eras tu, tal como te vi
da primeira vez que nos desencontrámos,
por sinal no único encontro que marcámos.
De olhos bem fechados, arranjei te uma moldura
e recriei um prego com dois traços.
Com ele pendurei te na parede,
mesmo em frente da janela rasgada,
para que ficasses luminosa.
Agora sento-me à tua frente,
num ritual diário
e recordo com deleite a primeira vez que te não vi.

Des_Dita



Não mais desejar, não mais gostar, tão pouco amar.
Fazer não sentir, fazer não querer
E, sobretudo, não querer sentir ao fazer.
Conter, travar a emoção, apenas fazer.
Não deixar crescer, não deixar doer; reter.
Ignorar a beleza, cegar.
Ignorar as palavras, ensurdecer.
Passar de viés, não reconhecer.
Não dar, não deixar, blindar.
Fintar o destino, ignorar.
E no final deixar-se estar; aguardar
que algo que venha não queira ficar.
Porque já não há espaço neste lugar.

A desilusão é uma mulher de véu cinzento, cinta cingida e presença constante.

terça-feira, 1 de agosto de 2017

Do desespero olhado


Há olhares da dimensão do mar, um mar cuja distância se mede pela tristeza e a profundidade pelo desespero de não o poder navegar.
Senti ser a minha estrada esse mar, esse mar que me olhava, do azul da distância que nos separa.
E senti-me rodopiar nesse mar, nessa imensidão em turbilhão.
E perdi os sentidos na sua brisa suave, e no seu movimento ondulante senti-me marejar.
Um mar que deveria ser meu.
Por vezes um homem afunda-se na dor e, por mais que resista, afoga-se no magnético desejo que não consegue evitar.

segunda-feira, 31 de julho de 2017

Amor clandestino



Assim que a viu entendeu haver amores proibidos.
Viu-a pela primeira vez quando os seus olhos se tocaram; só os olhos sabem tocar com a fragilidade que a verdade encerra.
É deste modo que as pessoas se vêm a sério, olhos nos olhos, olhos acariciando olhos em conversas sem som nem segundos significados.
Quando os seus olhos se encontraram, tardava o inverno na teimosia do outono, compreendeu duas coisas: o encaixe das formas e a percepção de algo que ultrapassa o desejo.
Seria, sem dúvida, o sentimento que os uniria, um amor saltimbanco numa relação contrabandista.
À margem da lei dos “bons” costumes, encontros furtivos, mãos sedentas de afectos obrigatoriamente contidos mas intensos, em carícias discretas cuja marca perdura na pele.
Aqueles dois tornaram-se o outro lado do amor, o amor fora da lei, o amor bandido, não aprovado, não benzido, não permitido.
Amam-se à distância de uma sociedade, porque nada mais lhes é permitido, mas o seu amor é vadio e não se deixa subjugar.
Amam-se na clandestinidade da razão, na distância de uma mão, mas sentem toda a liberdade de partilha, como só dois amantes o sabem sentir.
E eu, velho niilista empedernido, testemunha de tal compromisso, invejo amargamente a forma discreta, mas tão intensa, como partilham os seus olhares.


A cumplicidade da pele



Agarra a minha mão com a tua mão e leva-me a passear, de mãos dadas, pelas ruas da cidade.
Não fales, nada digas, a fala é para os principiantes, as palavras para quem quer seduzir.
Não precisamos disso, já atingimos aquela cumplicidade dos sorrisos, dos gestos dissimulados, do simples aceno de cabeça.
Ambos sabemos que direcção quer o outro tomar, mesmo antes de o dar a entender.
E os nossos silêncios valem mais que compêndios de ciência social.
Por isso não digas nada, pega na minha mão com a tua mão, toma a teu cuidado esses dois mapas de vincos vividos e leva-me por aí ao sabor da pele que nos une.

Ingenuamente feliz, escreveu na parede enquanto trauteava uma canção:

Este é o momento perfeito
Para te esculpir na luz
Que me inunda os olhos


quinta-feira, 27 de julho de 2017

Terão as paredes sentimentos?


Na viela suja alguém pintou um anjo na parede. De fácies africana, tem as mãos no rosto numa expressão de sofrimento ou desespero. Olho com atenção o belíssimo desenho e verifico que tem uma asa cortada.
Sentado por baixo da imagem um sem-abrigo. Esfarrapado, segura na mão direita uma garrafa de vinho e mantém uma discussão com a sua mente. Terá um alter-ego ou é da bebida? Na esquina, posição aparentemente provocadora, uma prostituta procura aliciar um passante.
Esta parte da cidade não se encontra nos cartões postais, nem na publicidade feita para atrair os turistas.
Esta é a parte da cidade onde me perco por horas; percorro as estreitas ruas sempre húmidas. Curiosamente as outras ruas, as que são percorridas pelas pessoas “decentes” da cidade, não têm humidade e estão sempre pintadas.
Já me tenho perguntado se as ruas esquecidas choram o abandono, se não sentirão, sofridamente, o desdém de quem passa por engano ou apenas para atalhar caminho. Se sentem saudades doridas dos tempos em que eram novas, pintadas e iluminadas. Será a humidade sempre presente nestas velhas e sujas ruas fruto do seu desespero?
Sentirão as paredes o desprezo de quem por elas passa?
As ruas e vielas que percorro nos meus momentos de introspecção, são sujas, tristes e húmidas. Assim como os meus pensamentos! Por isso as procuro; procuro uma paisagem onde possa mimetizar o estado de espírito; é uma terapia, um cerimonial, uma insanidade inócua, um vazio desesperado por ser preenchido.
O anjo detalhadamente pintado na parede persegue-me; sinto como minha a sua expressão de perda, o seu desespero, a mutilação.
Revejo-lhe a face tapada pelas mãos de um realismo impressionante e parece-me ter notado algo brilhante parecido com uma gota de água escorrendo por baixo de uma das suas mãos. Teria sido ilusão de óptica, um preciosismo do artista ou o choro da velha parede?

quinta-feira, 13 de julho de 2017

Se ao menos soubesse



Vejo-te falar e não oiço
Duas linhas carnudas de sangue
desenhadas na maldade da perfeição
Traços de uma sensualidade que me ensurdece
Frágil se torna a luz no teu reflexo
Teus cabelos, ondas revoltas onde meus dedos se afogam
E tu uma praia
Onde as gaivotas esboçam no ar o meu desejo
E a areia a cama onde te quero
Cega é a ausência do teu toque
E negra a distância que nos separa


Se soubesses o quanto o pensamento me foge para ti
Se ao menos entendesses o quanto me prendes a razão



O meu mundo...



O meu mundo é um rio
As suas margens são do tamanho dos caprichos
Caprichos do tempo,
ensaios de sorrisos e lamentos
E as águas turvas de sentimentos
Emoções que não sedimentaram
Agruras que não assentaram
O meu rio é um mundo estéril
Nele libertei a esperança
Na forma de um barco à vela
Barco feito de papel
O meu mundo é uma pia
Pia de pedra fria
Benzida em contra-mão
O meu mundo é uma mão
Mão onde cabe o meu mundo
O meu mundo é um rio
Cujas margens, um capricho,
Cabem na palma da minha mão




quarta-feira, 5 de julho de 2017

Do efeito do sal iodado



Sentado na areia húmida da praia, as pequenas ondas brincam em frentes dos meus olhos. Sente-se uma brisa morna e os salpicos de água acalmam a pele queimada.
Cheira a iodo; caramba, desde que tenho recordações, este cheiro está sempre presente.
Com os dedos puxo lentamente o cabelo molhado para trás enquanto o sol apaga as últimas gotas de água na pele.
É uma tarde tranquila nesta praia silenciosa e os pés fervem na fina areia.
Ela iria gostar. Estou a divagar; eu iria gostar de saber que ela iria gostar de estar aqui deitada ao meu lado, partilhando a areia escaldante, a brisa morna, a água refrescante e o silêncio tranquilizante.
Passaram-se semanas e dela tenho apenas a imagem e a distância. Onde estará? Em que pensará? Será que está neste momento a partilhar, sem o sabermos, o mesmo pensamento? E se estiver, sentirá o calor que emana da areia, a frescura da pele molhada, a brisa suave que acaricia o cabelo e o cheiro iodado do mar? Terá ela guardado a minha silhueta num local seguro e acessível?
Demasiados pensamentos em formato interrogativo nesta tarde quente de verão, numa qualquer praia algures na costa, sob um forte cheiro iodado de décadas.
Por onde caminharão os seus pensamentos? Colidirão com os meus sentimentos?
Levanto-me, dirijo-me à beira mar e mergulho neste manto transparente.
Uma sensação de frio percorre-me agradavelmente a pele e quebra-me o fio do pensamento.
Não sei se é o fluxo do vento, o sentido da corrente ou a silhueta feminina que me deixa à deriva.
Sei que cheira intensamente a iodo e a sal.


terça-feira, 4 de julho de 2017

Na sombra das negras asas





Não deixes que esses braços te abracem,
No calor seguro do seu aperto, acabarás estrangulada
Bloqueia os frémitos que a tua pele te transmite
Quando por ela ele passeia a sua mão forte, suavemente
Não bebas a ilusão dos seus lábios,
Não te deixes embalar pela sua voz segura e sensual
Não lhe oiças o riso
Não permitas sonhá-lo; não o penses
E sobretudo não te prendas nos seus olhos
Podes perder-te
Resiste ao desejo louco de o querer
Ninguém consegue possuir o etéreo
Ainda assim, ele levar-te-á para o outro lado da razão
E tu iras, pela sua mão, perdida de ti
Ausente da realidade
Areia solta por entre os dedos de uma mão


quinta-feira, 29 de junho de 2017

O círculo quebrado


A inocência termina com o travo da injustiça
Segue-se a percepção da morte
A ideia expande, a visão aclara e intimida
O conceito queima, inquieta, intranquiliza
A morte ganha vida, torna-se palpável.
De repente nasce a paixão
Esta trás consigo o desejo
Tudo se confunde e surge o amor
Ama-se e deseja-se, deseja-se e ama-se,
Deseja-se sem amar e quer-se ter e desejar ainda mais
Irrompe a posse e tudo se agrava
A posse é ciumenta, intolerante, agressiva, desconfiada
É um cavalo sem freios, um touro enraivecido, um tornado.
E o ser humano completa-se
O Diabo dança e Deus rejubila
Subitamente a morte aparece, abraça e estabelece o caminho
O ciclo fecha-se com um amargo sabor de injustiça (a vida soube a pouco)
O ciclo fecha-se, mas não na inocência em que começou
Coloca-se o morto no meio de uma sala
Com rendas e flores e um lenço na cara
Junta-se a família, os amigos e os conhecidos
Juntam-se, também, os que passam por lá
Curiosos por ver quem já não está
Comenta-se o defunto: uma perfeição agora que está morto
Veste-se o preto, o azul e o cinzento
Vestem-se lágrimas e esgares de dor
Passeia-se o dito até ao jardim
Atira-se ao solo e cobre-se por fim.
Fecha-se o ciclo, vamos a outro
Haja mais partos, casamentos e mortos


sábado, 3 de junho de 2017

Íntimos Segredos



Gosto de longos silêncios e de palavras olhadas ; uma paisagem selvagem, desusada, obsoleta.
Gosto de caminhos esquecidos, palmilhados ao som do vento, que me levam a aldeias que desconheço; de noites escuras, de luares cheios e de cheiros de ervas molhadas.
Gosto de marés cheias e vagas enormes, de rochedos pintados de algas verdes, em praias de areia deserta.
Gosto de sentir o sal do mar a secar-me a pele.
Gosto de uma falésia ao despontar do dia e da humidade fria do nevoeiro.
Gosto de apanhar uma pedra e descobrir que tem um fóssil, de lhe dar um nome e levá-lo para casa.
Gosto de olhar à volta e descobrir que só eu estou ali, de subir uma colina e, sentado no topo, observar tudo em redor.
Gosto de me sentar em alpendres de madeira de casas de granito, em tardes de Maio, sentindo o cheiro quente da flor de tília.
Gosto de manipular palavras simples, dançando em pontas de carvão sobre folhas alvas.
Gosto do barulho dos regatos em troços de montanha.
Gosto de portas, portas que se podem fechar ou abrir em função do desejo do momento; gosto delas maciças (e que não se desenhem traços psicológicos à custa desta simples manifestação).
Gosto de livros e do cheiro do papel, do cheiro do café e do seu sabor.
Gosto de coisas simples.
Gosto de gostar sem que se saiba que gosto
E gosto do gosto de gostar de ti.


quarta-feira, 17 de maio de 2017

Sobre a sobreposição de 2 espaços no tempo





O ritmo tem de ser coordenado entre os dois planos, em movimentos fluidos, apressurados que não apressados, gravitando em torno do verbo sentir.
Sugere-se começar com um ritmo de valsa lenta, numa curva ascendente, em que o clímax é antecipado por um rufar de tambores.
A acção transita para movimento aceleradamente descontrolado; os planos colapsam no espaço confinado; a horizontalidade perde o sentido.
O som torna-se abstracto, a paisagem desfocada e a força é puro instinto.
Os espaços colam e descolam para lá da razão.

E, depois de recuperar o fôlego...já se fumava!


quarta-feira, 3 de maio de 2017

Da linha hipnótica da boca


Vejo-te falar e não oiço
Duas linhas carnudas de sangue
desenhadas na maldade da perfeição
Traços de uma sensualidade que me ensurdece
Frágil se torna a luz no teu reflexo
Teus cabelos, ondas revoltas onde meus dedos se afogam
E tu uma praia
Onde as gaivotas esboçam no ar o meu desejo
E a areia a cama onde te quero
Cega é a ausência do teu toque
E negra a distância que nos separa


terça-feira, 2 de maio de 2017

E um belo dia tornas-te analfabeto de ti



Um dia, sem que o saibas, fecharás a penúltima página do teu livro, sem chegar a abrir a última.
Essa não a lerás, não saberás o que lá foi escrito, mas será a mais importante página da tua vida porque é lá que ficará registado o teu legado.
A última página será escrita a várias mãos, em diferentes caligrafias, em formatos emocionais diversos; e será escrita por tempo indeterminado, até que a última memória que de ti houver chegue à penúltima página do seu livro.
Tu, que por tanto tempo, escreveste uma história envolvendo tantos personagens, que sem o saberem, foram por ti ligados numa rede complexa de vivências, não terás a percepção de quando te será escrita a palavra fim.
Quem foste, o que foste para os outros, o que significou a tua vida, só o último dos teus personagens o saberá.
A ironia da situação é que nunca vestirás o fraque para receber o prémio Nobel, por muito bom que venha a revelar-se o teu livro.


segunda-feira, 24 de abril de 2017

Que se lixe a métrica



Vieram-me os olhos ao mundo
Numa golfada de ar
Surpresa em forma de dor
Pranto com sabor a sal
Companhia de vida
Em formato pendular
Vida quase sempre ausente
Hoje vejo o presente
Não vislumbro um futuro
E ao renegar o passado
Em passadas transviadas
Virei costas ao mundo
Tornei-me a sombra do nada

Do insano fingimento



Diz-se que um animal ferido pode enlouquecer da dor. Eu acredito e vou mais longe: um ser humano ferido nos seus sonhos pode perder a razão, pode não querer respirar, pode querer apenas ficar sentado, rodeado de silêncio, fitando algo, para lá do horizonte. Algo que só está lá para ele, que fica lá para ele, até que páre de respirar.
Há feridas que podem causar insanidade, dores que podem deixar cicatrizes, cicatrizes que não fecham.
É perigoso o jogo da paixão segundo as regras do desejo. E tal como esta musica se desenvolve num crescendo, até atingir o climax, assim pode evoluir a dor da ferida não cicatrizada, a dor não fechada, o desejo não atingido, a paixão não cumprida,
É tudo insanidade, só insanidade e lá no fundo, bem na curva do horizonte, a figura acena e sorri.


segunda-feira, 3 de abril de 2017

Brincar às palavras



Eu amo
tu amas
nós amamos
eu amo múltiplos
tu amas diversos
nós amamos multidões
Eu traio
tu trais
Nós não traímos
Somos o casal perfeito
As palavras
As palavras não têm sentimentos
As palavras expressam sentimentos
Os sentimentos
Os sentimentos dificilmente se expressam
Embora possam ser expressos
A imagem
A imagem é mais forte que o sentimento
A imagem é facilmente manipulada
As pessoas
As pessoas são facilmente manipuladas
e manipulam facilmente
As palavras de novo
As palavras que expressam sentimentos podem ser manipuladas
Novamente os sentimentos
Os sentimentos são manipulados e não têm palavras
O som
O som das asas expressam liberdade
Os sons podem ser recriados
Manipular
Manipular é recriar?
Expressar
Expressar sentimentos é manipular
O verbo manipular
Eu manipulo
tu manipulas
A pura diversão
Todos nos divertimos
O fim
e depois morremos

sábado, 25 de março de 2017

Alucinações em www.com ou Realidades em WiFi



Vozes sem rosto
Multidões sem forma
Cortadas por formas geométricas
A preto e branco
Céus de violetas
Em tons caqui
Fumos espessos
Escapam por entre os dedos
E a rua flui até ao seu fim
Ao meio um cruzamento
Ou será uma encruzilhada
Onde mulheres se perdem
Se mostram, se expõem
Um red light district.com
Em formato de bolso
E os homens espumam
(os homens espumam sempre e facilmente)
Os homens agitam-se
Os olhos excitam-se
Em céus de violetas
Com tons de caqui
Conversas estudadas
Frases usadas
Dirigidas, manipuladoras
Conversas pobres
Que acabam em trapos espalhados no chão
E os céus de violetas anunciam tempestade
E há sempre uma nova praia
Uma enseada à espera de ser descoberta
E um porto de abrigo usado, desgastado, devoluto
A cabeça estala, a dor agudiza
A noite vai longa, quase morta
E o copo nunca esteve vazio


Reflexos vidrados


Acordei dorido
Quebrado pelo peso do que sinto
Fatigado desta luta fratricida
Hoje é apenas mais um dia
Uma soma sem significado
Uma subtracção existencial
Hoje o céu é o mesmo de outros dias
E as horas são repetidas
Os sons são ecos
E os ecos imagens que não queria
Não pedi para acordar
Não rezei por mais um dia
Não gritei por justiça
Nem concebo um perdão
Mas anseio por uma paz
Que não consigo expressar
Em simulacros de escrita
Sem ter dormido, acordei
Em contagem decrescente

quarta-feira, 8 de março de 2017

O vinil do amor

Lado A

Sonha.
Sonha um sono infantil, uma aventura sem nexo, mas sonha e no sonho sorri. Foge da realidade, descansa a cabeça na almofada e deseja viver, inconsciente, uma felicidade. E, em sonhos, sorri. Sê feliz, mesmo que seja só a fingir.



LADO B

E gritou, gritou bem alto em silêncio. E chorou uma tempestade de lágrimas desidratadas a dor que, no peito, o quebrava.
Sentiu-se impotente, sentiu-se amputado do seu amor. E desta vez gritou em desespero, um grito horripilante, um uivo de lobo solitário. As chagas da memória abriram e tornaram-se pústulas hediondas.
Das costas, dois fios de sangue, duas asas amassadas; asas de desejo, desejo arrancado pela raiz.
E não quis saber do sol, não sentiu o vento morno, ignorou quem passava; olhos raiados de um frio cortante. Não mais a luz, não mais a cor, apenas o luto derrotado da sua arrogância. E errante se perdeu nas vielas escuras do desnorte.


domingo, 29 de janeiro de 2017

Geração transfronteiriça

Texto deprimente para avançados de vida ou, a porra da vida passou por mim de carrinho


Se tens a minha idade, andaste numa escola primária, usaste um quadro de ardósia, paus de giz branco, sentavas-te num banco de madeira, tampo inclinado. Os teus pais deram-te um estojo com lápis de carvão, esferográfica Bic, borracha, afiadeira. O teus professor obrigava-te a fazer contas de cabeça e tiveste de decorar as dinastias, a divisão administrativa do País (ainda um Império de sonhos tresloucados), o nome das serras, dos rios e mais uma série de coisas “inúteis”, que os jovens de hoje, com um clique, descobrem num minuto na Internet.
Ao fim de alguns anos a penar de lápis e borracha na mão, com um pouco de sorte recebeste uma calculadora. Se foste para a faculdade, começaste a ouvir falar de uns equipamentos muito grandes, chamados computadores, que permitem fazer rotinas de cálculo complexo; antes tens de aprender umas estranhas linguagens, a que chamam linguagem de programação e aprender a furar uns cartões. Os computadores são máquinas enormes, em enormes salas e há longas filas para quem quer programar.
Acabas a faculdade ou o 12º ano e arranjas emprego. Os projectos demoram semanas a fazer, tudo à mão.
Um belo dia o teu chefe dá-te para as mãos um computador de mesa, com uns programas de cálculo, outros de texto, uns programas de desenho e uma coisa que se chama e-mail e lá tens tu de aprender tudo porque os teus jovens colegas, uma geração mais novos, já aprenderam a usar aquilo tudo na escola. Sentes-te deslocado, este não é o mundo em que te formaram e tens de aprender tudo de novo, porque os empregos escasseiam, a concorrência dos mais novos é feroz e eles levam-te vantagem com essas novas tecnologias. Esforças-te por aprender, a tua experiência já não tem qualquer valor; os novos gestores olham para ti como um técnico caro e o mercado de emprego tem gente disponível e a mais baixos custos.
Conforta-te, foste criado numa sociedade que vivia ao ritmo da vida e dos ponteiros do relógio e, de repente, vives numa sociedade de bytes, megabytes e gigabytes.
Aderes aos computadores, deslumbras-te pela Internet e pelos telemóveis, rendes-te completamente às novas tecnologias. Este novo mundo permite-te quase tudo sem teres de sair de casa. De repente descobres que não tens privacidade, expuseste completamente a tua vida.
Pertences a uma geração que viu morrer um conceito social e nascer outro completamente diferente e, podes sentir-te deslocado ou mesmo perdido com os novos valores sociais. Já não vives na tua aldeia, vila ou pequena cidade, és um cidadão global e a dimensão do teu novo mundo é assustadora.
Tens o direito à diferença e à indignação, mas há muito que perdeste essas qualidades e não queres ser visto como um “marginal”. Ensinaram-te que ser diferente pode ter um preço demasiado alto, por isso resignas-te, inconformado contigo. E essa dualidade consome-te, roí-te o amor-próprio e deixa-te amargo.
Descansa, morrerás como qualquer outro e, em pouco tempo, já ninguém se lembrará de ti.
Consola-te, a tua morte é coisa que não terás de programar.